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Do Danúbio ao Reno, seca e baixos caudais estão a criar perturbações na economia europeia

Roménia, Sérvia, Bulgária, Hungria ou Alemanha são alguns dos países mais afetados pelos caudais historicamente baixos de rios como o Danúbio ou o Reno, das vias de comunicação e logística mais importantes na Europa Central.

Da Roménia à Alemanha, do Danúbio ao Reno. Os rios da Europa Central estão em níveis perigosamente baixos, fruto de uma prolongada seca, e estão a causar problemas em inúmeras frentes, desde o transporte e logística à energia. A economia europeia estava já fragilizada, fruto sobretudo do choque energético, e enfrenta agora nova perturbação que arrisca condicionar ainda mais o seu crescimento.

Os transtornos são transversais a vários países. Na Roménia, o Danúbio regista os níveis mais baixos desde 1996, com um caudal de apenas 1.600 m3/s a 31 de julho à entrada no país, em Baziaș, o que compara com uma média histórica de 4.700 m3/s em julho. Isto levou à decisão de fechar um dos dois únicos reactores nucleares do país face a um volume de água insuficiente para garantir a sua refrigeração, bem como de tentar detonações submarinas para melhorar a situação.

Cernavodă, a central nuclear em questão, tipicamente representa um quinto do abastecimento elétrico na Roménia.

Além do problema no abastecimento de energia nuclear, a situação cria perturbações ao nível dos transportes e logística, com inúmeros ferries suspensos, e na agricultura, dada a dependência em termos de irrigação. A economia romena atravessa um período difícil, com o consenso dos analistas a antever uma recessão este ano, o que amplifica ainda mais o impacto negativo desta seca histórica.

Mas as perturbações no Danúbio não se esgotam na Roménia. Na Hungria, as autoridades estão também a ponderar suspender a atividade da central nuclear Paks, que abastece cerca de 40% da eletricidade do país; além disto, um navio de cruzeiro ficou encalhado na fronteira com a Bulgária, perto da cidade búlgara de Gomotartsi, obrigando à evacuação de 186 passageiros.

Na Sérvia, a produção hidroelétrica teve de ser cortada e comunidades piscatórias veem-se impedidas de trabalhar. Mais, os níveis de água desceram tanto que começam a ser visíveis barcos de guerra da Alemanha Nazi, afundados aquando da retirada do exército alemão na II Guerra Mundial, em 1944.

As limitações na produção de energia hidroelétrica estendem-se também à Suíça, que registou apenas 48% da produção normal em julho, e à Áustria, com 51% da média dos últimos 15 anos. E a tendência não é animadora, já que a Áustria esta quarta-feira registou novo máximo histórico de temperatura, com 41,2o Celsius (com a Eslováquia a acompanhar, fixando também novo recorde com 41,4o Celsius.

Também a Alemanha e França viram tombos claros do sector hidroelétrico, ficando-se por 63% e 68%, respetivamente, das produções normais daquele mês, segundo dados da consultora Montel. Precisamente em França, os números mais recentes do Observatório para a Biodiversidade apontam para 43% das vias fluviais monitorizadas condicionadas por baixos caudais ou mesmo secas, um máximo histórico para esta altura do ano.

Já Itália colocou esta quinta-feira todo o seu território em alerta vermelho devido às elevadas temperaturas, alertando as populações para procurarem manter-se hidratadas e abrigadas do calor à medida que as temperaturas ultrapassam novamente os 40o C.

Com toda esta dinâmica de seca alargada a boa parte do continente, o porto de Antuérpia, o segundo maior da Europa, tem também experienciado uma redução do caudal, o que cria desafios a embarcações de maiores dimensões, bem como às autoridades, que se veem divididas entre a necessidade de responder a desafios de logística marítima, fornecimento de água industrial e a segurança no abastecimento para consumo.

Alemanha arrisca perder 0,3% do PIB

Mais a norte é o Reno que assume o destaque pela negativa. O rio é das vias de comunicação intraeuropeias mais importantes e ainda mais para a economia alemã, representando 80% dos bens transportados internamente por água no país. E, para lá da questão interna, a ligação aos Países Baixos e ao porto de Roterdão, o maior da Europa, garante a capacidade exportadora para o sector industrial germânico.

“A importância histórica do Reno também significa que não existem alternativas reais. Substituir uma só barcaça pode obrigar a mais de 100 camiões ou um comboio de mercadorias inteiro – e isto sem ter em linha de conta os conhecidos problemas alemães de infraestrutura”, escrevem os analistas do ING, que alertam para um impacto que pode tirar 0,3% ao PIB.

Este foi, de resto, o impacto da crise de 2018 estimado pelo Intituto Kiel, além de uma redução de cerca de 25% no volume de mercadorias transportadas internamente por água e uma queda de 1% na produção industrial. No entanto, a atual crise arrisca um rombo ainda maior, dado que os níveis de água estão ainda mais baixos do que naquele ano – na realidade, os 24 centímetros registados esta segunda-feira foram o valor mais baixo desde 1880, quando começa a série estatística.

Para operarem seguramente, os navios precisam de pelo menos 78 centímetros de água naquele ponto vital da ligação Alemanha-Suíça. No entanto, as projeções meteorológicas não permitem grande otimismo para os próximos dias. Noutra dimensão, o frete médio para um navio-tanque de Roterdão até Karlsruhe, na Alemanha, disparou de 45 euros por tonelada no final de junho para entre 150 e 155 euros a tonelada no final de julho.

Além das atividades simplesmente suspensas e impossíveis de realizar nesta situação, os agentes económicos estão a procurar adaptarem-se. Rico Luman, economista sénior do banco ING focado no sector dos transportes, lembra que muitas “embarcações com matérias-primas e contentores a navegar Reno acima estão frequentemente condicionadas a uma fração da sua capacidade normal”, chegando a ser necessários quatro barcos para transportar a carga normalmente alocada a apenas um.

“O resultado são fretes mais caros, tempos de transporte mais longos e pressão sobre os fornecedores de matérias-primas”, aponta, lembrando que “estes eventos extremos de baixo caudal têm sido mais frequentes na última década do que nas cinco anteriores”.