Será que as saídas de capital de fundos de crédito norte-americano pode afetar o mercado europeu? E que efeito pode ter o conflito no Médio Oriente? Especialistas ouvidos pelo Jornal Económico (JE) admitem que pode existir um efeito de contágio embora ressalvem que o mercado dos Estados Unidos e o da Europa têm características distintas.
Os fundos ligados ao crédito têm colocado desafios às gestoras de ativos. A Blackstone reportou saídas de capital líquidas de 1,7 mil milhões de dólares (1,4 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) no seu fundo BCRED (dedicado ao crédito), que tem um valor de 82 mil milhões de dólares (70,9 mil milhões de euros), no primeiro trimestre. Esta saída de dinheiro levou a que a cotada decidisse aumentar de 5% para 7% o seu limite de resgastes do fundo. Já a Blue Own Capital tinha anunciado em fevereiro que iria vender 1,4 mil milhões de dólares em ativos de três fundos ligados ao crédito com o objetivo de devolver capital aos seus investidores e reduzir a sua dívida.
Estas notícias agudizaram as perdas registadas em bolsa pelo setor. Desde o início do ano a Blackstone acumula uma perda de 30%, e a Blue Owl Capital desliza 32%. A Apollo, a KKR, o Carlyle Group , Apollo, desvalorizam 26%, 29%, 15%, e 26% respetivamente.
O head of advisory da KPMG em Portugal, João Sousa Leal, considera que a Europa "não está imune" a um possível contágio vindo do mercado norte-americano. "O mercado de crédito privado europeu registou um crescimento muito significativo nos últimos cinco anos, e muitos investidores institucionais e family offices europeus têm exposição direta a gestoras norte-americanas ou a estruturas com carteiras de investimento semelhantes", refere.
O presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais (ATM), Nuno Oliveira Matos, refere que existe o risco da situação se alastrar para o mercado europeu contudo este tenderia a manifestar-se de "forma diferenciada". O presidente da ATM salienta que o mercado europeu "continua mais dependente" do financiamento bancário tradicional do que o norte-americano, o que "atenua parcialmente" o peso sistémico do crédito privado.
Já o advogado da equipa de comercial e M&A e mercado de capitais da Morais Leitão, Pedro Capitão Barbosa, referiu que embora "não vejamos" mecanismos de transmissão diretos com os mercados europeus, uma vez que os investidores e os mutuários dos fundos nas notícias em causa são maioritariamente norte-americanos, uma crise nos mercados dos fundos de crédito poderá ter "algum spill-over" nos mercados europeus de ativos alternativos: "por um lado, através de uma menor exposição, por grandes LP europeus (provedores de liquidez), a fundos de crédito (norte-americanos e em geral) e, por outro, através de uma alocação menor de investidores institucionais (tanto europeus como do resto do mundo) a fundos de crédito europeus", refere o advogado.
Mercados dos EUA e europeus são diferentes
São ainda assinaladas as diferenças que existem no setor ao nível norte-americano e europeu, o que pode ter influência no impacto que estes dois mercados podem sentir num cenário de saídas de capital dos seus fundos.
Para João Sousa Leal as diferenças entre os mercados norte-americano e europeu são relevantes. "O mercado europeu de private capital mantém uma base de investidores predominantemente institucional — fundos de pensões, seguradoras, fundos soberanos — com horizontes de investimento mais longos e menor pressão de liquidez de curto prazo. O quadro regulatório também é distinto, com salvaguardas de liquidez mais explícitas", refere o head of advisory da KPMG.
"O risco de contágio existe, mas é mais provável que se manifeste de forma gradual — através de um abrandamento nos novos compromissos e de uma maior seletividade na escolha de gestoras — do que através de retiradas em massa", considera João Sousa Leal.
Já Nuno Oliveira Matos assinala que os grandes investidores institucionais europeus operam globalmente e enfrentam as "mesmas pressões" de liquidez e de alocação estratégica de ativos.
O presidente da ATM assinala que se persistirem taxas de juro elevadas, maior incidência de defaults (incumprimentos) e reavaliações mais conservadoras de NAV (valor patrimonial líquido), "é plausível" que se observe também na Europa uma redução de novos compromissos e/ou uma maior atividade no mercado secundário com descontos.
"Ainda assim, para que se verificasse um fenómeno de retirada generalizada com impacto sistémico, seria necessário um choque mais profundo na confiança ou uma deterioração abrupta do ciclo de crédito", sublinha Nuno Oliveira Matos.
Conflito no Médio Oriente pode trazer riscos adicionais
Para João Sousa Leal a escalada geopolítica no Médio Oriente introduz três vetores de risco adicionais para o setor. "Primeiro, a volatilidade nos preços da energia afeta diretamente a rentabilidade de empresas em carteiras de private equity com exposição a sectores industriais e de transporte. Segundo, o ambiente de maior aversão ao risco penaliza o apetite por ativos ilíquidos, num momento em que os investidores tendem a privilegiar liquidez e ativos de refúgio. Terceiro, a incerteza geopolítica prolonga o ambiente de taxas elevadas, comprimindo as margens nas estratégias de Leveraged Buy Outs e/ou financiamentos corporativos com elevada alavancagem", descreve o head of advisory da KPMG em Portugal.
João Sousa Leal assinala que os ativos alternativos têm historicamente demonstrado uma "correlação mais baixa" com os mercados públicos em períodos de stress, o que pode "funcionar como elemento de estabilização" para carteiras diversificadas. "O impacto final dependerá muito da duração e da intensidade do conflito, bem como da resposta das políticas monetárias da Reserva Federal norte-americana (Fed) e Banco Central Europeu (BCE)", considera o head of advisory da KPMG.
Nuno Oliveira Matos considera que o impacto [do conflito no Médio Oriente] dependerá sobretudo da sua dimensão macroeconómica. "Um choque significativo no preço da energia poderia prolongar pressões inflacionistas e atrasar a normalização monetária, aumentando o custo do capital e pressionando ativos mais alavancados", diz o presidente da ATM.
"Além disso, em contextos de maior aversão ao risco, os investidores tendem a reduzir exposição a ativos ilíquidos antes de ajustarem posições em mercados líquidos. Contudo, conflitos regionais apenas se traduzem em instabilidade financeira global quando geram perturbações prolongadas nos fluxos energéticos ou desencadeiam tensões financeiras mais amplas. Sem esses canais de transmissão, o conflito atuaria mais como fator amplificador de vulnerabilidades já existentes do que como causa primária de uma crise no setor do crédito privado ou do private equity", salienta Nuno Oliveira Matos.
O advogado da equipa de comercial e M&A e mercado de capitais da Morais Leitão, Pedro Capitão Barbosa, salienta que o conflito no Médio Oriente "não deve ter um impacto direto" no setor, tendo em conta que os fundos de crédito estão "tipicamente pouco expostos" a matérias primas e shipping.
"Mas os mecanismos de transmissão macroeconómicos do conflito nos mercados de crédito (subida dos preços das matérias-primas, o que poderá causar inflação e uma subida das taxas de juro, acompanhada de um alargamento dos spreads) poderão também causar alguma pressão nos mutuários dos fundos de crédito, especialmente aqueles com dívida de taxa variável, assim como uma menor procura por este tipo de produtos (que são comercializados como oferecendo tipicamente uma yield maior do que dívida investment grade)", salienta Pedro Capitão Barbosa.