As entidades gestoras de fundos de crédito privado, setor avaliado em 1,8 triliões de dólares norte-americanos (1,5 biliões de euros), pela Axios, estão a ter fortes desvalorizações em bolsa com a corrida aos levantamentos dos investidores. Estas perdas vão desde os 15% até mais de 40%, desde o início do ano. As empresas perderam 265 mil milhões de dólares (226,5 mil milhões de euros), em valor de mercado, até meio de março, pelas contas da Fortune. No primeiro trimestre 'voaram' deste tipo de fundos 20,8 mil milhões de dólares (17,7 mil milhões de euros), avançou o Financial Times.
Mais recentemente, o Carlyle Group reportou pedidos de levantamento de 15% do seu principal fundo de crédito privado (Carlyle Tactical Private Credit Fund), que possui mais de sete mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros), ficando acima do limite máximo de 5%, por trimestre, que por norma é estabelecido por este tipo de fundo.
Mas a corrida aos levantamentos não se restringe ao Carlyle Group. Outras gestoras de fundos de crédito privado reportaram, no primeiro trimestre, pedidos de levantamentos que ficam acima dos 5%.
A Ares Management confirmou que iria limitar a 5% os pedidos de resgate no seu fundo de crédito (Ares Strategic Income Fund), que está avaliado em 22,7 mil milhões de dólares (19,5 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) quando recebeu pedidos que atingiam os 11,6%, no trimestre.
A Apollo limitou também a 5% os pedidos de resgate do fundo de crédito Apollo Debt Solutions, avaliado em 25 mil milhões de dólares (21,5 mil milhões de euros), quando recebeu pedidos de levantamento, no trimestre, de 11,2%.
O principal fundo de crédito da Blackstone (BCRED) após ter tido tido pedidos de levantamento de 3,7 mil milhões de dólares (3,1 mil milhões de euros) levantou o limite de resgate de fundos de 5% para 7%. O BCRED está avaliado em 82 mil milhões de dólares (70,7 mil milhões de euros).
A Blue Owl anunciou, em fevereiro, que iria vender 1,4 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros) em ativos de três dos seus fundos de crédito de modo a poder devolver dinheiro aos investidores e também para amortizar dívida.
E a BlackRock limitou a 5% o limite de resgaste de um dos seus fundos de crédito (HPS Corporate Lending Fund), após pedidos de resgate avaliados em 1,2 mil milhões de dólares (mil milhões de euros), no primeiro trimestre, o equivalente a 9,3% do total do fundo.
Cotadas caem mais de 20% com corrida aos levantamentos
A mais penalizada tem sido a Blue Owl Capital ao somar uma quebra de 40,7% desde o início do ano, seguindo-se a Ares Management (-32,2%), a KKR (-21,9%), a Apollo (-22,6%), a Blackstone (-20,2%), e o Carlyle Group (-16,1%). A fugir a estas perdas superiores a 15%, em bolsa, está a BlackRock (-1,4%).
Estas quedas acentuadas devem-se a vários motivos. Um dos principais são os receios de que a inteligência artificial (IA) impacte o setor do software, área onde existe investimento por parte destes fundos de crédito privado. Investidores temem que esta disrupção, que possa vir a ser causada pela IA, leve a que as empresas tenham mais dificuldades em pagar o crédito contraído através das gestores destes mesmos fundos de crédito.
Um porta-voz do Carlyle Group referiu, em declarações transcritas pela Reuters, que o Carlyle Tactical Private Credit Fund possui 950 posições e nenhum crédito individual representa mais de 1,5% da carteira. Já os ativos sob gestão aumentaram 15% face ao período homólogo. Os empréstimos diretos representavam cerca de 40% do portefólio, a 30 de janeiro, com o setor do software a ter um peso de 12%. A gestora disse ainda que não existiram incumprimentos nos seus empréstimos a empresas de software nos últimos cinco anos.
Goldman Sachs afirma que fundamentos do crédito privado "continuam sólidos"
No final de março, a Goldman Sachs abordava o estado do setor do crédito privado. Para o co-director global de crédito privado da Goldman Sachs Asset Management, Vivek Bantwal, apesar da desvalorização em bolsa, existem sinais de que os fundamentos do crédito privado "continuam sólidos".
O co-diretor da Goldman Sachs referiu que os dados indicam que os incumprimentos e os empréstimos vencidos, tanto no crédito público como no privado, "continuam em níveis relativamente baixos", acrescentando que parte do que está a ocorrer nos mercados de crédito privado "é mais técnico do que fundamental".
Existem motivos para cautela
Mas mesmo assim existem também motivos para cautela em relação ao crédito privado. "Não assistimos a um verdadeiro ciclo de crédito desde a recuperação da Crise Financeira Global. O setor do crédito privado cresceu e amadureceu nos 17 anos seguintes. Há muitos novos participantes no crédito privado que ainda não foram testados em ciclos", sublinhou Vivek Bantwal.
"Além disso, os padrões de concessão de crédito tendem a deteriorar-se durante períodos prolongados de prosperidade. Isto criará algum risco e dispersão entre os credores quando a próxima recessão chegar, mas esse risco existe na banca, no crédito público e no crédito privado. É pouco provável que os ciclos de crédito terminem, a não ser que haja uma recessão", considera.
Apesar de Vivek Bantwal destacar a "exposição significativa" que alguns gestores possuem a empresas de software e tecnologia, em alguns casos atingindo 25% ou 30% das suas carteiras, também diz que esses mesmos empréstimos "estão no topo da estrutura de capital e relativamente protegidos" contra reestruturações.
Banco não vê risco sistémico no crédito privado
Vivek Bantwal diz ainda que quaisquer potenciais riscos que os mercados de crédito privado possam representar para o sistema financeiro como um todo são "atenuados" por diversas razões. "O risco sistémico em períodos anteriores, como a Crise Financeira Global, caracterizava-se pela concentração, interligação, elevada alavancagem e desfasamento entre ativos e passivos", sublinhou.
"Não vemos estas potenciais preocupações sistémicas no crédito privado atualmente. Em vez de estar concentrado, o mercado de crédito privado, que varia entre 1,5 biliões de dólares e dois biliões de dólares (1,2 biliões de euros e 1,7 biliões de euros), está distribuído por milhares de participantes com pouca interligação. A alavancagem nos veículos de crédito privado é de aproximadamente um para um. Além disso, os ativos e passivos estão bem equilibrados, pois os fundos de crédito privado fechados, e até mesmo a estrutura das BDCs (Business Development Companies), impedem ou limitam os levantamentos rápidos dos investidores", acrescentou.