O excedente comercial chinês atingiu novo recorde em 2025, fechando o ano em 1,19 biliões de dólares (1,02 biliões de euros), o equivalente ao PIB de uma das 20 maiores economias do mundo, isto apesar da tempestade tarifária imposta por Washington. Os EUA foram, de resto, um dos poucos países com quem as trocas chinesas caíram, com o resto do mundo a compensar largamente esta queda.
As exportações chinesas cresceram 5,5% em 2025 enquanto as importações se mantiveram inalteradas, resultando no maior excedente comercial da história do gigante asiático. Olhando exclusivamente para dezembro, as exportações cresceram 6,6% em termos homólogos, ultrapassando largamente a projeção de 3% e o avanço de 5,9% em novembro, ao passo que as importações subiram 5,7%, o valor mais alto do último meio ano e muito acima dos 0,9% esperados.
Este é mais um sinal da reconfiguração do comércio mundial após a escalada tarifária de Trump, que levou inúmeros governos por todo o mundo a diversificarem relações comerciais e a reduzirem a dependência dos EUA, um parceiro cada vez menos fiável.
No detalhe, as vendas para os EUA caíram 20% no ano, sendo que a Coreia do Sul também registou um decréscimo, embora consideravelmente menos expressivo, com 1,1%. De destaque pela fraqueza dos números está também o Japão, que viu um aumento de apenas 3,5% nas importações vindas da China, e a Rússia, cujas compras a empresas chinesas caíram pela primeira vez em cinco anos.
Em sentido inverso, os países dos blocos do Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e da UE registaram um crescimento de 13,4% e 8,4%, respetivamente, nas compras à China, enquanto a Índia viu um incremento de 12,8%. As exportações para África cresceram 25,8% e as para a América do Sul outros 7,4%, mais que compensando o decréscimo para os EUA.
Por produto, os semicondutores assumiram o maior protagonismo, saltando uns assinaláveis 26,8%, mas acompanhados de perto pelos navios e automóveis, cujas exportações cresceram 26,7% e 21,4%. Em sentido inverso, bens com elevada exposição ao mercado norte-americano sofreram as maiores quedas, nomeadamente brinquedos, mobiliário e calçado, com recuos de 12,7%, 6,1% e 11,3%, respetivamente.
Do lado das importações, o avanço homólogo de 5,7% em dezembro foi a grande surpresa, contribuindo para manter a leitura anual de 2025 inalterada. A Indonésia foi o mercado de origem em maior destaque, avançando 15,6%, com Singapura a registar mais 14,7%. Nota ainda para os Países Baixos, que viram as suas vendas para a China crescerem 8,8%.
Já as importações vindas dos EUA caíram 14,6%, tal como as da Malásia, Canadá e Austrália, que recuaram 20,4%, 10,4% e 7,5%. As compras chinesas ao exterior têm sido cada vez mais concentradas no sector tecnológico, com componentes como os semicondutores a acelerarem 10,1%, enquanto as ligadas à construção foram as maiores perdedoras.
Contas feitas, o excedente comercial de 1,19 biliões de dólares (1,02 biliões de euros) seria, por si só, equivalente ao PIB de uma das 20 maiores economias do mundo, destaca a análise do banco ING. Este número colocaria o excedente comercial chinês acima do PIB da Polónia, o 20º maior do mundo, e o da Arábia Saudita, a 19º maior economia global.
A prestação externa chinesa será também novamente o seu motor de crescimento, tal como tem sucedido nos últimos anos, e deverá garantir que Pequim atinge o seu objetivo de avançar 5% no PIB este ano, projeta o banco neerlandês. Ainda assim, subsiste uma dúvida: “até quando este pode ser o principal motor de crescimento chinês?”
“Ciente dos riscos e procurando cooperações mutuamente benéficas, a China tem-se focado em promover a procura interna como o principal motor de crescimento no futuro. Com uma classe média crescente, o potencial de consumo para produtos locais e globais não pode ser subestimado”, escrevem os analistas do ING. “O processo levará tempo, talvez mais do que alguns parceiros chineses quererão, mas achamos que este será o principal tema da próxima década”.