O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) considera que o Governo deveria tentar convencer Bruxelas a reprogramar o PRR. Em causa, diz Armindo Monteiro, estariam mudanças não só para a região Centro, mas também para projetos que vão ser afetados indiretamente no resto do país, por dependerem das empresas danificadas pela depressão Kristin.
O Executivo deveria tentar sensibilizar a Comissão Europeia para que haja flexibilidade nos prazos, "porque se justifica em determinados contextos", defende o presidente da CIP em entrevista ao Jornal Económico. "Não estou a dizer de forma global, mas em determinados contextos justifica-se".
Estaria em causa, nomeadamente, uma exceção para as regiões afetadas, mas não só: "Estamos em pleno emprego e não é fácil estarmos a aumentar [a mão de obra], porque as pessoas já estão empregadas. Uma outra calendarização permitiria executar o que agora se figura um bocadinho mais difícil", sugere o responsável.
"Imagine um edifício ou infraestrutura que está no âmbito do PRR e precisa de caixilharia. Essa caixaria, porventura, estava a ser feita numa daquelas fábricas [destruídas] e, portanto, ao desaparecerem as máquinas, as matérias-primas e as matérias secundárias, neste momento, o projeto do PRR, que tinha de ser executado numa determinada altura, deixou de poder ser feito, porque não haverá forma de acelerar", exemplifica.
Armindo Monteiro afirma que "fica comprometida a execução de alguns dos projetos que estavam a ser desenvolvidos" no âmbito do PRR, porque "há ali unidades empresariais que produzem para todo o país, ao nível de equipamentos urbanos", sublinha. "Estou a dar um exemplo de caixilharia, mas podia dar de unidades para estradas, para equipamentos urbanos — há muito investimento de autarquias que está a ser feito ao nível de equipamentos urbanos" e que contaria com o fornecimento das empresas agora devastadas.
"O PRR está a contemplar projetos para a administração central e local. E há muitas câmaras que estavam neste momento a executar esses projetos. Às vezes, são pequenas construções, pequenas adaptações — substituir janelas ou montar painéis fotovoltaicos".
O presidente da CIP sinaliza a existência de "dois tipos de prejuízo" nas regiões afetadas: "Um ao nível do investimento — as máquinas, os equipamentos — e outro do ativo circulante, os stocks. Perdeu-se muito, muito stock. E não é fácil recuperá-lo", avisa. Armindo Monteiro indica que as empresas atingidas ficaram sem matérias-primas numa região em que "há muito material de construção".
"O PRR tinha muita componente de construção que ficou naturalmente em risco. E que ficou danificado na área da metalomecânica, na parte das tubagens, dos trabalhos com madeira ou betão. Foi uma catástrofe…", lamenta.
Apoios têm de ser rápidos para evitar "crise forte"
Armindo Monteiro entende que os apoios prometidos pelo primeiro-ministro vão no bom sentido, nomeadamente porque são medidas que "descomplicam". "Não estou a dizer que não se escrutine — o escrutínio é absolutamente fundamental para perceber que o dinheiro vai ser bem aplicado, mas é necessário que se descomplique, porque muitas vezes temos tendência a complicar".
O presidente da CIP, que tem estado em contato com o ministro da Economia, o gabinete do primeiro-ministro e outros membros do Governo, destaca o facto de o executivo ter avançado "com um montante significativo" para "preservar o que ainda não foi totalmente perdido". Uma vez que há fábricas "desprotegidas”, a situação “pode complicar" com “o temporal ainda previsto para esta semana”.
Os equipamentos "não são fáceis de deslocar", porque "isto não é um laptop que se fecha, que se mete debaixo do braço e se leva para outro lado". Por isso, "o dinheiro tem de chegar rapidamente para ultrapassar esta dificuldade", assegurando que não se destrói emprego. "É preciso que todos estes postos de trabalho não se transformem em subsídios de desemprego", defende Armindo Monteiro, elogiando os apoios anunciados: "Permite recuperar o investimento, tem como objetivo recuperar rapidamente os níveis de produção e manter os postos de trabalho". São medidas que permitem ao Governo "ser cirúrgico e ir a cada uma das necessidades, porque não são todas iguais". Há empresas que ficaram com dificuldades de tesouraria, outras que não vão conseguir cumprir as obrigações com o fisco ou, simplesmente, casos em que é necessária apenas eletricidade para continuar a produzir, destaca o representante dos patrões, que visitou algumas das localidades afetadas.
Armindo Monteiro alerta, no entanto, que os apoios têm de chegar rapidamente ao terreno, sob pena de algo ainda mais grave acontecer por aquelas paragens. "Isto é gente que não está habituada a viver de mão estendida. É gente que faz, que é do espírito mais empreendedor que o país tem, com os seus pequenos negócios, as suas pequenas unidades industriais", começa por referir. "Mas se as medidas não chegarem rapidamente, eu temo que possa estar a ser gerada ali a base para uma crise forte", alerta o presidente da CIP.
"Fala-se muito hoje no 'upskilling' e no 'reskilling' e tudo mais — é tudo muito bonito —, mas as pessoas ali têm competências e qualificações agora. E precisam de ganhar rendimento e sustento para a sua vida já. Portanto, não as vamos pôr, de repente, a fazer o que não sabem ou para o qual não estão preparadas. É preciso recuperar os postos de trabalho e o volume do negócio rapidamente para que as pessoas continuem a ter rendimento. Porque, senão, estamos ali a gerar uma catástrofe”. Ainda maior do que já é: "Naquela zona, à semelhança do país, há muitas unidades familiares, em que todo o agregado imediato depende da mesma empresa. Podemos estar aqui perante uma catástrofe muito grande".
A preocupação diz respeito também, por arrasto, aos "estados de alma" dos empresários afetados, que são "muito críticos", afirma Armindo Monteiro, que visitou o terreno e tem recebido telefonemas. "Imagine uma unidade de onde tiro o rendimento do dia a dia para si e para a família. Tudo deitado ao chão, tudo destruído, levado pelo mau tempo. Isto são vidas inteiras que morrem se não houver aqui um sentimento de ajuda", continua.
"Além de recuperarmos as unidades, é absolutamente fundamental recuperar o ânimo dos empresários, descobrir ainda energia para recomeçar tudo. Por vezes, é muito mais difícil recomeçar do que começar, sobretudo perante uma situação destas, em que a pessoa fica impotente perante a força da natureza", diz o representante da CIP, sublinhando que "muitos destes negócios familiares estavam agora quase a passar do testemunho geracional". Os empresários "já não têm a mesma idade para recomeçar tudo".
Um alerta para o futuro
A depressão Kristin, que chegou a atingir um pico de 209 km/h, gerando devastação em cerca de 70 municípios, deixa ainda questões sobre como lidar com estes fenómenos no futuro. E Armindo Monteiro vai deixando o aviso: "Nós, empresários, também vamos ter de levar em linha de conta que já não temos aquele clima ameno a que nos habituámos durante décadas em Portugal", assinala.
"E, por isso, para os novos investimentos, isto também é um alerta: mais vale prevenir do que remediar, porque seguramente esta não foi a última catástrofe das nossas vidas. Vamos ter de viver com estas alterações. E se já não temos um clima ameno, temperado, as nossas unidades industriais também têm de ter em linha de conta isto mesmo. A forma como vamos construir os próximos investimentos terá de incorporar isso", alerta Armindo Monteiro.