A poucas horas de começar uma das mais esperadas eleições intercalares de sempre, as últimas sondagens indicam que o presidente em exercício, o republicano Donald Trump, pode perder a dupla maioria que tem desde que foi eleito: os democratas têm uma probabilidade de 79% a 80% de conquistarem o controlo do Senado, possivelmente com 52 lugares (em 100, sendo o vice-presidente dos EUA o presidente por inerência do Senado e tendo voto de qualidade se for necessário). Neste momento, os republicanos têm 53 senadores, mas o facto de só estarem em eleição um terço dos lugares tornar uma vitória dos democratas mais difícil e, por isso, mais significativa. Na Câmara dos Representantes, os democratas poderão eleger 240 deputados (num total de 435), o que lhe conferiria uma maioria confortável, bem acima dos 214 atuais. Recorde-se que, neste momento, os republicanos lideram com 218 lugares – ou seja, os possíveis 240 dos democratas são sintoma de que a base eleitoral de Trump veio a depreciar-se rapidamente nos dois anos que passarem desde que foi eleito.
Talvez por a derrota já estar clara no seu horizonte, Trump disse esta segunda-feira, 2 de novembro, que "acho que vou tornar-me o ‘Sr. Veto’". A estratégia é a de bloquear sistematicamente iniciativas legislativas promovidas pela eventual maioria democrata, para depois forçá-la a negociar acordos com os republicanos. "Não seria a primeira vez: um presidente que não tem a Câmara dos Representantes nem o Senado, vetam as propostas e, finalmente, depois de um ou dois meses a vetar tudo, fecha-se um acordo", argumentou Trump.
A posição do presidente é a de quem já assumiu que vai perder o controlo das duas câmaras do Congresso, mas, ainda assim, Trump continuou a afirmar confiança em que os republicanos vão manter o controlo legislativo. É uma corrida contra os números: uma outra sondagem citada pela Lusa indica que 52% dos eleitores registados preferem uma legislatura sob controlo democrata, em comparação com os 45% que optam pelos republicanos. Há ainda 3% que estão indecisos, mas um dado que merece atenção é o facto de, entre o eleitorado independente, a diferença a favor dos democratas é de 21 pontos percentuais. Além disso, a sondagem coloca a taxa de desaprovação de Trump nuns históricos 60%, o nível mais alto nos seus dois mandatos, comparado com apenas 40% de aprovação. Para 64% dos consultados, o presidente não correspondeu às expectativas, enquanto 70% consideram que a direção do país não é a mais correta.
Perder o poder
A retórica de Trump não esconde o inevitável: a alteração da cor das duas câmaras irá retirar ao presidente poder para decidir e margem de manobra – nomeadamente para manter o Congresso fora do seu radar quando precisa de tomar decisões. Mesmo no caso da guerra com o Irão, Trump conseguiu rodear o Congresso, tendo depois de ‘pescar’ no meio da abundante legislação norte-americana um bom motivo para explicar a legalidade das suas decisões. Com o lançamento das tarifas sucedeu a mesma coisa: Trump teve de recorrer a legislação antiga para ultrapassar a obrigação de ouvir o congresso e quando esta foi refutada pelos tribunais, socorreu-se de uma ainda mais antiga.
De qualquer modo, qualquer nova lei necessita da aprovação de ambas as câmaras; ora, um Congresso democrata pode simplesmente recusar votar as propostas da Casa Branca. Além disso, toda a despesa pública e o orçamento do Estado (de um Estado que tem uma dívida pública astronómica) têm de ser aprovados pela Câmara dos Representantes. Trump perderá a capacidade de financiar projetos prioritários (como a construção do muro fronteiriço ou agências federais específicas) sem fazer grandes cedências à oposição. As nomeações judiciais também ficarão bloqueadas (se os democratas quiserem), uma vez que o Senado tem o poder exclusivo de confirmar juízes federais e do Supremo Tribunal. Aquele órgão tem também o poder aprovar (ou reprovar) membros da administração, diretores de agências (CIA e FBI incluídas) e embaixadores.
Mais: as comissões de inquérito da Câmara e do Senado passam a ser controladas por democratas (se se confirmar a sua vitória). Que, entre outras prerrogativas, passam a poder exigir documentos confidenciais da Casa Branca – o que pode ser a maior dor de cabeça de Trump no futuro. Finalmente, a Câmara dos Representantes passa a ter os votos necessários para iniciar processos de destituição (impeachment) contra o presidente ou membros do seu governo, embora a destituição final exija uma maioria de dois terços no Senado. Trump sabe do que se trata, dado que já teve de enfrentar o sistema. Duas vezes: em dezembro de 2019 por abuso do poder e obstrução do Congresso; e em janeiro de 2021 por incitamento à insurreição.
Perder a economia
A economia e o custo de vida continuam a ser as principais preocupações do eleitorado – que, como costuma dizer Francisco Seixas da Costa, analista de assuntos internacionais, “vota com o bolso”. Uma sondagem da Reuters/Ipsos realizada no final de outubro indica que 73% dos entrevistados avaliaram que o custo de vida está no topo das suas reticências face à política de Trump.
Tudo radica nas consequências da guerra. Por um lado, a crise energética resultante da guerra no Irão, que resultou numa poderosa alavanca da inflação. E, por outro, no preço da própria guerra: segundo estimativa do Pentágono citadas pela Associated Press, o conflito já terá custado 47,1 mil milhões de dólares, sem contar com os prejuízos provocados pelos ataques iranianos às instalações militares norte-americanas no Médio Oriente.