O Pentágono está a preparar operações terrestres no Irão – é pelo menos essa a leitura dos analistas face ao envio de milhares de soldados e fuzileiros navais para o Médio Oriente – faltando apenas uma ordem nesse sentido do presidente Donald Trump. Se os Estados Unidos avançarem para essa decisão, o mais certo é qualquer esforço para um cessar-fogo ficará ainda mais difícil. Difícil será também a posição de Donald Trump a prazo, dado que uma operação terrestre resultará inevitavelmente num aumento significativo das baixas norte-americanas – que neste momento serão 15, para além de cerca de 200 feridos.
Mas, segundo o jornal ‘Washington Post’, qualquer operação terrestre ficaria aquém de uma invasão em larga escala e poderia envolver ataques de uma mistura de forças de operações especiais e tropas de infantaria convencional. De qualquer modo, o plano está em andamento há várias semanas. Uma missão em terra pode expor os soldados norte-americano a uma série de ameaças, incluindo drones e mísseis iranianos, fogo terrestre e explosivos improvisados.
Nos últimos dias, a administração Trump oscilou entre declarar que a guerra está a chegar ao fim e a ameaça de a ampliar – num discurso da parte do presidente que parece cada vez mais distante da realidade. Embora o presidente tenha sinalizado o seu desejo de negociar o fim do conflito, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, alertou que, se o regime em Teerão não encerrar as suas ambições nucleares e as ameaças contra os Estados Unidos e seus aliados, Trump está "preparado para desencadear o inferno" no Irão. "É função do Pentágono fazer preparativos para dar ao Comandante em Chefe todas as opções, ma isso não significa que o presidente tenha tomado uma decisão".
A opção terrestre pode circunscrever-se a uma possível tomada da Ilha Kharg, um importante centro de exportação de petróleo iraniano no Golfo Pérsico, e a ataques a outras áreas costeiras próximas ao Estreito de Ormuz para encontrar e destruir armas que possam atingir navios comerciais e militares. Mas, para já, Trump tem assegurado que não está nos seus planos lançar uma ofensiva terrestre.
O secretário de Estado Marco Rubio, falando a partir de França na passada sexta-feira após uma reunião de aliados dos Estados Unidos preocupados com o aumento do impacto económico da guerra, disse que "não será um conflito prolongado." E afirmou que os Estados Unidos "podem alcançar todos os objetivos sem tropas terrestres".
Iranianos à espera
O Irão parece também estar convencido de que, mais cedo ou mais tarde, haverá uma ofensiva terrestre – ao afirmar que está pronto para responder a qualquer ataque do género. Os iranianos acusam os Estados Unidos de quererem aumentar a tensão na guerra, ao mesmo tempo que tentam negociações com o contributo do Paquistão. As discussões em Islamabad com a Arábia Saudita, a Turquia e o Egipto centraram-se em propostas para reabrir o Estreito de Ormuz à navegação. Segurança alimentar e energética, bem como as cadeias de fornecimento, estiveram entre os temas discutidos no Paquistão, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Egipto.
O Paquistão ofereceu-se para sediar negociações de paz, mas os Estados Unidos, Israel e o Irão adotaram posições maximalistas para pôr fim à guerra, o que complica o caminho para uma solução negociada. O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, acusou os Estados Unidos de enviarem mensagens sobre possíveis negociações enquanto, ao mesmo tempo, planeiam enviar tropas por terra, acrescentando que o regime de Teerão está pronto para responder. "Enquanto os americanos exigirem a rendição do Irão, a nossa resposta é que jamais aceitaremos a humilhação", disse em mensagem aos iranianos.
Recorde-se que, como era de esperar, os houthis do Iémen do Sul juntaram-se ao conflito no sábado, lançando os seus primeiros ataques contra Israel e aumentando a possibilidade de que possam atingir e, assim, bloquear uma segunda rota marítima crucial, o Estreito de Bab el-Mandeb. Analistas afirmam que a ataques nessa região aumentaria ainda mais a pressão sobre a economia mundial.
Uma estranha decisão de Israel
Entretanto, e para espanto geral, a polícia israelita impediu o Patriarca Latino de Jerusalém de celebrar o Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro, "pela primeira vez em séculos", disse o Patriarcado, que cita preocupações de segurança relacionadas com a guerra com o Irão. O cardeal Pierbattista Pizzaballa e o frei Francesco Ielpo foram abordados pela polícia enquanto caminhavam em direção à igreja, construída no local onde os cristãos acreditam que Jesus foi crucificado e ressuscitou dos mortos. "Como resultado, e pela primeira vez em séculos, os líderes da Igreja foram impedidos de celebrar a Missa do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro", afirmava um comunicado.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou também em comunicado: "Não houve qualquer intenção maliciosa, apenas preocupação com a segurança dele (Pizzaballa) e dos seus partidários."
A polícia israelita afirmou que todos os locais sagrados da Cidade Velha de Jerusalém estão fechados aos fiéis – sejam cristãos, muçulmanos ou judeus – desde o início da guerra contra o Irão, particularmente os locais sem abrigos antibombas. E afirmou ter rejeitado um pedido do Patriarcado para uma isenção no Domingo de Ramos.
"A Cidade Velha e os locais sagrados constituem uma área complexa que não permite o acesso de grandes veículos de emergência e resgate, o que representa um desafio significativo para a capacidade de resposta e um risco real para a vida humana em caso de um incidente com múltiplas vítimas", disse a polícia.
O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa, a semana mais importante do calendário cristão, que antecede a Páscoa. A Cidade Velha costuma estar movimentada, com católicos romanos a dirigirem-se para o Santo Sepulcro.
Este ano, cristãos, muçulmanos e judeus não podem celebrar a Páscoa, o Ramadão ou o Pessach (Páscoa judaica) como de costume devido às restrições policiais. A Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, ficou praticamente vazia durante o Ramadão, e poucos fiéis compareceram ao Muro das Lamentações, local sagrado para o judaísmo, com a aproximação do Pessach nesta quarta-feira.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, criticou a ação policial e o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, afirmou nas redes sociais que convocaria o embaixador de Israel para prestar esclarecimentos sobre o incidente. O presidente francês, Emmanuel Macron, condenou a decisão da polícia israelita, que "se soma ao preocupante aumento das violações do estatuto dos Lugares Santos em Jerusalém". O embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse que negar a entrada do Patriarca na igreja no Domingo de Ramos era "difícil de entender ou justificar". O Vaticano não comentou, pelo menos diretamente: este domingo, o Papa Leão XIII afirmou que Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras e têm "as mãos cheias de sangue".