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“Há muito capital disponível, não há é, se calhar, tantas oportunidades”

Lidera o Corporate and Investment Banking (CIB) do Santander, um dos protagonistas na banca de investimento em Portugal. Ser parte de uma rede, forte, internacional, é uma vantagem para ter posição no mercado de fusões e aquisições (M&A). Que acredita vai recuperar, nos próximos seis meses, no próximo ano e meio. Porque há oportunidades.

Completa um ano à frente do CIB do Santander, um dos líderes na banca de investimento. Que balanço faz? Como tem evoluído o negócio?
Parece mais do que um ano. Tem corrido muitíssimo bem. Eu já estou há 21 anos no banco, portanto foi uma transição com uma certa naturalidade e a verdade é que recebi uma equipa fantástica. Na minha opinião, é a melhor equipa a fazer banca de investimento em Portugal e é claramente o maior privilégio da minha carreira poder liderar esta equipa. O João Veiga, o meu antecessor, já tinha elevado o patamar deste negócio no banco para um nível muito alto e de proximidade com todos os clientes de referência do país. Por isso, o meu foco tem estado muito no aprofundar desta proximidade aos nossos clientes e, sobretudo, aprofundar ainda mais a nossa proximidade local, aquilo que é a máquina Santander com todas as suas valências. Para que com isso possa trazer as melhores ideias, os melhores conteúdos para os nossos clientes. É esse o objetivo.

Participam em grandes operações, surgem nas posições cimeiras do ranking da TTR, foram escolhidos pela Euromoney como o melhor banco de investimento para M&A. Como vê o desenvolvimento deste mercado?
É obviamente um orgulho receber essas distinções, mas muito mais do que prémios, a distinção mais relevante para mim é a de sentir que fazemos a diferença pelos nossos clientes e sentir esse reconhecimento do lado dos nossos clientes. Isso sim, é o mais importante, e daqui a 10 anos gostava que os meus clientes olhassem para trás e, claro, além de verem um banco que faz transações grandes, verem sobretudo uma prática de banca de investimento que esteve lá no dia a dia e que os acompanhou em formato de parceria, mais do que no formato de grandes transações isoladas.
É verdade, temos estado presentes nessas operações. Ainda este ano fechámos com a Bondalti a sua OPA [oferta pública de aquisição] sobre a Ercros, em Espanha, uma empresa portuguesa a adquirir uma empresa espanhola para fazer um grande campeão no setor químico. É um enorme orgulho trabalhar com este cliente e nesta operação, naquela que foi a maior OPA da história de Espanha. É muito por aqui que nós queremos estar, nesta lógica de parceria, muito mais do que numa lógica transacional, porque para concluir operações destas com sucesso não basta fechar a operação, é preciso estar lá no dia a seguir, com equipas no terreno para assegurar um crescimento e uma rentabilização desses investimentos e dessas operações.

Sendo parte de um banco internacional, há uma vantagem para aceder a este tipo de negócio. Os clientes dão importância à capacidade financeira, mas também à rede em vários mercados?
Sem dúvida. Eu penso que essa é uma das nossas grandes vantagens competitivas como player em Portugal. Conjugaria dois aspetos: o facto de sermos um banco local muito presente e essa característica global. Somos um banco local, a história do Santander em Portugal tem 180 anos, existimos há mais tempo do que o próprio Santander e o nosso compromisso com as empresas e com os clientes portugueses vem dessa longa data e isso é muito importante. Conjugando com isso o facto de sermos um grande grupo global, não há dúvida de que é uma vantagem que temos. E o banco, a nível global, tem investido muito. Nos últimos anos, contratámos algumas centenas de profissionais nos Estados Unidos, seniores, oriundos do Credit Suisse, mas também de outros bancos de investimento internacionais. Muitos deles vieram criar áreas de cobertura de indústria. Ou seja, além de termos bankers que cobrem clientes, naturalmente, como todos os bancos, temos esta equipa organizada por setor, desde a defesa ao setor químico, desde as infraestruturas à energia, telecomunicações, setor financeiro. As tendências globalizam cada vez mais rápido e o facto de termos esta equipa que nos apoia é fundamental.

Estarem em vários pontos do globo ajuda também a ser ponte para o investimento estrangeiro, que se tem notado no mercado transacional. Faz com que tenham a capacidade de ser a ponte óbvia para um investimento em Portugal?
Claro. Quando digo que o meu objetivo tem sido estar mais próximo dos nossos clientes, mas sobretudo dos nossos parceiros internos, vou muito ao encontro dessa ideia. Hoje em dia, Portugal é uma oportunidade fantástica para as empresas portuguesas. Portugal está nos olhos do mundo, está completamente integrado nos fluxos de capital, diria globais. Estas entidades institucionais, family offices, fundos de infraestruturas, fundos de pensões, já não vão só aos três ou quatro grandes clientes portugueses, estão no mid-market, portanto, vão a todo o lado. Interessam-se. E Portugal tem empresas fantásticas, gestores com cada vez maior qualidade e mais profissionalizados, uma nova geração de pessoas que estudam nas melhores faculdades de gestão do mundo. Por isso, claramente isto é uma enorme oportunidade e nós estamos muito bem posicionados para, de facto, fazer essas introduções, apresentar oportunidades aos nossos parceiros lá fora e trazê-los. No fundo, criar aqui pontes para que os nossos clientes em Portugal tenham melhores oportunidades de crescimento, melhores condições para poder inovar, para se poder internacionalizar.

Que setores têm mostrado maior dinâmica nestes processos?
Dividiria, talvez, em dois tipos de oportunidades, dois tipos de situações. Por um lado, tudo o que são setores regulados. Tudo o que são setores de infraestruturas, ligados à energia, mas não apenas, também águas, saneamento. Penso que, em tempos de elevada volatilidade e de muita incerteza, são claramente bons refúgios de capital. Existem muitas oportunidades e temos visto muitos processos em curso no país, são públicos. No setor das telecomunicações também. Por aí penso que existe uma enorme atratividade para ser competitivo na hora de apresentar uma proposta para um ativo português. Por outro lado, numa lógica também de digitalização, numa lógica de introdução de mecanismos de inteligência artificial, tudo o que sejam atividades ligadas à tecnologia, ligadas aos serviços com potencial de otimização via tecnologia. Temos visto muita atividade. Por último, a indústria em geral, retalho, alimentação. Há claramente um forte apetite por esse tipo de setores.

Quando falamos com os agentes do mercado, percebemos que há pipeline, mas nos últimos dois anos não tem sido concretizado. Neste primeiro semestre melhorou um bocadinho. É a questão geopolítica que tem feito os investidores esperarem para ver? Conseguem estar tanto tempo à espera ou vão ter de o concretizar, mesmo com instabilidade?
Penso que sim. Eu sou bastante otimista relativamente a isso, porque de facto há muito capital disponível e falámos sobre isso agora, com a quantidade de players no mercado. Há muito capital disponível, não há, se calhar, tantas oportunidades quanto capital disponível, embora penso que tenhamos muitas. Aspetos como a volatilidade, não tanto ao nível das taxas de juro, mas incertezas relativamente aos custos de energia, as cadeias de abastecimento – vimos isso nos últimos dois anos –, uma incerteza quanto ao ritmo de crescimento da economia e da sua capacidade de executar pipeline, de fazer acontecer, têm eventualmente sido um travão para algum tipo de investidores, mas eu penso que os próximos seis meses e os próximos 18 meses vão ser ricos em M&A. Acredito nisso.

Mesmo com a instabilidade? E, agora, sem sabermos o que vai acontecer com as taxas de juro depois deste surto inflacionista.
Sim, não sabemos. Ninguém tem uma bola de cristal, não sabemos o que vai acontecer.

As bolas de cristal, ultimamente, não têm funcionado.
Exato. Quem investe também pode recorrer a mecanismos de mitigação desse tipo de riscos. Por outro lado, os spreads na banca também estão a níveis bastante competitivos, o custo do dinheiro não é elevado, as taxas de juro não estão a níveis absurdos. Portanto, não acho que seja tanto por aí. Claramente, o custo da energia é uma preocupação para os setores que sejam mais consumidores de energia. Eu penso que aí Portugal tem uma vantagem competitiva, que é o trabalho que foi feito pelos vários governos nos últimos 15 anos. Tanto em Portugal como em Espanha, mas diria até mais em Portugal. Acho que somos, como alguém disse, uma ilha energética no meio da Europa. Inicialmente muito motivados por uma agenda de sustentabilidade, mas que resulta agora numa agenda de soberania energética. Portanto, tudo o que seja eletricidade, estamos bem. Tudo o que seja dependência de combustíveis é mais difícil, mas eu penso que a economia e os investidores têm tido recorrentes lições relâmpago para gerir risco. Vivemos a covid-19, vivemos a invasão da Ucrânia, vivemos interrupções nas cadeias de abastecimento. Estamos todos, se calhar, mais bem preparados, a economia bem capitalizada, muita liquidez, e é preciso fazer acontecer.

A inteligência artificial é inescapável. Já estão a utilizar esse tipo de ferramentas e outras tecnologias no vosso negócio internamente? Já começam, já estão com processos em desenvolvimento e com que resultados?
Se estivéssemos a começar agora estávamos com problemas graves.
A banca tradicionalmente é um forte investidor em tecnologia. Nós não somos exceção, temos investido muitíssimo em inteligência artificial, utilizamo-la na nossa atividade, na automatização de alguns processos. No negócio da banca de investimento, em particular, para melhorar atividades de investigação, análise, é obviamente muito importante. Diria que mensalmente vamos tendo novidades e vamos tendo melhorias nesse aspeto. Portanto, é um caminho que se está a caminhar a uma velocidade bastante forte. Agora, eu penso que no fim do dia estaremos sempre a falar de uma combinação entre tecnologia e talento humano. O talento humano, na nossa atividade, é fundamental, e o core business de um banco é a credibilidade, é a confiança dos nossos clientes. Ou seja, a confiança dos clientes no gestor que está atrás do balcão, que lhe vai vender o produto adequado e não uma coisa qualquer, a confiança num banco que mantém os depósitos seguros. A nossa rede de 180 milhões de clientes são 180 milhões relações de confiança e eu penso que isso será sempre fundamental.

Noutros setores, como a consultoria e a advocacia, há mudanças estruturais com a introdução de novas tecnologias, desde o pricing à operação. Na banca de investimento vê estas mudanças?
Eu penso que a banca de investimento é muito lata. Temos muitos produtos, muitas áreas. Algumas poderão ter mudanças mais relevantes, mas no fim do dia eu penso que é [a relação pessoal]. Os nossos clientes vão ser cada vez mais sofisticados, a assimetria de informação que existe entre assessor e cliente vai sendo cada vez menor, o que vai implicar que nós tenhamos de ser cada vez mais rápidos, cada vez mais inovadores. Mas no fim da linha está o relacionamento entre pessoas, a compreensão das necessidades do outro e esta tal capacidade num grupo grande como o nosso de ser capaz de fazer pontes, entre clientes, fazer pontes entre clientes e investidores. Portanto, sim, acho que vamos ter de quebrar algumas barreiras internamente. Muitas vezes, nos bancos, cada um olha para o seu setor, mas o que é um setor, hoje em dia, quando olhamos para um data center? É energia, infraestruturas, é telecomunicações. Vamos ter de evoluir, mas acho que vai continuar a ser um negócio de pessoas.

Referiu que é um negócio de parceria. Olhamos para outros setores de advisory, que antes eram muito mais focados no negócio, no momento, e que cada vez mais estão apostados em ser parceiros. Estão a tentar ser mais consultores do que executores de uma determinada tarefa. É essa a tendência?
Eu penso que sim. As tarefas de valor acrescentado são cada vez mais importantes e daí o nosso foco na assessoria, obviamente que sim, mas em banca de investimento a execução continua a ser chave. Uma execução perfeita com apoio da tecnologia, naturalmente, é fundamental. Não me parece que um banco de investimento se vá tornar numa pura sociedade de consultoria. Penso que não. Há aqui um ecossistema de produtos e é isso que os clientes procuram. Procuram soluções integradas, não apenas um M&A. Procuram o M&A, mas que acompanhe com a gestão no dia a seguir do cash, otimização de capital, mitigação do risco de taxa de juro, financiamento, e conhecimento que podemos ir transmitindo, porque, como disse, isso é uma parceria. Nós não estamos a assessorar e a informar os nossos clientes apenas para fazer um negócio, estamos porque queremos crescer com o nosso cliente e vê-lo a prosperar.

Olhando para o futuro, quais são as perspetivas para esta rentrée, para este ano e para o próximo? Revelou-se otimista, tendo em conta que as bolas de cristal deixaram de funcionar, o que é que podemos esperar?
Encaro com otimismo, otimismo moderado, como se costuma dizer. Penso que vamos continuar a viver momentos de volatilidade e de incerteza. Acho que seria extremamente otimista pensar o contrário, ou seja, é mais do mesmo nesse aspeto. Penso é que as nossas empresas, os quadros das nossas empresas em Portugal são altamente qualificados, o capital disponível para investir em Portugal é abundante, a variedade de capital é abundante, não apenas em capital, mas também em dívida, e eu penso que se juntarmos estes ingredientes, a qualidade dos nossos recursos, a disponibilidade de capital e, já agora, as nossas competências também para apoiar os nossos clientes, eu acho que são ingredientes fantásticos para que, de facto, encontremos muitas oportunidades de crescimento, de inovação, de internacionalização. E hoje em dia as empresas podem nascer globais. Portanto, o facto de sermos um pequeno país já não conta assim tanto. Por isso, vamos ver.