É sob a névoa da guerra EUA/Israel-Irão que o Banco Central Europeu (BCE) volta a reunir-se esta semana.
O mundo mudou completamente desde a última reunião da instituição no início de fevereiro.
Com o fecho do estreito de Ormuz pelo Irão, o mundo deixou de ter acesso a 20% do petróleo e gás, no que já é o maior corte ao fornecimento de energia da história.
Com os preços da energia a subir, e com o preço do barril de petróleo já instalado acima dos 100 dólares, com as devidas pressões inflacionistas, os governadores centrais da zona euro voltam a reunir-se amanhã, quinta-feira, 19 de março.
Num inquérito realizado pela "Reuters" junto de economistas e analistas, mais de 90% (67 em 72) consideram que o BCE deverá manter a sua taxa de juro principal nos 2% em 2026, uma previsão inalterada desde outubro.
Mas os especialistas reviram em alta a sua previsão de inflação de 1,9% para 2,3% entre o primeiro e o segundo trimestre. Para 2026, a expetativa subiu de 1,8% para 2%.
A taxa de inflação na zona euro subiu de 1,7% em janeiro para 1,9% em fevereiro.
O grande receio agora é de um novo choque inflacionista, tal como aconteceu após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
A presidente do BCE deu garantias recentemente de que a instituição está preparada para atuar: "vamos fazer tudo o que for necessário para assegurar que a inflação fica sob controlo e para que os franceses e os europeus são sofram com os mesmos aumentos de inflação como os vistos em 2022 e 2023”, disse Christine Lagarde a 10 de março.
Uma eventual subida das taxas de juro no futuro já está a ser criticada pelos analistas. "Mantenho sérias reservas quanto à utilidade de elevar juros perante choques exógenos. Ao contrário de um cenário de sobreaquecimento da procura, juros altos face a custos de energia elevados acabam por ser, eles próprios, um fator de indução inflacionista através do agravamento dos custos financeiros das empresas. Em 2022, o BCE agiu bem ao abandonar as taxas negativas, mas os 4% atingidos nos dois anos seguintes acabaram por penalizar excessivamente o investimento, o consumo das famílias e a confiança", disse o economista Filipe Garcia em artigo de opinião no Jornal Económico.
A grande questão neste momento é a duração da guerra. Se for mais curta, os riscos podem ser atenuados; mais longa, os riscos acumulam-se.
"Esperamos que o BCE mantenha as taxas em 2,0% na reunião de 19 de março e comunique que olhará para além dos picos transitórios nos preços da energia. Ao mesmo tempo, a presidente Lagarde provavelmente enfatizará a extrema incerteza", segundo Martin Wolburg, Economista Sénior dos italianos da Generali Investments.
Também o BNP Paribas espera que os juros fiquem inalterados, mas o BCE deverá abandonar a "retórica de que a política monetária está num “bom ponto”, adotando um tom mais prudente e atento aos riscos".
"O cenário mais provável é o de uma abordagem de “esperar para ver”, com o BCE a sublinhar que continuará preparado para agir caso seja necessário para garantir a estabilidade dos preços", segundo a nota.
Os analistas do banco francês não acreditam numa "resposta preventiva do BCE" dadas as "diferenças estruturais face à crise energética de 2022".
No cenário central do BNP Paribas, "não é antecipada qualquer subida das taxas de juro este ano", mas os analistas deixcam a porta aberta no caso de o petróleo manter-se acima dos 100 dólares por barril durante vários meses, "o que poderia desencadear efeitos de segunda ordem na inflação".
Por sua vez, o banco neerlandês ING considera que o "bom lugar" de Lagarde "permanece intacto por agora, mas a sala de pânico está aberta".
O analista Carsten Brzeski destaca que, com as "memórias dolorosas de 2022 quando o BCE subestimou a persistência da inflação causada pela energia", o conselho do BCE deverá "adotar um tom mais firme e 'hawkish', com um forte ênfase na vigilância e uma vontade de atuar se surgirem pressões na segunda ronda". Afastado está um corte nas taxas, com os preços da energia a disparar.
O BCE também vai divulgar previsões económicas na reunião de quinta-feira.