A crise energética provocada pela guerra no Médio Oriente custou mil milhões de euros a Portugal até agora.
Este valor inclui 450 milhões de euros de custos aos cofres públicos com os apoios aprovados, mais 550 milhões de aumento na fatura de combustíveis de famílias e empresas.
Tudo junto, pesa 0,33% do PIB nacional até agora, com as ajudas públicas a pesarem 0,15%.
As contas das ajudas públicas foram feitas pelo Instituto Jacques Delors tendo em conta os subsídios aos setores dos transportes e o agrícola, com o JE a fazer uma estimativa para o aumento da fatura das famílias e empresas com combustíveis a partir dos 22 mil milhões de euros estimados para todos os países da União Europeia, segundo Bruxelas, a um ritmo de 500 milhões ao dia para todos os estados-membros.
Dos 27 estados-membros, 22 decidiram introduzir 120 medidas de apoio com um custo combinado de 9,2 mil milhões de euros, segundo as contas do think-tank sediado em Paris e fundado pelo ex-presidente da Comissão Europeia Jacques Delors.
Dos países que aprovaram medidas, 15 aprovaram medidas fiscais, como corte do IVA; com 9 a aprovarem medidas a limitar os preços, incluindo tetos nos combustíveis ou limites diários.
Analisando as medidas, os analistas Alice Moscovici e Phuc-Vinh Nguyen destacam que os governos favoreceram "medidas imediatas" para os cidadãos, mas alertam para os riscos de longo prazo: "os tetos nos preços limitam sinais de procura, criando condições para escassez".
Recordando que este padrão de curto-prazo já se verificou durante a invasão russa da Ucrânia em que as medidas de ajuda pesaram 2,2% do PIB europeu entre 2022-2024.
Apesar de existir um "sentimento de resolução rápida do conflito", o fim da guerra permanece "longe" de ser uma certeza.
Olhando para a vizinha Espanha, as medidas atingem os 5 mil milhões de euros, pesando o,4% do PIB, incluindo a redução do IVA de 21% para 10% nos combustíveis, eletricidade e gás. Nas medidas sociais, há um desconto para a eletricidade.
Em Itália, as medidas atingem mil milhões de euros, pesando 0,05% no PIB, incluindo o corte de 25 cêntimos por litro no preço dos combustíveis.
Em França, as medidas foram mais tímidas, com um impacto de apenas 130 milhões de euros. Entre as medidas, estão apoios ao gasóleo agrícola, mas também ao setor do transporte rodoviário e ao setor da pesca. As medidas de proteção social incluem vouchers energéticos de 153 euros para um total de 4,5 milhões de famílias.
A análise não tem estimativas de valor para vários países, como os Países Baixos, Alemanha, Bélgica, Eslováquia, Áustria ou Dinamarca, apesar de terem medidas aprovadas. Outros países aprovaram medidas com impactos neutros, como a Letónia ou a Lituânia.
Olhando para os impactos do disparo nos preços do petróleo na Europa, a Coface coloca Portugal entre os países com médio risco (França ou Polónia no mesmo lote), com exposição limitada, apesar do choque. "Nestas economias, a transmissão do choque petrolífero permanece mais contido. Isto é porque os aumentos dos custos com combustível foram relativamente moderados ou porque o combustível tem um peso mais pequeno no consumo das famílias", segundo Victor Heutte, economista da seguradora de créditos francesa.
As medidas públicas também "ajudam a amortecer o choque, limitando assim o impacto direto na inflação principal ou no poder de compra", acrescenta.
Os preços do petróleo dispararam mais de 70% este ano devido à guerra no Irão, mas o impacto nas famílias permanece "altamente desequilibrado nos vários países", dependendo do peso do combustível no cesto de inflação, entre outros.
Já a Roménia, Bulgária ou Lituânia são os países com risco mais elevados, enfrentando tanto um disparo significativo nos preços, como um peso elevado do combustível no consumo das famílias. O "choque" petrolífero é assim transmitido totalmente às famílias com impacto direto e substancial no poder de compra, com a capacidade de os governos intervirem a ser "mais limitada".
A União Europeia está a ser uma das vítimas colaterais desta guerra que continua sem fim à vista.
"Isto demonstra o enorme impacto desta crise na nossa economia", disse a presidente da Comissão Europeia na segunda-feira no Parlamento Europeu.
Mesmo que o conflito terminasse hoje, "as disrupções de energia do Golfo Pérsico iriam persistir durante algum tempo", segundo Ursula von der Leyen.
Entre as medidas anunciadas está a coordenação de compra de gás para o próximo inverno, "evitando que os estados-membros vão todos ao mercado ao mesmo tempo", para evitar que os países compitam uns com os outros.
Outra medida é a libertação de reservas de petróleo, que também será coordenada.
A líder europeia pediu por mais "investimento" para acelerar "redes, armazenamento, baterias", com a ajuda do dinheiro europeia. "Por favor, usem esse dinheiro agora, precisamos de melhorar o nosso sistema de energia", defendeu, pedido também investimento privado, além do público.
Bruxelas também está a preparar um pacote para reduzir os impostos sobre a eletricidade e as tarifas das redes elétricas, com a proposta a ser apresentada a 22 de abril.
"Estamos a pagar um preço muito elevado pela nossa sobre-dependência dos combustíveis fósseis, e a realidade negativa para o nosso continente é que os combustíveis fósseis vão permanecer as opções mais caras nos próximos anos", segundo a responsável, defendendo mais energias renováveis e mais nuclear.
Dos países da UE, 22 introduziram 120 medidas avulso que custaram mais de 9 mil milhões de euros para aliviar a fatura da crise energética.
Ajudas públicas dos países da UE para a crise energética:
Espanha: 5 mil milhões, 0,4% do PIB
Suécia: 500 milhões, 0,1% do PIB
Polónia: 430 milhões por mês, 0,06% do PIB mensal
Croácia: 450 milhões, 0,6% do PIB
Portugal: 450 milhões, 0,17% do PIB
Grécia: 300 milhões, 0,13% do PIB
Irlanda: 250 milhões, 0,05% do PIB
França: 130 milhões em abril
Roménia: 120 milhões, 0,03% do PIB
Bulgária: 100 milhões, 0,1% do PIB
Chéquia: 40 milhões mensais, 0,01% do PIB mensal
Estónia: 30-40 milhões, 0,1% do PIB
Fonte: Jacques Delors Institute