As empresas europeias estão a sentir o peso dos anos de dinheiro barato. A nova edição do Transform and Special Situations Index (TSS), da Boston Consulting Group (BCG), analisou cerca de 1.700 empresas cotadas e conclui que 16,2% estão sob pressão para transformar o negócio, contra 14,3% no ano anterior.
O problema passa sobretudo pela dívida. O indicador utilizado pela BCG compara a dívida líquida com o EBITDA, uma medida que permite perceber quanto uma empresa consegue gerar através da sua actividade antes de juros, impostos, depreciações e amortizações.
De forma simples, se uma empresa tiver 300 milhões de euros de dívida líquida e gerar 100 milhões de euros de EBITDA, terá um rácio de três vezes. Quanto maior for este número, maior é o peso da dívida relativamente à capacidade de gerar resultados.
Entre 2022 e 2025, este rácio aumentou 22% nas empresas analisadas. Quase um terço entrou em 2026 acima das três vezes, um nível que a BCG considera indicativo de pressão financeira.
A situação é particularmente relevante depois dos anos de taxas de juro muito baixas, em que muitas empresas aumentaram o endividamento. Agora, têm de enfrentar custos de financiamento mais elevados, ao mesmo tempo que lidam com energia cara, alterações na procura, tarifas e perturbações no comércio internacional.
Portugal e Espanha entre os mais pressionados
Após se terem endividado a custos muito baixos durante a pandemia, muitas empresas estão agora a ter dificuldades em reduzir esse endividamento, num contexto marcado por taxas de juro mais elevadas, custos energéticos e perturbações no comércio internacional. “Se os planos de negócio não se materializarem ou ocorrer outro choque, as empresas terão menos opções do que há alguns anos”, alerta Tobias Wens, diretor-geral da BCG e coautor do estudo, citado pela Bloomberg.
A pressão não é uniforme entre os países. Portugal e Espanha apresentam uma das percentagens mais elevadas, com 22% das empresas analisadas sob pressão para transformar o negócio, segundo os dados divulgados pela Bloomberg. A informação publicada não separa a percentagem correspondente a cada um dos países.
Na França e na região DACH — Alemanha, Áustria e Suíça — 10% das empresas enfrentam pressão de reestruturação, um nível mais grave, que significa que a situação financeira e operacional pode exigir mudanças mais profundas.
A Alemanha destaca-se pelo maior risco de reestruturação na Europa, enquanto Itália e os países nórdicos registam também uma pressão crescente. Em Itália, a deterioração está particularmente ligada às telecomunicações, media e tecnologia. Nos países nórdicos, o principal foco de pressão é o sector da energia.
O Reino Unido apresenta a menor pressão de reestruturação entre os mercados analisados, embora esta tenha aumentado desde 2024. A melhoria do imobiliário contribuiu para aliviar a pressão global sobre as empresas britânicas.
Imobiliário e automóvel entre os sectores mais expostos
Os dados setoriais dizem respeito ao conjunto das empresas europeias analisadas, e não especificamente a Portugal e Espanha. Sendo assim, o imobiliário é actualmente o sector mais pressionado: 62% das empresas estão sob pressão para transformar o negócio contra apenas 12% no ano anterior. O setor é particularmente sensível às taxas de juro, que encarecem o financiamento e afectam o valor dos ativos e a atividade de transacções.
No automóvel, a pressão atinge 28% das empresas, devido à combinação de procura mais fraca, excesso de capacidade, custos da transição para veículos eléctricos e crescente concorrência chinesa.
Nos media e publishing, cerca de 20% das empresas enfrentam pressão mais acentuada. A mudança das audiências e da publicidade para plataformas digitais e criadores de conteúdos está a alterar o modelo de negócio, enquanto a inteligência artificial começa também a modificar a forma como os utilizadores descobrem informação.
Os químicos enfrentam igualmente dificuldades, num contexto de menor procura e custos elevados de energia e produção. Já o consumo e retalho estão a ser afetados pela pressão sobre o poder de compra e pelos custos de transporte, armazenamento e trabalho. Nos transportes e logística, as perturbações das cadeias de abastecimento e das rotas comerciais continuam a criar pressão sobre as empresas.
O retrato traçado pela BCG é, por isso, menos sobre uma crise generalizada das empresas europeias do que sobre uma acumulação de vulnerabilidades. A dívida tornou-se mais pesada face à capacidade de gerar resultados e, com menos margem financeira, as empresas ficam mais expostas se a procura enfraquecer ou surgir um novo choque económico ou geopolítico.