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Habitação. Custos de construção estão na rampa de lançamento. Até onde irão?

Água a escorrer timidamente, humidade a entranhar-se, paredes que escurecem.

Até quando? Os vizinhos de um prédio em Lisboa decidiram que já chegava e pediram um orçamento para resolver de vez as infiltrações nas traseiras do edifício. No total, 16 mil euros mais IVA, incluindo trabalhos que já tinham ficado à espera de melhor oportunidade. Só que o dinheiro não estica e acabaram por adiar.
Um ano e várias tempestades depois, voltaram agora à carga. Ainda não conseguiram falar com a mesma empresa, mas já têm novos valores em mãos, de outras construtoras: o mesmo trabalho fica entre 28 mil e 30 mil euros. Os orçamentos não são diretamente comparáveis, mas estes vizinhos alimentam pouca esperança em conseguir valores próximo de há um ano — que já então lhes parecia elevado.
Numa fase em que as construtoras têm falta de mão de obra mas não têm mãos a medir — com o PRR em pressão máxima e, mais ainda, com as catástrofes no Centro —, a procura residencial continua elevada e a oferta está longe de acompanhar. Resultado: o preço das casas em Lisboa subiu mais de 18% em 2025, com o valor médio do metro quadrado a ultrapassar os cinco mil euros pela primeira vez.
Se esta evolução percentual fosse aplicada tal e qual às obras nas traseiras, estariam em causa cerca de 19 mil euros. Só que, além de várias outras variáveis, num mercado assimétrico, as remodelações enfrentam uma pressão adicional: como a procura é muito elevada, as pequenas obras — pequenas, da perspetiva das empresas de construção — ficam no fim da linha. Em todo o caso, dificilmente justificará pagar o dobro do que teriam pago no ano passado e, por isso, os vizinhos vão continuar à procura.
No entanto, o caminho que os custos na construção têm seguido, a par dos novos desenvolvimentos geopolíticos, não augura boas notícias (apesar do IVA a 6%).
Ainda o Irão não tinha sido atacado e os custos para construir uma casa nova já aumentavam 4% (variação média anual), segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Janeiro foi o terceiro mês consecutivo com este valor, o mais elevado desde novembro de 2023.
Há não muito tempo foi bem pior: a partir do verão de 2021, este indicador escalou durante um ano e meio, atingindo um pico de 12,3% em janeiro de 2023 — primeiro, a reboque da crise das cadeias logísticas, ainda na pandemia, e, logo de seguida, com a invasão da Ucrânia, que fez disparar os custos da energia. O problema foi então agravado pelo custo dos materiais, que subiam 16% no final de 2022.
Nos anos seguintes, os custos foram abrandando progressivamente, mas desde outubro de 2024 que encetaram uma nova (e discreta) subida. Até ao ponto em que, à exceção daquele período turbulento, é preciso recuar à crise financeira global, em 2009, para encontrar variações mais elevadas.
O problema é partilhado com a generalidade dos países europeus, apesar de cada um ter as suas especificidades. Em Espanha, por exemplo, os custos na construção tendem a cair de forma mais pronunciada em tempos difíceis do que em Portugal — foi assim na crise do euro, na pandemia e na Ucrânia.
A verdade é que, em 2025, entre os 16 Estados-membros que têm dados atualizados no Eurostat, Portugal ficou em quarto lugar nos custos da construção de casas, a par da Lituânia (4%). Só Bulgária (+11,8%), Roménia (6,9%) e Eslovénia (4,4%) tiveram uma pior evolução.
Para já, e ao contrário do que se passou entre 2021 e 2023, o problema não está nos materiais, que em janeiro subiam 1% (variação média anual), mas antes nos custos com a mão de obra: o aumento passou de cerca de 5%, antes da invasão da Ucrânia, para a casa dos 8% em 2024 e 2025. Em janeiro, a variação média anual era de 7,7%.
E tudo isto sem que tenhamos falado sobre a guerra no Irão, que está rodeada de incertezas e tem potencial para penalizar gravemente as economias.
Os tempos, sabem aqueles vizinhos, não podiam ser piores para fazer obras nas traseiras do prédio. Mas os custos da construção voltaram a estar numa rampa de lançamento. E ninguém sabe até onde irão.

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