"A correlação entre classes de ativos tem aumentado este ano, deixando os investidores mais cautelosos face a eventos de risco", afirma o analista da ActivTrades, Henrique Valente. Os motivos? Debasement trade, dívidas soberanas, inflação, e a desvalorização do dólar.
"O aumento da correlação pode ser observado particularmente em momentos de stress, quando os investidores tendem a vender indiscriminadamente as posições para obter liquidez", assinala Henrique Valente, em entrevista ao Jornal Económico (JE).
A título de exemplo, sublinha Henrique Valente, tem estado o ouro (que é visto como ativo de refúgio em alturas de maior incerteza), que nas últimas semanas tem "negociado menos como um ativo de refúgio e mais como um ativo de risco, desvalorizando em sintonia com os índices bolsistas, o que sugere vendas forçadas ou desalavancagem", explica o analista da ActivTrades.
Questionado sobre o quão alavancados estão os investidores em ouro, ou em outros ativos de refúgio, o analista da ActivTrades salienta que a alavancagem está hoje "bastante disseminada" nos mercados, o que "dificulta" a obtenção de dados empíricos sobre a sua dimensão no ouro. "Ainda assim, as valorizações muito expressivas no ouro e, sobretudo, na prata a que assistimos em janeiro, seguidas de correções acentuadas, são consistentes com dinâmicas de chamadas de margem e liquidações forçadas", reforça Henrique Valente.
Recorde-se que o ouro nos últimos 12 meses valorizou 67% e a prata subiu 131% (valores retirados a 18 de fevereiro). A 30 de janeiro a prata caiu 30% naquele que foi o seu pior dia desde março de 1980, como referiu a CNBC, enquanto que o ouro (mercado spot) apresentou uma quebra de 9%, na maior queda num dia desde 1983, como assinalou a BBC.
Ouro é ativo de refúgio mas está a comportar-se como ativo de risco
"Historicamente, o ouro continua a ser o ativo de refúgio por excelência. Sobe em tempos de crise e quando o risco macro aumenta, sobretudo no médio e longo prazo. No entanto, hoje vemos em vários momentos o ouro e os ativos de risco a reagirem da mesma forma às notícias, especialmente quando se perspetivam descidas das taxas de juro", sublinha o analista.
Um dos motivos que explica esta mudança de comportamento está o debasement trade, um termo que se refere à movimentação de capital para fora de ativos como moedas e títulos de rendimento fixo, como por exemplo obrigações, para os chamados hard assets, onde se inclui por exemplo as matérias-primas como o ouro. "Os investidores veem um risco crescente associado à dívida soberana das principais potências mundiais e antecipam que o problema da dívida seja, em última instância, resolvido através da desvalorização da moeda", refere Henrique Valente.
"Num contexto em que os Estados Unidos toleram uma inflação estruturalmente mais elevada e mantêm uma política monetária acomodatícia, o dólar tenderá a desvalorizar, enquanto os ativos reais, como commodities (matérias-primas na tradução portuguesa) e as ações, passam a funcionar como refúgio", diz Henrique Valente. O analista da ActivTrades assinala que é com este pano de fundo que se pode justificar o "aumento" da correlação entre várias classes de ativos, porque a própria distinção entre ativos de risco e ativos de refúgio "começa a esbater-se".
Mudança tem sido progressiva
Henrique Valente salienta que esta mudança [maior correlação entre ativos de refúgio e os de maior risco] tem sido "progressiva". O analista da ActivTrades explica que a pandemia foi um marco importante nessa alteração porque "trouxe de volta a inflação e obrigou os bancos centrais a adotarem políticas monetárias expansionistas".
A isto juntou-se uma "explosão" da dívida pública, sobretudo nos Estados Unidos, que "reforçou" a perceção de que o problema da dívida "só poderá ser parcialmente resolvido" através de uma inflação mais elevada.
"O elevado endividamento público reduz a capacidade dos bancos centrais para manter taxas reais elevadas por períodos prolongados e aumenta a atratividade de ativos reais como proteção contra a desvalorização monetária", sublinha o analista da ActivTrades.
"A reeleição de Donald Trump também contribuiu para esta mudança, porque reforçou a perceção de que a política monetária poderá ser instrumentalizada no futuro para sustentar o crescimento e a valorização dos ativos financeiros, colocando em causa a independência do banco central", reforça Henrique Valente.