O vice-presidente da cadeia de fornecimento de PET e poliéster da Independent Commodity Intelligence Services (ICIS), Antulio Borneo, alerta que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou, em fevereiro, entre Estados Unidos, Israel, e Irão, está a provocar uma interrupção no fornecimento de produtos petroquímicos que se prolongará até ao próximo ano.
No caso da América Latina está a enfrentar uma "grave vulnerabilidade" nos fertilizantes e no tereftalato de polietileno (PET) justificada pela "forte dependência" das importações da Ásia e do Golfo do México.
Antulio Borneo referiu que a maioria das empresas do setor petroquímico está a projetar um cenário de conflito de três meses. A recuperação, neste cenário, seria de sete meses, puxando a normalização para janeiro de 2027, no mínimo. Aqui estão áreas como por exemplo a exploração de petróleo, a restauração da logística e o reinício das refinarias até à retoma das operações das plantas petroquímicas. O cenário mais crítico é de um conflito de seis meses, em que o período de recuperação ficaria em nove meses, com o regresso à normalidade a ficar para meados de 2027.
"Os produtos que ainda não foram encomendados estarão em falta em maio ou junho", afirmou Antulio Borneo, que adiantou que mesmo que os custos das matérias-primas se normalizem com a pressão que tem existido na oferta e na procura muitos produtos devem manter os preços elevados.
"Os produtos já em alto mar e destinados à entrega chegariam, mas o abastecimento posterior ficaria cada vez mais comprometido. Cerca de 20% da produção global de petróleo e gás passa pelo Estreito de Ormuz, e aproximadamente 40% das matérias-primas químicas são provenientes da Rússia. A exposição da Ásia ao fluxo de produtos através do Estreito varia entre 50% a 90%", salientou.
"Os principais produtos afetados no Médio Oriente incluem o metanol – a maior exportação da região – bem como o etilenoglicol (EG), o polietileno (PE) e o polipropileno (PP), com trabalhadores evacuados e fábricas encerradas em toda a região", acrescentou.
O vice-presidente da cadeia de fornecimento de PET e poliéster da ICIS, salientou que as refinarias "estavam a dar prioridade" à produção de combustíveis em detrimento da produção de produtos químicos, dada a "escassez" de matéria-prima, uma vez que os produtos químicos representam cerca de 5% da utilização dos fluxos derivados do petróleo bruto e, consequentemente, "estão a ser despriorizados". Isto acabou por ser visível nas margens da nafta, que Antulio Borneo referiu que "estavam a crescer muito mais rapidamente" do que as margens gerais de refinação, "pressionando os produtores a jusante que não conseguiam repercutir" estes custos.
"Havia um excedente de 2,5 mil milhões de barris por dia na produção de petróleo e a economia global já estava mais fraca, com a China a enfrentar dificuldades demográficas estruturais e a atividade industrial global em baixa. O crescimento económico global previsto para 2026 é de 2,6%, abaixo dos 2,8% do ano passado. Nas Américas, o crescimento esperado nos Estados Unidos é de 2,2% e no Brasil, de 1,6%", salientou.
Antulio Borneo, referindo-se à América Latina, disse que o Brasil lidera a região em determinados segmentos petroquímicos e tem capacidade de craqueamento, embora a um "custo elevado". Quanto à Argentina também opera grandes unidades de craqueamento e detém "vantagem" em produtos refinados e polipropileno, enquanto o Brasil é "mais forte" em especialidades químicas e bioquímicas. "A Colômbia, o Chile e o Peru também estão presentes nos mercados regionais, embora com infraestruturas mais limitadas", descreveu.
"O Brasil e a Argentina enfrentam uma significativa dependência da importação de ácido tereftálico purificado (PTA) – matéria-prima para a resina PET – sendo que ambos os países, juntamente com o Chile, dependem fortemente do fornecimento asiático", disse.
"A dependência do Brasil em relação à importação de fertilizantes foi apontada como uma vulnerabilidade particular, dado o consumo nacional de ureia a rondar os oito milhões de toneladas/ano. A Petrobras, gigante estatal brasileira do sector energético, anunciou o retomar da construção de uma grande fábrica de fertilizantes, em resposta ao interesse do governo em reduzir a dependência das importações do país. A paragem trouxe um lado positivo para a região. Com a concorrência da Ásia e do Médio Oriente prejudicada, a capacidade produtiva da América Latina, de custo mais elevado, passou a ser mais utilizada – uma tendência também observada na América do Norte e na Europa", acrescentou o vice-presidente da ICIS.
Antulio Borneo referiu que o custo mais elevado é aquele em que "não há" produção nenhuma. "Por uma razão infeliz – a guerra –, existe uma oportunidade para os produtores regionais melhorarem a sua rentabilidade num determinado período", sublinhou.