A escalada de preços e subsequentes dificuldades vividas por boa parte dos setores primário e secundário do país não terão apenas repercussões nas empresas, mas no tecido produtivo como um todo e, por arrasto, na economia nacional. Mais inflação é quase inevitável, o investimento e as exportações caem e o emprego também poderá sofrer, com alguns ramos a falarem mesmo num risco de empresas terem de fechar portas.
O agravamento de custos para as empresas tem como consequência mais óbvia a subida generalizada de preços, assumindo que existe margem para tal. Mas, nalguns casos, tal não é possível, sobretudo dada a necessidade de competir com outras economias com custos de produção consideravelmente mais baixos.
Nos transportes, André Matias de Almeida, da ANTRAM – Associação de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias, admite precisamente que a subida de preços será provavelmente a primeira reação da generalidade das empresas.
Já no caso da agricultura, Luís Mira, da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), explica que os produtores nacionais enfrentam já uma concorrência aguerrida de Espanha, pelo que nova subida nos custos prejudica ainda mais esta dinâmica. “Com esta diferença de condições é difícil manter a competitividade”, atira.
Para o setor da cerâmica, a possibilidade de subir preços é esmagada pela concorrência asiática, sobretudo da China e Índia, pelo que “é muito difícil fazer essa repercussão”, argumenta Paulo Almeida, da Apicer - Associação Portuguesa da Indústria Cerâmica. Esta dinâmica é agravada pelas regulações distintas que as empresas portuguesas enfrentam face a estas concorrentes, nomeadamente a nível “ambiental, laboral e social”.
Por outro lado, o recurso ao lay-off também não é solução, dado que “o mercado continua aberto”. Ou seja, “se as empresas saírem do mercado, depois é muito difícil voltar”.
Perante este cenário, há o risco real de “algumas empresas ficarem pelo caminho” e fecharem portas, uma possibilidade que deixa o vice-presidente da Apicer “seriamente preocupado”. Segundo os dados mais recentes do INE, a indústria do vidro e cerâmica empregava em 2024 mais de 25 mil pessoas.
“É necessário é evitar que um choque externo e temporário se transforme num problema estrutural para a competitividade das empresas portuguesas”, acrescenta Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), que relembra a importância da previsibilidade. “As empresas precisam de saber com que custos podem contar para poderem tomar decisões de investimento, contratação e produção”, remata.
Cerâmica e cristal alertam para risco de encerramento de empresas
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Impactos do choque são transversais, mas setores com menos margem e mais concorrência são os mais expostos, como a cerâmica, que temem mesmo o fecho de empresas.