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Fed volta a cortar taxas pela terceira vez seguida apesar de divisão interna

Os juros diretores nos EUA ficam assim entre 3,5% e 3,75%, o valor mais baixo desde 2022, apesar dos três votos contra, uma oposição não vista desde 2019. Também nas projeções para as taxas de juro se vê a divergência de visões no seio do banco central.

Numa decisão já esperada pelo mercado, a Reserva Federal decidiu cortar os juros diretores em 25 pontos base (pb) pela terceira vez consecutiva esta quarta-feira apesar do voto contra de nove governadores – algo não visto desde 2019. O banco central antecipa também mais crescimento e uma inflação mais baixa, enquanto no que diz respeito à trajetória das taxas de referência a divergência dentro do banco central é mais visível.

Os juros diretores na maior economia do mundo ficam assim entre 3,5% e 3,75%, o valor mais baixo desde 2022 e bastante abaixo do pico de 5,5% do atual ciclo monetário. Apesar de o emprego ter mantido uma performance positiva durante o período de inflação mais intensa, há sinais cada vez mais evidentes de uma deterioração e entrada num paradigma de estagnação, pelo que o mercado já esperava a decisão de quarta-feira.

Isso mesmo reconheceu o presidente da Fed, Jerome Powell, na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio, onde falou de “uma situação desafiante” no que toca à política monetária. O consenso do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) é de que “há riscos do lado do desemprego e da inflação”, mas Powell vê o banco central “numa boa posição para ver o que acontece” até à reunião de janeiro.

“Depois de cortarmos taxas em 175 pb desde setembro passado, os juros estão agora dentro da maioria das estimativas para a taxa neutra e estamos bem posicionados para esperar e ver como evolui a economia”, argumentou.

Outra nota de destaque foi a divergência de votos. A decisão não foi unânime, refletindo as divisões claras entre as fações mais conservadoras e mais agressivas do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC). Com nove votos a favor e três contra, dois dos dissidentes defendiam manter a taxa de referência atual, enquanto Stephen Miran, governador que abandona o cargo em janeiro, preferia um corte de 50 pb.

Foi a primeira vez desde 2019 que três governadores votaram contra uma decisão da Fed.

A reunião de dezembro trouxe também nova atualização das projeções macro do banco central. O PIB deve avançar 1,7% este ano, uma revisão em alta de 0,1 pontos percentuais (pp) em relação à última projeção, e 2,3% no próximo, 0,5 pp acima do projetado em setembro. Do lado da inflação, a Fed espera agora uma descida mais acentuada, apontando a 2,9% este ano e 2,6% em 2026 – revisões em baixa de 0,1pp e 0,2 pp, respetivamente.

Olhando para o famoso ‘dot-plot’ das expectativas de taxa diretora no final dos próximos anos, a maioria dos governadores aponta para um ou dois cortes no próximo ano e outro em 2027, altura em que os juros estabilizariam em torno dos 3%. Comparando com o cenário de setembro, é notória uma maior dispersão das projeções dos responsáveis pela política monetária norte-americana, mais um reflexo das visões contrastantes que dominam atualmente o FOMC.

Estas projeções mostraram ainda que seis governadores consideravam apropriado deixar os juros sem alterações na reunião desta semana, o que deixa implícito que vários dos elementos sem poder de voto também discordaram da decisão.