O impacto das tarifas impostas pelos EUA está a ser suportado, na sua esmagadora maioria, pelos consumidores norte-americanos, aponta um estudo da Reserva Federal de Nova Iorque. A análise do banco regional argumenta que a principal razão para as leituras da inflação acima do objetivo de 2% no ano passado foram as barreiras ao comércio e contraria assim as afirmações recentes de Stephen Miran, governador nomeado por Trump, que defendeu que o peso destas medidas estava a recair sobre as empresas estrangeiras.
O relatório publicado na passada quinta-feira estima que 90% do impacto das tarifas está a ser imputado às empresas e consumidores norte-americanos, embora com diferenças ao longo do ano. Entre janeiro e agosto de 2025, os norte-americanos suportaram 94% do impacto, uma fatura que desceu para 92% entre setembro e outubro e posteriormente para 86% em novembro.
Este é mais um documento de instituições oficiais norte-americanas a indicar que as medidas erráticas da administração Trump no ano passado se estão a refletir negativamente sobretudo internamente. Dias antes, o Gabinete Orçamental do Congresso (CBO) havia publicado semelhante conclusão.
Segundo o estudo do gabinete bipartidário, apenas 5% do aumento de custos causado pelas tarifas é imputado aos exportadores estrangeiros, com o resto da distorção a incidir domesticamente. As empresas absorvem 30% do aumento restante, enquanto os consumidores ficam a pagar 70%.
A análise da Fed de Nova Iorque baseou-se ainda nas barreiras à entrada impostas durante o primeiro mandato de Trump, concluindo que, à altura, “os exportadores estrangeiros não baixaram preços de todo, pelo que a incidência foi totalmente sobre os EUA”.
Estas conclusões contrariam a visão de Stephen Miran, governador da Fed leal a Trump que chegou a estar na lista de favoritos para liderar o banco central. Na segunda-feira anterior à publicação do estudo, o também antigo conselheiro do presidente afirmou em Boston que os dados sugeriam que o custo das tarifas estaria a ser suportado sobretudo pelo resto do mundo, negando impactos nos preços no consumidor.
“É inapropriado dizer que […] os agentes norte-americanos estão a suportar estes custos, porque muitas dessas empresas são, na verdade, subsidiárias de empresas estrangeiras”, justificou.
Além da incerteza criada nos mercados, dada a ausência de políticas protecionistas deste tipo no mundo ocidental desde a II Guerra Mundial e os avanços e recuos da administração, vários organismos argumentam que as barreiras impostas por Trump aumentaram os preços para a população norte-americana, sendo mesmo responsáveis pela inflação acima do objetivo que se tem verificado ao longo da segunda metade de 2025.
A leitura mais recente, divulgada na sexta-feira e referente a janeiro, aponta para um abrandamento em termos homólogos de 2,7% para 2,4%, o valor mais baixo desde maio, mas ainda acima do objetivo de 2% da Fed. Também o indicador subjacente tocou mínimos de maio com 2,5%.