Como sucede quase sempre, o ano de 2026 vai ficar marcado por um elevado número de eleições, que não só marcarão os avatares políticos imediatos, como deixarão preciosa ‘jurisprudência’ para o ano seguinte. De um modo geral, a Europa assiste a uma guerra cada vez mais clara entre os partidos do centro e a extrema-direita, ao mesmo tempo que a esquerda e principalmente a extrema-esquerda tentar sobreviver e apresentar em todos os atos eleitorais qualquer coisa que sirva de ‘prova de vida’.
Alemanha
A vitória dos conservadores democratas-cristãos de Friedrich Merz na Alemanha, o motor económico do bloco (apesar de um pouco gripado) marcou o ano eleitoral na União Europeia, dando algum conforto àquilo que era a evidência do crescimento da extrema-direita um pouco em todos os Estados-membros. Mas essa será exatamente, em 2026, uma confirmação que ninguém arrisca antecipar: vários governos regionais vão a votos e a perceção é que a extrema-direita da AfD conseguirá bons resultados – num quadro em que a ‘cerca sanitária’ que a envolvia acaba de ser desfeita: a Conferência de Munique, uma das mais importantes organizações europeias da área da defesa e segurança, acaba de decidir convidar os extremistas para a sua conferência anual, extinguindo uma postura que conservou até agora. Vários Estados alemães estão a preparar-se para eleições regionais: Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado em março, e Saxónia-Anhalt, Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental em setembro.
Espanha
Também em Espanha há eleições de grande importância. O partido socialista (PSOE) do primeiro-ministro Pedro Sánchez – que nada nem ninguém parece capaz de tirar do poder, apesar deos escândalos de corrupção que vão fazendo desabar alguns dos seus principais apoiantes – está a recuperar da derrota nas eleições regionais de 21 de dezembro na Extremadura, onde obteve o pior resultado de todos os tempos naquela que era uma região tradicionalmente socialista. Neste quadro de forte contestação a um governo que volta a ter grandes dificuldades para fazer passar o Orçamento para 2026, as próximas eleições regionais em Aragão, em 8 de fevereiro, Castela e Leão, em 15 de março, e na Andaluzia, a maior região da Espanha em tamanho e população, com eleições marcadas para 30 de junho, serão testes cruciais não apenas para o PSOE, mas também para o Partido Popular (PP), de centro-direita, na oposição.
Ninguém acredita que o PSOE admita sair do poder mesmo que perca as eleições regionais. Do mesmo modo, os comentadores políticos convergem na evidência que a alternativa do PP conseguirá só por si suplantar os socialistas: terá com certeza de se valer do apoio dos extremistas de direita do Vox, que está outra vez em crescimento. A cerca sanitária nas autonomias há muito que se dissipou, fazendo ‘’jurisprudência’ na Europa, com as consequências que mais tarde se observarão. De qualquer modo, eleições gerais só em 2027.
França
O mesmo sucede em França: as presidenciais serão no segundo trimestre de 2027, mas até lá Emmanuel Macron acumulará vários motivos de preocupação. Com uma imensa dificuldade em criar governos que consigam governar no meio dos aguerridos extremos à direita e à esquerda, os franceses votarão nos dias 15 e 22 de março para elegerem autarcas em todo o país. Servirão como um indicador para a votação presidencial de 2027 – nomeadamente para se perceber se vai repetir-se o cenário que já é quase costumeiro: a extrema-direita vence a primeira volta e perde a segunda para quem quer que seja. Um dia, dizem os analistas, isso deixará de acontecer. Mas, até lá, muita coisa irá acontecer, nomeadamente perceber-se se Marine Le Pen pode ou não concorrer – sendo certo que o seu ‘delfin’, Jordan Bardella, está muito longe de ser uma Le Pen ‘de calças’, gerando bem menos entusiasmo que Marine entre os eleitores.
Hungria
Viktor Orbán foi primeiro-ministro da Hungria entre 1998 e 2002 e permanece no poder desde sua reeleição em 2010. Na disputa por um sexto mandato, enfrenta um adversário de peso: Péter Magyar, ex-membro do Fidesz (o partido de Orbán) que se tornou líder da oposição. Como é fácil de imaginar, o Fidesz e o partido de Magyar, o Tisza, não divergem significativamente em questões sociais, mas Magyar defende veementemente a melhoria do poder de compra dos húngaros, atualmente um dos mais baixos da Europa, e melhores relações com Bruxelas, que ainda condiciona o pagamento de milhões de euros do fundo de coesão ao respeito pelo Estado de direito – que na Hungria de Órban há muito deixou de ser uma prioridade. Magyar tem sido significativamente eficaz: as últimas sondagens colocam o Tisza cerca de 13 pontos percentuais à frente do Fidesz
Itália
Na Itália, as eleições municipais nas principais cidades, Roma, Milão, Bolonha e Turim, foram adiadas durante a pandemia e remarcadas para a primavera de 2027. Em vez disso, os eleitores irão às urnas em 2026 apenas em cidades de menor impacto, como Veneza, Reggio Calabria, Arezzo, Andria e Pistoia. A agência Euronews recorda que os italianos também votarão num referendo sobre a reforma constitucional do sistema judiciário. A proposta será apresentada na próxima primavera, mas a data ainda não foi definida. De qualquer modo, a consulta será vista como um teste sobre o apoio popular à coligação da extremista Giorgia Meloni antes das eleições gerais de 2027 – e depois de a primeira-ministra ter tido alguma dificuldade em satisfazer os partidos que a apoiam no que disse respeito ao Orçamento do Estado. Meloni assegurou a votação favorável a muito poucos dias do fim do ano, mas teve de ceder às vontades políticas de Lega e do Força Itália, demonstrando que a coligação está a enfrentar dificuldades de se manter estável. De qualquer modo, Meloni tem faturado excelentes resultados no exterior: tem uma forte influência sobre a presidente da Comissão, a alemã Ursula von der Leyen, e é a ‘melhor amiga’ do presidente Donald Trump na Europa.
Suécia
Analisando as eleições gerais de setembro, o primeiro-ministro Ulf Kristersson escreveu nas redes sociais que "quando a Suécia for às urnas no próximo ano, faremos isso no quadro de uma grave situação de segurança que precisamos levar em consideração", recorda a agência Euronews. Kristersson governa uma coligação de centristas, socialistas, liberais e democratas-cristãos, que atualmente apresenta índices de aprovação semelhantes aos das eleições de 2023. Desde então, a Suécia tem enfrentado um aumento dos crimes violentos, alimentando a retórica da extrema-direita ouvida em toda a Europa, que faz uma ligação direta entre o fenómeno e o aumento da imigração – algo que as estatísticas não provam, mas que os partidos de extrema-direita em toda a Europa conseguiram estabelecer como perceção e pouco depois como verdade absoluta, sendo irrelevante que o seja ou não. De qualquer modo, a "situação de segurança grave" que preocupa o primeiro-ministro é a ameaça de interferência estrangeira – ou, dito de outra forma, as ‘loucuras’ que possam passar pela agenda do presidente russo, Vladimir Putin, para aquela área geográfica, cada vez mais importante em termos geopolíticos. Em novembro, o Ministério da Defesa afirmou ter reforçado as capacidades de cibersegurança, tendo em vista os ‘ataques híbridos’ que poderão ser lançados por Moscovo.
Dinamarca
Após perder Copenhague pela primeira vez desde 1938, Mette Frederiksen e os seus social-democratas vão agora enfrentar uma votação nacional e os analistas afirmam que a postura rígida da primeira-ministra em relação à imigração não surtiu grande efeito. As sondagens indicam que a primeira-ministra, no poder desde 2019, pode perder o cargo, visto que a coligação, composta por partidos de centro-esquerda a centro-direita, parece cada vez mais frágil. A votação deverá ocorrer antes de outubro de 2026, mas a data ainda não foi confirmada. A Dinamarca também está preocupada com a sua integridade territorial. No início deste mês, Donald Trump reiterou as suas intenções expansionistas em relação à Gronelândia, um território autónomo do reino da Dinamarca.
Bulgária
Por esta altura. Os búlgaros pagam em euros há cerca de 24 horas – descontando-se qualquer período de transição, que terá havido, de vigência das duas moedas, a comum e a búlgara. Bulgária adotou oficialmente o euro como a moeda, ao mesmo tempo – o que é um pouco irónico – que o país vive uma significativa instabilidade política desde novembro, após a renúncia do governo, incapaz de impedir os grandes protestos de rua contra a corrupção e a influência oligárquica, mas também porque foi incapaz de gizar um Orçamento do Estado que fosse minimamente aceite por todos. As eleições presidenciais já estão marcadas para 8 de novembro, e espera-se também uma votação parlamentar, que ainda não está marcada, para resolver o impasse político. Para todos os efeitos, dificilmente a data de tão importante alteração estrutural podia ficar pior marcada. E não é claro, para já, se as eleições parlamentares vão ou não solucionar o impasse político em que o país se deixou cair.
Letónia e Eslovénia
A Eslovénia e a Letónia realizarão eleições parlamentares em março e outubro, respetivamente. Na Eslovénia, as sondagens mostram o Partido Democrático, de centro-direita, ligeiramente à frente do atual partido governante, o Movimento da Liberdade, de centro-esquerda, liderado pelo primeiro-ministro Robert Golob. Analistas estimam que a formação de um governo após as eleições poderá ser difícil, visto que vários partidos novos e menores estão a baralhar o quadro político.
Na Letónia, as eleições determinarão quem sucederá a atual coligação de centro-direita liderada pela primeira-ministra Evika Siliņa. O seu partido está atualmente em segundo lugar nas sondagens, logo atrás da Aliança Nacional, de centro-direita. No início de 2025, as eleições locais revelaram fragilidades no sistema informático de votação, mas a Comissão Eleitoral Central da Letónia afirma que as terá resolvido antes da votação de outubro.