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Fed unânime sobe juros contra a vontade de Trump e sinaliza mais subidas até final do ano

Kevin Warsh voltou a rejeitar qualquer tipo de 'forward guidance', não incluindo uma vez mais as suas projeções macroeconómicas no exercício do FOMC, mas o mercado está a interpretar a subida da expectativa quanto à taxa terminal este ano como um sinal forte que os juros deverão subir pelo menos mais uma vez este ano. Trump, que pede cortes desde antes de regressar à Casa Branca, não se pronunciou.

A decisão era já largamente antecipada, com os mercados a atribuírem 92,5% de probabilidade antes da conclusão da reunião a uma subida de 25 pontos base (pb). Os juros diretores na maior economia do mundo ficam assim entre 3,75% e 4% após uma decisão unânime e que Warsh classificou como “sóbria, séria e responsável”.

O banqueiro explicou que a força da economia, as pressões inflacionistas e a situação geopolítica foram os principais determinantes da Reserva Federal, rejeitando que tenha sido a leitura da inflação em agosto ou do mercado laboral que garantiram a subida.

“Os mercados habituaram-se a esperar, por vezes em suspenso, por leituras pontuais. Essa não é a minha visão”, afirmou. “As tendências interessam; as leituras pontuais são ruído. A dependência de leituras pontuais é uma preocupação perigosa.”

Ainda assim, e na ausência de forward guidance pelo líder da Fed, o mercado tomou a atualização de projeções macroeconómicas como um sinal do que estará para vir em termos de política monetária.

A mediana da taxa terminal para este ano e o próximo foi revista em alta para 4,1%, ou seja, sugerindo que a maioria dos membros do FOMC vê mais uma subida de 25 pb este ano como provável. O famoso ‘dot-plot’, que traduz visualmente as projeções individuais dos responsáveis pela política monetária, indica que 16 dos 18 participantes na reunião esperam mais subidas este ano, com quatro a apontarem mesmo para mais duas subidas.

Esta visão é consistente com a revisão em alta da inflação este ano de 3,6% para 3,7%, bem como para 2028, de 2% (o objetivo de médio prazo do banco central) para 2,1%. Por outro lado, também as projeções para a inflação subjacente para este ano e 2028 foram revistas marginalmente em alta, reforçando a noção que a Fed teme uma inflação mais prolongada e persistente.

A Pantheon Macro considera em nota que “a extensão do pivô hawkish é surpreendente, dadas as mudanças relativamente pequenas nas medianas do Comité para a inflação subjacente, crescimento ou taxa de desemprego”.

Combinado com a perceção da maioria do FOMC que o atual nível de taxas é restritivo, “isto sugere que as suas ideias de que será necessário mais aperto monetário mudarão rapidamente se, como antecipamos, a economia começar a perder fôlego no quarto trimestre face ao choque energético e ao impulso decrescente da economia orçamental”.

Silêncio de Trump (e Warsh)

Nomeado por Trump, que vem desde antes do seu regresso à Casa Branca a pedir cortes de juros, Kevin Warsh optou por alinhar com os mercados e voltar a subir taxas. Ainda assim, o banqueiro diz não ter comentários a fazer quanto à reação do presidente.

“Não tenho nada para vocês quanto a discussões com o presidente”, afirmou por mais do que uma vez quando questionado pelos repórteres.

Vários analistas estão, contudo, a destacar o carácter unânime desta decisão, com 12 votos a favor e nenhum contra. Este parece ser um sinal de união do FOMC na luta contra a inflação e a pressão do ramo executivo, ao mesmo tempo que os seus membros individuais mostram a sua predisposição para reinar a pressão nos preços.

Do lado de Trump ou da Casa Branca também não houve comentários no imediato. Antes da reunião, o presidente norte-americano havia ameaçado dar mais um passo na guerra comercial com o resto do mundo caso os juros diretores não baixassem.

Num tom mais forte (e, entretanto, amenizado), Kevin Hassett, diretor do Conselho Económico Nacional, afirmou na passada sexta-feira na Bloomberg TV que Trump continuava a querer um corte de taxas. Caso este não se confirmasse, “o presidente terá algo a dizer sobre isso”.