Fez esta semana um ano que Trump regressou ao poder nos EUA e a tempestade comercial lançada pelo 47º presidente conheceu novo capítulo com a ameaça de sanções tarifárias aos parceiros europeus pela oposição à tomada norte-americana da Gronelândia. Portugal foge à lista de oito países visados e, apesar de as tarifas terem tido efeitos diretos limitados até agora, há preocupação quanto à imprevisibilidade acrescida criada por estas novas ameaças.
A recusa de oito países europeus em apoiar o plano norte-americano de tomar controlo da Gronelândia, território dinamarquês, levou Trump a sugerir sanções sobre estes aliados – a saber, Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Países Baixos e Finlândia da UE, mais o Reino Unido e a Noruega. A concretizar-se, as exportações para os EUA seriam sujeitas a barreiras de 10% a 25% à entrada nos EUA, uma ameaça que já levou a UE a considerar o uso do Instrumento Anticoerção (ACI) e a suspender o acordo comercial com Washington.
Ao JE, o presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), Luís Miguel Ribeiro, fala em “preocupação”. “Embora Portugal não conste da lista de países diretamente visados por estas tarifas adicionais, contudo, enquanto membro da União Europeia qualquer medida de retaliação terá inevitavelmente reflexos no nosso país”, explica, incluindo indiretos, “nomeadamente ao nível das cadeias de valor, das exportações e da confiança dos empresários”.
“Não tem sido fácil para os empresários lidarem com estas barreiras, até pelo perfil do mercado norte-americano”, explica. “As estratégias adotadas vão desde a diversificação de mercados até a investimentos locais.”
Um dos principais efeitos, continua, prende-se com a perda de previsibilidade. O protecionismo de Trump agrava a incerteza e este agravamento “levou a um reforço da cautela dos agentes económicos, afetando a confiança empresarial e, consequentemente, adiando decisões de investimento”.
Logo após o anúncio, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, garantiu que a economia nacional está numa posição “mais confortável” do que a maior parte da UE para lidar com este choque, mas reconheceu que o bloco tem de dar uma resposta “unida e bastante forte”, dado que o respeito pela soberania é uma linha vermelha que não pode ser ultrapassada.
Também para a CIP – Confederação Empresarial de Portugal os maiores problemas gerados por esta política se prendem com a previsibilidade para os empresários. Relembra o seu presidente, Armindo Monteiro, que as encomendas são “feitas todos os dias e correspondem a vendas futuras que, com esta instabilidade, podem não se concretizar”, sobretudo em setores que concorrem pelo preço e onde a elasticidade é menor.
Do lado das micro, pequenas e médias empresas (PME), Jorge Pisco, presidente da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME), fala em efeitos limitados das tarifas, até por ser “um segmento muito preocupado com as questões do dia-a-dia”, mas os impactos indiretos poderão ser inescapáveis. A juntar a isto, vive-se uma situação económica nacional que coloca entraves em vários setores, nomeadamente o da restauração ou agroalimentar, “com repercussões” para os empresários.
Perante as ameaças de Trump, Bruxelas já fez saber que não irá abandonar a Dinamarca. A resposta que se tem falado nas instituições europeias, o uso do ACI, “envolve riscos associados”, pelo que a preferência do presidente da AEP passa por, “sempre que possível, privilegiar-se o diálogo e a negociação, como tem sido a prática da UE”, defende Luís Miguel Ribeiro.
“No entanto, as novas ameaças norte-americanas representam um escalar das tensões com a Europa, não só por existirem já acordos em vigor, mas também por colocarem em causa interesses e a própria soberania de territórios europeus. Neste contexto, a utilização do ACI pode ser entendida como um mecanismo de defesa legítima”, ressalva.