A Alemanha e outros cinco países da União Europeia ameaçam bloquear o próximo orçamento comunitário se não forem feitos cortes de "centenas de milhares de milhões de euros" à proposta apresentada pela Comissão Europeia, revelou o Financial Times esta terça-feira.
O orçamento da UE "tem de ser profundamente reformado", pode ler-se numa carta assinada pelos líderes da Alemanha, Países Baixos, Suécia, Dinamarca, Áustria e Finlândia. Estes países, que representam em conjunto cerca de 40% das receitas do orçamento comunitário, exigem uma revisão profunda da despesa e avisam que não vão aceitar fechar o acordo este ano sem uma redução substancial do envelope financeiro. "É preciso fazer escolhas", defendem neste ultimato, citado pelo jornal britânico.
Um diplomata de um desses países acrescentou ao Financial Times que não haverá acordo em 2026 sem cortes de “centenas de milhares de milhões".
Em causa está o orçamento europeu para 2028-2034, que exige unanimidade entre os 27 Estados-membros. Os seis governos querem reduzir o peso das políticas de agricultura e de coesão, que costumam absorver a maior parte do orçamento europeu, e transferir mais recursos para áreas como a defesa e a inovação. Mas esta posição choca com as pretensões da maioria dos Estados-membros: dezassete países, entre os quais Portugal, Espanha, França e Itália, defendem que o financiamento à agricultura e ao desenvolvimento regional deve aumentar e que o orçamento global deve mesmo ultrapassar os dois biliões de euros inicialmente propostos.
Alguns desses países admitem ainda recorrer a nova dívida conjunta europeia para financiar o aumento da despesa, uma solução que a Alemanha e os aliados do centro e norte da Europa rejeitam.
Alemanha perdeu paciência com Costa
O debate sobre o orçamento europeu já deixou a Alemanha em rota de colisão com António Costa. O presidente do Conselho Europeu tem defendido um orçamento que inclua as novas prioridades sem prejudicar a coesão e a agricultura, apontando para novas receitas europeias, mas este discurso levou o ministro de Estado alemão para a Europa, Gunther Krichbaum, a perguntar na semana passada se Costa não estaria “completamente desfasado da realidade”.
A resposta alemã surge depois de António Costa, em entrevista ao Politico, ter afirmado que ninguém estaria disponível para cortar na defesa, na competitividade ou na agricultura. Para o presidente do Conselho Europeu, se a UE quiser manter estas prioridades, terá de encontrar novas receitas próprias.
Relativamente a Portugal, que integra o grupo dos 17 “Amigos da Coesão”, Luís Montenegro já avisou que se vai opor ao próximo orçamento europeu se a política de coesão for prejudicada.