A Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, liderada por Luís Sequeira desde março do ano passado, acaba de apresentar um ambicioso Plano Estratégico 2026–2031, que prevê produzir uma pequena revolução naquela região demarcada – nomeadamente no que tem a ver com o segmento das exportações. Para isso, muniu-se de informação resultante do contributo de todos os operadores económicos do setor. Com uma vertente de formação, mas também com uma forte aposta na tecnologia como instrumento de leitura cientificamente certificada, Luís Sequeira não tem dúvidas: em cinco anos, a região será muito diferente. A aposta nos vinhos brancos e no aumento do território ocupado pela vinha também faz parte dos planos. Sem descurar a importância que a região ganhou no mercado nacional, a CVRA identificou os mercados-alvo: para além dos europeus, entendidos como uma extensão do mercado nacional, a aposta vai para o Brasil, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.
Quais são os principais temas que estão subjacentes ao plano estratégico para 203?
Antes de ir aos pilares do plano estratégico, devo explicar como chegámos lá. Em primeiro lugar, porque estamos perante uma realidade em alteração. A economia, não apenas no setor dos vinhos, está a sofrer profundas alterações. Repare-se no que está a acontecer, por exemplo, no setor da indústria automóvel, que nos habituámos a olhar como um setor relativamente conservador. A teoria económica sustentava que uma marca automóvel requer cerca de 70 anos para se consolidar, e veja que, de repente, temos hoje marcas automóveis que já são líderes em alguns segmentos do mercado, de que há cinco anos ninguém tinha ouvido falar.
O setor dos vinhos passou por uma transformação semelhante?
No setor dos vinhos, há uma igual alteração. Talvez com a agravante de requerem respostas que não são necessariamente as mesmas do passado. Foi esse o princípio fundador da forma como olhamos para esta realidade, tentando discernir nela alguns elementos e, sobretudo, perceber que soluções poderão ser consideradas. E foi isso que fizemos. Ao longo de vários meses, estivemos dedicados a discutir, analisar e, de certa maneira, a transformar o Alentejo numa região que se pensa, que se questiona. Ao longo de quatro meses, mantivemos um intenso processo para tentarmos conhecer a realidade atual do consumo, quer em Portugal, quer nos principais mercados externos. Fizemos um estudo com a Universidade Nova para nós próprios também sabermos qual é a nossa realidade, o que é que valemos, qual é o peso socioeconómico da região. Promovemos a auscultação do setor em nove sessões que organizámos um pouco por todo o Alentejo, junto dos viticultores, junto das associações, dos agentes económicos.
Refletidas no programa entretanto gizado.
As suas 140 páginas. Tentarei reduzi-las aos principais elementos. O reforço da componente de novas tecnologias, de robotização, para que possamos ter um modelo de controlo, não só mais eficaz, mas também que assegure uma forte credibilidade; uma componente de promoção bastante mais ativa; a sustentabilidade como elemento fundador do Alentejo; e, sobretudo, vermos a região e o vinho numa perspetiva holística. Ou seja, não apenas num olhar para o vinho, mas alargar a perspetiva e entender o vinho fazendo parte de um cluster que nós chamamos do bem-estar, que envolve o azeite, a gastronomia, a cultura, o enoturismo. Temos de pegar em cada uma destas fatias e analisá-las com maior detalhe.
Comecemos pela tecnologia.
Fomos procurar parceiros e encontrámos o Instituto de Ciências da Terra. Desenvolveu para o Alentejo, em função daquilo que nós desenhámos como fundamental para nós, um programa de investigação extraordinário. Basicamente, o que iremos fazer (o programa arrancou há cerca de um mês) é identificarmos um operador por cada uma das sub-regiões e fazer testes ao longo destas próximas duas vindimas para que possamos depois escalar para a vindima de 2028 e generalizá-la a toda a região. Utilizando imagens satélite e a padronização de produção com base nos dados que temos desde 1989, desde que foi fundada a CVRA, através de algoritmos com inteligência artificial, vamos poder antecipar ou prever a produção. E isso é fundamental. Para além disso, vamos conseguir identificar quais são as parcelas que estão em produção para que depois as possamos, conjuntamente – porque este projeto envolve também o IVV – designar como estando em produção. O que quer dizer que aquelas que não estão em produção não são aceitáveis. Para além disso, vamos ter também, em utilização já em programa-piloto nesta vindima, QR Codes que vão ser colocados em todos os contentores de transporte da vinha até à adega. Ou seja, cruzando as modernas tecnologias com o modelo tradicional, clássico, digamos assim, de controlo da vindima. Este ano, vamos ter cinco equipas, conjuntamente também com a ASAI e a GNR, com quem estabelecemos protocolos de colaboração em agosto do ano passado. Portanto teremos um modelo de controlo bastante robusto. Mas quando dizemos que, para nós, é muito importante a informação, não é apenas a sua recolha, mas a partilha. Por essa razão, criámos e lançámos há cerca de um mês, uma plataforma (a Data Miles), em que basicamente recolhemos cinco milhões de dados e os disponibilizamos para consulta, sendo certo que estes dados estão a ser atualizados todos os dias. É informação que permite a todos os agentes económicos do Alentejo tomarem as suas decisões com base em dados não só credíveis, mas também muito detalhados. Devo dizer que, a nível mundial, neste momento, o Alentejo está já um pouco acima da entidade que sempre foi uma referência na partilha desta informação: o Wines of Australia. Não tenho dúvida nenhuma que daqui a cincoanos vamos olhar com alguma comiseração para o facto de ficarmos muito satisfeitos por termos cinco milhões de dados.
Para além disso, vamos querer também modernizar muitos dos serviços que estamos a prestar. Longe de sermos um obstáculo ou uma barreira ou um entrave, seremos exatamente o contrário: dinamizadores. E é aqui que entra, eu diria, talvez, uma componente, porventura, mais significativa.
Que vem a ser?
Aquilo que precisamos, e é isso que o plano estratégico também identifica, é ter horizontes de estratégia comercial para podermos vender a marca coletiva Vinhos do Alentejo. Que é aquilo de que nós somos fiéis depositários. A CVRA tem, entre as suas principais funções, dinamizar, robustecer e tornar mais forte a marca Vinhos do Alentejo. É exatamente isso que estamos a fazer, tendo em perspetiva que a região que, em certa medida é vítimas do próprio sucesso. Uma região que representa cerca de 14% da produção tem uma quota de mercado nacional de 37%. Por essa razão, a explotação foi sempre entendida como relativamente secundária, porque, naturalmente, toda a prioridade estava orientada no sentido de assegurar que o mercado nacional se encontrava devidamente fornecido.
Uma aposta, portanto, nas exportações.
O mercado consome hoje efetivamente menos, mas felizmente consome melhor. E é exatamente aqui que encontramos o equilíbrio. Porque o Alentejo, quando olhamos para os 23 mil hectares de produção, representam apenas 0,7% do território do Alentejo. É uma pequena gota. E se olharmos por exemplo em comparação com o Douro, é metade. Ou seja, o Alentejo nunca teve uma vocação de volume. O Alentejo sempre teve uma vocação de qualidade. Não é a região que mais produz, não é essa a condição que, de resto, pretendemos ter. O que pretendemos é ter a condição da região que mais vende em valor. E, portanto, esse é o objetivo que vamos perseguir, com o apoio deste plano estratégico. No conjunto das nossas ambições encontra-se multiplicarmos por dois as nossas exportações – que representam pouco mais de 20%. Nós pretendemos que as explotações do Alentejo representem cerca de 40% da produção, num espaço de cinco anos. Por que razão? Porque o preço médio da explotação é claramente superior.
Para onde, desde logo?
Identificar quatro principais mercados, a saber Brasil, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos. E quando falo dos principais mercados, bem entendido, falo dos extracomunitários. Porque, naturalmente, a explotação dentro da União Europeia são, em bom rigor, quase que uma extensão do mercado nacional. A ideia é concentrarmos os recursos nestes mercados, razão pela qual, por exemplo, no caso do Brasil, antecipando já o Mercosul, canalizamos para este ano de 2026 um crescimento de 51% do nosso investimento para praticamente 800 mil euros. Mas, ao mesmo tempo, mais do que precipitarmos o investimento, temos de o tornar significativo. Apercebemo-nos que havia, de uma forma genérica, algum, não diria desconforto, mas muitos agentes económicos, e não necessariamente os mais pequenos, se menos confortáveis relativamente à exportação. Fomos procurando saber depois individualmente, caso a caso, porquê, e apercebemo-nos que havia algum menor domínio das ferramentas que são estruturalmente necessárias para um trabalho de exportação, que é bastante mais exigente.
Outro ponto pretendemos também trazer ao Alentejo quem tem capacidade de decisão para introduzirmos novas referências, seja em cadeias de supermercados, seja em cadeias de restaurantes internacionais. E, portanto, a exportação, ou este programa que nós chamamos Exportar Primário, assenta nestas bases: formação, trazer os responsáveis ao Alentejo e, em terceiro lugar, reforçar a componente de atividades promocionais, sempre com vista à componente comercial, e, portanto, tendo muito esta lógica prática de abrir portas para que os diversos agentes económicos possam ter sucesso.
Que valor está à espera de investir neste plano a cinco anos?
nossa pretensão, e é isso que estamos a fazer, é ter um investimento na ordem dos dois milhões de euros por ano. Ou seja, abordarmos o reforço da marca coletiva nesta perspetiva. Estamos a falar de exportação, mas há também uma componente nacional. E, no mercado nacional, a trajetória tem um tripé que, para nós, é absolutamente fundamental: o desenvolvimento da marca coletiva através da publicidade tradicional – estamos a desenvolver projetos muito ambiciosos, muito inovadores, na área da restauração e na área da chamada moderna distribuição.
Para enformar todo isto, a região vai mudar. Vai mudar, nomeadamente, a nível de vinhos brancos: vamos ter necessidade de plantar mais vinhas de uvas brancas. É por essa razão que, no ano passado, abrimos a possibilidade de se plantarem mais 100 hectares no Alentejo. O que, em certa medida, podemos dizer que é contracorrente no momento em que há arranque de vinha. E, aliás, o próprio Alentejo, pela primeira vez em 2025, reduziu a sua área de vinha. O Alentejo é uma região em mudança.