A Reserva Federal norte-americana deve deixar os juros de referência inalterados na reunião que termina esta quarta-feira, isto apesar de novo disparo nos preços da energia nas últimas semanas. O novo presidente Kevin Warsh garantiu na sua primeira conferência de imprensa à frente do banco central que a luta contra a inflação é para continuar e ser ganha e a expectativa é que este tom de ‘falcão’ se mantenha, embora sem sinais quanto ao futuro.
A reunião de julho da Fed deve terminar sem mexidas nos juros diretores, que assim permanecerão em torno de 3,75%. A inflação continua acima do objetivo de 2%, com a mais recente leitura do índice de preços no consumidor (IPC) a mostrar um abrandamento de 4,2% em maio para 3,5% em junho e, julgando pelas palavras de Kevin Warsh, a prioridade será trazer de volta a estabilidade de preços.
Na mesma linha, o indicador preferido da Fed para avaliar a pressão nos preços, o índice de gastos pessoais de consumo (PCE), ficou em 4,1% em maio, o valor mais elevado desde abril de 2023 e outro sinal claro das pressões inflacionistas. Também o índice subjacente, que descarta as categorias mais voláteis (energia e alimentação), tocou máximos de outubro de 2023, ao subir marginalmente até 3,4%.
Ainda assim, os analistas do banco ING lembram que a descida do IPC, juntamente com “as leituras positivas dos preços na produção industrial e o Livro Bege – marcado por um tom claramente ténue quanto aos preços – sugerem coletivamente que a urgência pode não ser tanta como inicialmente estimado”.
A juntar a isto, a leitura mais recente do mercado laboral, de junho, mostra mais um mês de abrandamento na criação de empregos, mas ainda sólido, com 57 mil postos criados. Perante isto, Chitrang Purani, gestor do portfólio de rendimento fixo do Capital Group, considera que “o mercado de trabalho pode ser a chave para as decisões da Fed”.
“O mercado laboral está mais fraco do que há uns anos, mas globalmente sólido. A guerra manteve a inflação acima de 2% e deverá pesar no investimento fora da IA, assim como na procura dos consumidores”, expõe. “Esta combinação acarreta mais risco de um abrandamento mais pronunciado no crescimento.”
Nesta mesma linha, os dados do Conference Board divulgados esta terça-feira apontam precisamente para mais fissuras na vertente laboral. As famílias que consideram difícil encontrar um emprego caíram marginalmente, de 21,7% para 21,5%, mas as que consideram que as vagas abundam caiu de 25,5% para 24,6%, o valor mais baixo desde 2021.
Para a Pantheon, caso a inflação comece a dar sinais de recuo, esta ligeira deterioração do mercado de trabalho pode significar que a Fed não volta a mexer nos juros até ao final do ano – uma visão que contrasta com o consenso entre analistas e investidores, que antecipam mais duas subidas até final de 2026.