Nova subida da inflação nos EUA está a inclinar novamente os mercados para mais subidas de juros pela Reserva Federal, um cenário que parecia garantido após a reunião de setembro, mas que vinha gradualmente perdendo força nas últimas semanas perante os dados macro e as declarações de alguns governadores.
A probabilidade implícita de uma subida de 25 pontos base (pb) na reunião de outubro saltou de 22% antes da divulgação da leitura de setembro do índice de preços no consumidor (IPC) para 43,7%, isto de acordo com a FedWatch Tool, da CME Group, e o mercado chegou a atribuir 50% de possibilidades a este cenário durante o dia.
A reunião de outubro é apenas daqui a duas semanas, a 27 e 28 de outubro. Uma incerteza tão marcada a tão pouco tempo do encontro é historicamente incomum.
Na mesma linha, a reunião de dezembro também viu um disparo nas expectativas dos investidores. Uma taxa terminal este ano igual à que se regista atualmente, ou seja, entre 3,75% e 4%, tem apenas 5,8% de probabilidade – bem abaixo dos 20,4% verificados há uma semana. Em sentido inverso, um intervalo entre 4,25% e 4,5% – ou seja, 50 pb acima do atual – é visto como tendo uma probabilidade de 39,3%, isto quando há uma semana estava em apenas 13,3%.
O mercado apostava firmemente em mais 50 pb de subidas até final do ano após a atualização das projeções macro da Fed na mais recente reunião de política monetária, que revelou ser esse o cenário base também para os membros do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC). No entanto, desde então, uma série de comentários por responsáveis do banco central vinham fazendo recuar esta visão.
Em concreto, os dados desapontantes da criação de emprego em setembro (e as revisões em baixa nos dois meses anteriores) pintaram uma economia em ligeiro abrandamento, o que seria condizente com uma Fed em ‘modo pausa’. Conhecida agora a inflação de setembro, que mostra uma pressão cada vez mais abrangente nos preços, essa pausa torna-se menos provável.
“Os mercados estão corretos ao assumir que a Fed terá de tornar a política muito mais restritiva para fazer regressar a inflação ao objetivo. A questão é se está preparada para apertar tanto como o cenário obriga”, atira George Brown, economista sénior da Schroders.
O Citigroup partilha da visão de que será necessário mais aperto nas condições de financiamento, tendo revisto em alta a previsão para a reunião de dezembro e antecipando agora 25 pb de subida. Daí para a frente, não estão mais subidas na calha, com o banco a projetar que os juros comecem a aliviar na segunda metade de 2027.
A análise da Pantheon Macro também ajustou as projeções quanto às taxas de juro em dezembro, antecipando agora uma subida de 25 pb, e destaca que a abrangência da inflação, “medida pela percentagem de componentes do cabaz do IPC em que as subidas em cadeia estão a anualizar acima de 3%, voltou a subir para 49% em setembro de 46% em agosto”. Este valor ainda fica aquém do registado no início do ano, mas é “um sinal na direção errada para a Fed”, que se vê assim mais pressionada a subir novamente juros.
Ainda assim, o think-tank considera que “as hipóteses de um ciclo de prolongado de aperto monetário permanecem escassas”.
Os dados divulgados esta quarta-feira pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho apontam para uma inflação homóloga de 3,7%, o que fica marginalmente acima das projeções dos analistas. Em cadeia, os 0,6% registados correspondem à mediana das previsões dos economistas consultados pelo Dow Jones, sendo também o valor mais alto em cinco meses.
A energia continua a dificultar a vida das famílias e empresas norte-americanas, voltando a acelerar em relação a janeiro. A gasolina subiu 34,2% em termos homólogos, acima dos 27,4% de agosto, enquanto o fuelóleo, mais associado à indústria, saltou de 52% para 74,2% em setembro.
Descartando energia e alimentação, as duas categorias tipicamente mais voláteis do cabaz de consumo do IPC, a inflação subjacente acelerou de 2,4% para 2,6%, interrompendo dois meses consecutivos de descidas e contrariando a expectativa de uma leitura de 2,5%.