O Estado português pagou um total de 529 milhões de euros para comprar 19% da REN. Na primeira operação pagou 390 milhões para comprar 14%. Na segunda, pagou 139 milhões para comprar mais de 5%.
O negócio garante ao Estado um administrador no 'board' da companhia. Ao valor atual das ações, a posição do Estado vale quase 457 milhões de euros.
O valor da segunda compra representa um prémio implícito de cerca de 8,3% face ao preço médio das ações ponderado pelo volume nos últimos seis meses.
"A diferença entre os prémios pagos da 1.ª e da 2.ª fase reflete o diferente valor estratégico de cada posição. O prémio da 1.ª fase remunerou os direitos de 'governance' conferidos, a falta de liquidez e a certeza de execução da operação", explica a tutela de Joaquim Miranda Sarmento.
"O prémio de 8,34% na 2.ª fase é inferior, o que se justifica pelo facto de o Estado já dispor de poderes de designação no Conselho de Administração e se tratar de um reforço de uma posição já existente e não de uma primeira entrada no capital, o que implica menor risco de execução e de integração", acrescenta.
A REN "constitui um ativo de elevada relevância para o país, atendendo às funções críticas que desempenha na operação, segurança e continuidade da infraestrutura nacional de transporte de eletricidade e de gás natural, assumindo um papel chave no funcionamento do sistema energético nacional, incluindo na garantia da segurança de abastecimento. Tal como anteriormente, nenhum dos governantes que teve conhecimento prévio desta operação deteve ou detém ações da REN", segundo o comunicado do Terreiro do Paço.
Na União Europeia, "apenas Portugal não tinha o Estado como acionista da empresa que gere a Rede Elétrica Nacional", segundo o executivo.
Dos 27 Estados Membros, 14 detêm 100% da respetiva empresa, oito detêm mais de 50% do capital e três detêm uma participação superior a 20%, mas inferior a 50%.
"As mudanças geopolíticas e a cada vez maior importância da energia, e da eletricidade em particular, sobretudo no esforço de eletrificação da economia e na atração de investimento em Inteligência Artificial e centros de dados, justificam também a decisão, que se insere numa tendência mundial de maior presença dos governos em áreas estratégicas", justifica a tutela.
"O novo contexto nacional e internacional veio acentuar a relevância das infraestruturas críticas e de autonomia estratégica dos Estados, atribuindo particular centralidade às redes de transporte de eletricidade e gás. A gestão, expansão, modernização e proteção dessas infraestruturas assumem-se como fatores determinantes para a capacidade do país responder aos desafios da transição energética, reindustrializar, atrair investimento, promover a eletrificação da economia e sustentar o crescimento económico", pode-se ler.
A presença pública na REN "permite dotar o Estado de um instrumento acrescido de acompanhamento e alinhamento com as prioridades nacionais num setor de manifesto interesse estratégico, sem prejuízo da preservação da estabilidade institucional, da continuidade operacional da empresa e preservando a estabilidade regulatória", garante o Governo.
Dono da Zara fez desconto de 15 milhões ao Estado no negócio da REN
Projeto Nascente. Foi este o nome de código dado à operação de compra de 14% da REN – Redes Energéticas Nacionais pelo Estado português. O vendedor foi a Pontegadea Inversiones, a sociedade de investimento detida por uma das pessoas mais ricas do mundo: o galego Amancio Ortega, dono do império da Zara.
Data: 6 de agosto de 2026. Portugal estava a banhos e longe de imaginar que o Estado iria regressar ao capital da empresa de transporte de eletricidade e de gás depois da saída total em 2012 durante a troika.
Foi nesta data que o vendedor fez uma proposta à Parpública que acabaria por ser aceite. Andres Moreno Fernandez, responsável de infraestruturas da Pontegadea, escreveu ao presidente da Parpública, Joaquim Cadete, a fazer a proposta que daria forma ao acordo final assinado a 14 de agosto.
“Estaremos prontos para avançar considerando que o preco por ação seja o mais elevado” de: ou o preço médio de ação dos seis meses até ao dia anterior à assinatura do acordo, com um prémio de 15%; ou o pagamento de 4,25 euros por ação, segundo o documento que faz parte do processo de venda arquivado no Tribunal de Contas, consultado pelo Jornal Económico (JE) que ajuda a perceber os bastidores desta operação.
E também deu conta de que estavam dispostos a fazer um desconto face ao pedido inicialmente: “Tenham em conta que a nossa proposta inicial em termos de prémio (entre 17% a 20%) era um pouco mais elevada do que agora propomos”, sem justificar a razão da descida.
No final, o Estado português acabou por pagar um prémio de 15% num total de 390 milhões de euros, a 4,25 euros por ação. Se o prémio pedido tivesse sido de 20%, o Estado teria de pagar 15,6 milhões de euros face ao que pagou.
Mas o desconto de Amancio Ortega reduziu mesmo a fatura com os 4,25 euros por ação a ser mais elevado (390 milhões) face ao prémio de 15% mais a média dos seis meses ( na casa dos 389 milhões).
O despacho do Governo ditou que o preço a pagar fosse o preço médio da ação nos últimos seis meses, mais um prémio de 15%, estimando o valor nos 4,25 euros por ação, não excedendo os 4,28 euros.
Numa mensagem de correio eletrónico, o gestor espanhol explicou a razão de pedir um preço mínimo. “Não temos visibilidade sobre a data exata de quando o acordo vai ser assinado porque vai depender de quando tiverem as aprovações internas”, escreveu. “Considerando a incerteza no timing, precisamos da aprovação da nossa administração com um preço mínimo”, segundo a missiva.
A Pontegadea não quis comentar. O Ministério das Finanças e a Parpública não responderam ao JE.
A Parpública optou pela compra direita de uma participação, por serem necessários entre 570 a 730 dias para comprar em mercado uma participação deste tipo.
O Governo assume que quer comprar até 20% da REN, faltando 6% para lá chegar. Mas se voltar a optar por uma negociação direta, terá de negociar ou com os espanhóis da Redeia (5%) e da Masaveu (5%) ou com os chineses da Fosun que controlam a Fidelidade (5%), ou com vários deles.
Nas suas contas, o CaixaBI estimou que seriam necessários entre 570 a 730 dias “de negociação necessárias para adquirir em mercado uma participação de 13,7%”, levando o Estado a optar pela negociação direta com um acionista.
Isto deve-se à reduzida liquidez da ação que “torna pouco exequível a aquisição de uma participação relevante através de compras sucessivas em mercado num horizonte temporal razoável e sem impacto significativo na cotação”.
O valor de 4,25 euros por ação foi o valor médio previsto para o negócio, no estudo realizado pelo CaixaBI para a Parpública.
Já a Entidade do Tesouro e Finanças (ETF) destacou que a REN “apresenta um histórico de remuneração aos acionistas relativamente estável”.
O CaixaBI concluiu, no estudo para a Parpública, que a REN tem apresentado “dividend yield historicamente atrativo situado em torno de 6% -7% entre 2021 e 2024”.
Tendo caído em 2025 para 5% “não obstante o dividendo ter aumentado ligeiramente 0,160 euros por ação) refletindo sobretudo a forte valorização bolsista registada pela ação no mesmo período”.
Mesmo assim o ‘dividend yield’ para este ano é de 4,60% e situa-se 0,45 pontos abaixo da média dos seus comparáveis europeus.
O Governo deverá agora nomear um administrador para o conselho de administração da REN.
Na sua análise, a ETF considerou importante a entrada no ‘board’ da REN. “A possibilidade de de representação no órgão de administração, a capacidade acrescida de acompanhamento da atividade da sociedade e a influência inerente a uma posição acionista qualificada diferenciam a participação de uma posição meramente financeira”.
O CaixaBI considerou que a entrada do Estado nos órgãos sociais dá a “capacidade de acompanhar e influenciar decisões estratégicas relevantes para uma infraestrutura energética crítica nacional”.
E também uma “maior visibilidade sobre a evolução do negócio – aumento da capacidade de acompanhamento do plano de investimentos e desenvolvimento da rede, reforçando a monitorização de um ativo crítico para o país”.
Já Amancio Ortega ganhou um total de 462 milhões de euros com a venda e os dividendos. Tirando os 214 milhões que poderá ter pagado quando entrou em 2021, leva para quase 248 milhões de euros em cinco anos.
Administração Trump aplaude entrada do Estado na REN
Os Estados Unidos da América têm acompanhado muito atentamente o investimento chinês em Portugal ao longo da última década.
A entrada de empresas estatais chinesas no capital de duas das mais importantes empresas energéticas em Portugal, REN e EDP, levou Washington a acompanhar este tema com bastante atenção.
Agora, o Departamento de Estado dos EUA, liderado por Marco Rubio, vem elogiar a entrada do Estado português no capital da REN – Redes Energéticas Nacionais, responsável pelo transporte de eletricidade e de gás.
“Portugal tem tomado passos importantes para reforçar a resiliência das suas infraestruturas críticas, e congratulamos isso”, respondeu ao Jornal Económico um porta-voz do Departamento de Estado sobre a compra de 14% pela estatal Parpública.
“A segurança energética é segurança nacional. Uma infraestrutura energética segura e confiável é fundamental para a segurança e prosperidade de um país”, segundo a entidade responsável pela política externa dos EUA.
“Quando se trata de infraestruturas críticas, a confiança é importante. Isso inclui quem detém e controla os sistemas que mantêm ligadas tanto a eletricidade como a economia”, acrescenta o ministério dos Negócios Estrangeiros dos EUA sediado em Washington.
“Queremos garantir que as nossas relações económicas não criam vulnerabilidades de segurança. Isso significa trabalhar com parceiros de confiança e introduzir medidas para proteger infraestruturas críticas de riscos que os adversários podem explorar”, de acordo com o Departamento de Estado.
Em agosto, o Estado comprou 14% da companhia, por 380 milhões de euros, incluindo um prémio de 55 milhões, um montante de 17% mais face ao valor das ações antes do negócio ser anunciado por Luís Montenegro, a uma sociedade de investimento detida pelo dono da Zara, o galego Amancio Ortega, a Pontegadea Inversiones.
O novo embaixador dos EUA em Portugal já tinha feito pontaria às empresas chinesas quando foi nomeado.
“Será correto que algumas das maiores empresas da China sejam proprietárias de algumas empresas de energia de Portugal?”, disse John Arrigo na sua audição de nomeação em julho de 2025 no Senado.
“Isso terá de ser discutido. Gostaria de me sentar e discutir todas as ameaças que temos entre o setor energético, a construção e os gastos com defesa em Portugal, para que faça a sua parte justa”, acrescentou o empresário do ramo automóvel na altura, com origem em Palm Beach no estado da Florida onde, curiosamente, a seleção nacional montou a sua base durante o Campeonato do Mundo de Futebol que teve lugar este verão nos EUA.
Portugal era o único dos 27 Estados-membros da União Europeia que não detinha uma participação no operador nacional da rede de transporte. Dos 27 países, 14 contam com uma rede totalmente pública. Em outros oito países, existem participações de privados nestas empresas, com o Estado a deter a maioria.
Juntando os 34 países da União Europeia com os do resto da Europa, também só Portugal é que tinha uma empresa completamente privada, com 18 países a a contarem com empresas 100% públicas.
O Executivo de Luís Montenegro tem defendido a decisão com a importância de acelerar os investimentos na rede elétrica para desenvolver projetos de energia renovável.
“É mais uma ferramenta para defender o interesse público numa empresa essencial para defender o sistema energético. Já podíamos influenciar a partir de fora. Vamos aumentar a capacidade do Estado de influenciar a partir de dentro”, segundo a ministra Maria da Graça Carvalho na sua audição no Parlamento esta semana.
A ministra também revelou que o Governo tinha vindo a preparar a compra desde 2024, tendo abordado o tema durante uma visita oficial à China em setembro de 2025. “Um dos acionistas é uma empresa pública chinesa. Não tivemos nenhum problema com esse facto, temos uma relação boa de diálogo e trabalho”, garantiu a ministra.