O jogador que se tornou treinador/comentador e o treinador que se tornou gestor e consultor, prepara-se para abraçar mais um grande desafio aos 66 anos: É candidato à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol e ao JE disse que não quer uma revolução até porque o país têm uma comunidade apaixonada e um ecossistema que fará 100 anos em 2027.
O que é preciso mudar no basquete português?
Não é preciso mudar tudo no basquetebol português porque há muitas coisas boas que têm acontecido na modalidade. A minha proposta passa por edificar aquilo que está bem feito e continuar a desenvolver as boas práticas. A primeira premissa é unir as pessoas. O basquetebol em Portugal tem muitos elementos bons: tem fantásticos dirigentes, treinadores, muita gente boa em todos os sentidos mas estamos muito metidos em ilhas e afastados uns dos outros. Uma primeira decisão passa por constituir um Conselho Estratégico Nacional que possa envolver e fazer com que todos possam crescer para que o basquetebol possa chegar mais longe. É fundamental criar a união entre os vários elementos: árbitros, dirigentes, treinadores, jogadores, comunidade basquetebolística e os clubes que são a alma e o coração do crescimento de uma modalidade em qualquer país.
Do que conhece, vai ser fácil estabelecer essa união?
Conheço o contexto do basquetebol em Portugal e em mais de 40 países. Portugal tem o ecossistema e uma comunidade ligada ao basquetebol e há muita coisa que já está feita. Em 2027, o basquetebol celebra 100 anos em Portugal e portanto, qualquer trabalho que seja desenvolvido não vai ser iniciado de novo. Temos é que repensar porque é que uma modalidade que já foi o desporto líder no nosso país acabou por ficar para trás de uma forma tão evidente. Hoje temos outras modalidades com números muito mais significativos de prática desportiva do que o basket: natação, voleibol e o andebol estão claramente à nossa frente. Aquilo que é preciso recuperar é como fazem as equipas quando estão a perder por vinte pontos. Com união e trabalho em conjunto podemos dar a volta ao jogo. É preciso criar mecanismos, motivar as pessoas para trabalhar em conjunto e apesar de um fôlego menor, temos estado bem desportivamente ao nível das seleções: veja-se o que aconteceu no ano passado com as seleções masculina e feminina a jogar a fase final do Europeu com grandes exibições; os sub-19 femininos foram ao Mundial com grandes prestações também e tudo isto com treinadores portugueses. Agora temos que pensar como podemos chegar mais longe mais vezes e não episodicamente. Nessa esfera de objetivos, gostaria de apoiar o basquetebol masculino e feminino na variante 3x3 para ganhar pontos e chegar aos Jogos Olímpicos. Quem gosta de basquetebol e de desporto, quer ver a bandeira portuguesa em destaque e ter o basquetebol português nos Jogos Olímpicos é naturalmente um sonho, uma visão mas há o objetivo de chegar lá.
E o basket sempre teve um cariz pioneiro em Portugal.
Sem dúvida. É preciso não esquecer que outras modalidades aprenderam muito com o basquete, onde vieram buscar dirigentes e perceber como se fazia uma escola nacional de treinadores e como se criava uma liga profissional. As outras modalidades vinham ao basquete em busca de conhecimento, de um caminho e de uma visão.
A requalificação das instalações também é fundamental.
É desejável que haja uma requalificação das instalações existentes e o papel das federações é fazer lobby e pressionar para que isso aconteça. Mas é preciso e desejável que haja uma séria transformação dos espaços desportivos numa outra lógica porque temos os mesmos espaços para toda a gente às mesmas horas. Temos muitas vezes escalões mais novos a treinar até às 22h00 e às vezes até mais tarde. Se calhar temos que repensar os horários escolares para que sejam mais brandos e para que o desporto escolar tenha mais espaço e incrementar e influenciar a prática desportiva desde mais cedo, libertando horas. É inequívoco que há que requalificar os pavilhões e temos que melhorar muito ao nível do que são os recursos humanos. Qualificar, seja em que sentido for, significa melhorar o produto.
Como é que se qualifica o produto basquetebol?
Independentemente da capacidade dos clubes para gerar receitas e fazer investimentos, é preciso ter o software para meter lá dentro. Temos que qualificar o nosso produto, qualificar as modalidades para lá chegar. E nem sequer é uma questão financeira porque não é preciso dinheiro para ter visão, para ser eficiente, para ter ambição. Há muitas coisas que não dependem do dinheiro. O dinheiro serve como recurso para aportar mais recursos ao produto, mas antes é preciso ter visão, perceber para onde vamos, quais as prioridades e fazer chegar mais recursos a quem trabalha mais. São os clubes quem mais trabalha, são o coração do nosso basquetebol. As associações são a máquina perto dos clubes que fazem funcionar esse coração e portanto, os recursos que vêm das receitas da federação, independentemente de serem 10, 15... o que for, esse dinheiro tem que chegar onde é prioritário. Temos que inverter aquilo que é canalização do nosso esforço financeiro para qualificar o produto desde cedo, de maneira a que tenhamos um melhor produto. Se o fizermos desde cedo, mais tarde vamos ter o reforço de ter um produto tão qualificado que quando chegarmos à avaliação desse produto, temos um valor para esse produto e um mercado que lhe está associado. A dispersão associada às transmissões dos jogos de basquetebol, seja no site da FPB ou no YouTube, é ótima mas no que diz respeito ao passo mais à frente, que passa pela criação de um produto desejado e não um produto tão diversificado e tão banalizado que acaba por captar tão pouca atenção, temos que ter estratégia de qualificação. Portanto, as prioridades do ponto de vista do investimento financeiro: investir mais em baixo e proporcionar condições para que os clubes possam ser o coração do basquetebol em Portugal, apoiar as seleções para que haja uma consistência. Só qualificando o produto é que vamos chegar a esse caminho.
E há também a importância na criação de ídolos. Há aqui um caminho para fazer?
Sem dúvida. Em tudo o que aprendi na NBA, esse foco é importantíssimo. A NBA mantém os ídolos vivos: aqueles que jogam com aqueles que já jogaram e passaram a treinadores e até os que já não jogam há muitos anos. Todo este universo faz parte do cartel deste produto de qualidade para manter a comunidade viva e junta. Temos que ter essa capacidade de não deixar ninguém de fora: olhar para todos os elementos em torno do basquetebol e dar-lhes importância. Ninguém fica de fora. Essa continuidade de manter em jogo quem foi importante é algo que normalmente não acontece. Os atletas deixam de jogar ou de treinar e parece que passam a ser uns estranhos nos nossos pavilhões. E isso não pode acontecer porque os nossos pavilhões são a nossa casa e é na nossa casa que queremos estar com os amigos, a ver os filhos dos amigos a jogar. O contacto e a amizade é o que alimenta a nossa comunidade. A federação não pode trabalhar top-down, tem de o fazer bottom-up, ou seja, de baixo para cima, ouvindo ativamente toda a gente, interpretar aquilo que são os desejos da comunidade porque o basquetebol não é da federação mas sim de quem joga, de quem treina, de quem apita e de quem acompanha, é da comunidade. Essas pessoas têm que ter voz para contribuir para o sucesso do basquetebol.