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Empresas em regiões de ciência são mais produtivas e aceleram convergência

Estudo da Universidade do Minho, cujas conclusões o JE avança em primeira mão, mostra que a ciência acelera a convergência nas regiões periféricas da Europa, como Portugal, e defende modelos regionais de inovação que juntem empresas e ciência. Embora não haja dados específicos para Portugal, como país do sul da Europa alinha nas conclusões gerais.

As empresas das regiões de ciência (Science-Based) apresentam uma produtividade média superior de 15,8% à das empresas de regiões com padrões de inovação Imitative (estratégias de imitação), revela um estudo da Escola de Economia, Gestão e Ciência Política da Universidade do Minho, cujos resultados o Jornal Económico avança em primeira mão.

"Embora o modelo regional baseado na ciência seja menos frequente, ele estabelece um patamar de produtividade estruturalmente mais elevado", afirma Ana Paula Faria, que partilha a autoria do estudo com Natália Barbosa.

As investigadoras avaliaram 150.712 empresas de 161 regiões europeias entre 2012 e 2017 e concluíram que: nas regiões onde a ciência é o motor principal da inovação (Science-Based), as empresas que já são mais produtivas e dinâmicas (situadas no topo 10% da distribuição, ou quantil 90) conseguem crescer 18,1 pontos percentuais (p.p.) a mais do que empresas semelhantes em regiões que apenas imitam tecnologia e inovação. E no caso das regiões cuja inovação assenta na aplicação da ciência, estes ganhos são de 10,1 p.p.. Em conjunto, estas regiões representam os maiores ganhos de produtividade, entre os diferentes modos regionais de inovação.

"Os dados agregados para as regiões do Sul da Europa (onde Portugal se insere) mostram que as empresas do Sul da Europa são as que mais beneficiam do conhecimento científico para obter ganhos de produtividade", adianta Ana Paula Faria. 

Muitas destas regiões estão classificadas em padrões de inovação como Applied Smart-Creative ou Imitative, que "dependem fortemente" de ambientes criativos e empreendedores para absorver inovação desenvolvida noutros locais.

Já para as empresas menos eficientes e com menor capacidade de inovação, a presença de um ecossistema científico avançado não é um benefício automático. Pelo contrário, estas empresas crescem 34,5 p.p. a menos do que empresas semelhantes localizadas em regiões que baseiam o seu crescimento na mera imitação tecnológica.

Isto revela, no entanto, que a ciência não é uma 'poção mágica' para todos, justifica Ana Paula Faria: "Empresas com menos competências internas podem chegar a crescer menos quando inseridas em ambientes científicos de elite, pois não conseguem acompanhar a complexidade tecnológica local, ficando para trás face a empresas em regiões que apostam em modelos mais simples de imitação".

O estudo nota também que países com menor PIB per capita real tendem a favorecer estes modos de inovação baseados na imitação ou em aplicações criativas, pois o perfil de baixo crescimento do país pode restringir o desenvolvimento de regiões puramente baseadas em ciência intensiva.

As investigadoras identificaram ainda empresas que tendo menos capacidades científicas têm aumentado a produtividade seguindo estratégias de inovação imitativa. Por outras palavras: as  empresas adaptam-se e melhoram tecnologias já existentes.

O estudo reforça a importância de haver políticas públicas adaptadas a modelos regionais de inovação que aproximem ciência e empresas como eixo central da competitividade europeia. Em concreto, defende que se combine o investimento em I&D com o fortalecimento de competências das empresas e a promoção de ecossistemas locais de cooperação e aprendizagem, tornando a inovação mais eficaz para afirmar a economia na Europa e no mundo.

 

1 pergunta a Ana Paula Faria...

A reforma governativa que visa juntar a investigação à inovação, através da criação da AI2, vai no sentido das conclusões do estudo?

Os resultados sugerem que os benefícios das fontes externas de conhecimento são mediados pelas capacidades internas das empresas. Se a AI2 promover o fortalecimento de competências tecnológicas ao nível da empresa, estará a aumentar a "capacidade de absorção" das empresas portuguesas. AI2 pode, assim, ajudar a reduzir o hiato entre as capacidades das empresas e o modo de inovação regional, permitindo que empresas em regiões menos avançadas possam beneficiar mais do conhecimento científico disponível.

O estudo destaca, ainda, que os modos de inovação Applied-Smart (em que se aplicam e combinam tecnologias existentes de forma inteligente) têm sido motores relevantes de crescimento e convergência a longo prazo. Uma agência que promova a aplicação prática da investigação e inovação vai ao encontro desta conclusão.