O fracasso das negociações comerciais entre os Estados Unidos e o Canadá resultou na imposição imediata de tarifas norte-americanas de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares em produtos canadianos. O colapso do diálogo gerou uma severa crise diplomática, com o governo do Canadá a declarar que os dois países estão formalmente em guerra comercial. Recorde-se que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por diversas vezes tem referido o Canadá como o 51º Estado norte-americano – talvez a Gronelândia fosse o 52º - mas ainda não se lembrou de ameaçar o país com uma invasão armada, como tem feito com outros Estados (o Panamá foi o último e levar com a ameaça).
O governo de Donald Trump acusou o Canadá de tentar beneficiar do mercado norte-americano de forma abusiva e de lançar uma campanha de retaliações – o que é, neste particular, verdade: quando Trump ameaçou impor as novas tarifas, os canadianos organizaram um movimento espontâneo de boicote à compra de produtos importados dos Estados Unidos. Washington alega que o Canadá rejeitou propostas que reduziriam as barreiras alfandegárias de forma mútua.
O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, abandonou as conversações presenciais em Washington por considerar as exigências norte-americanas injustas, prejudiciais à economia nacional e até uma "ameaça à cultura do Quebec". O primeiro-ministro afirmou que algumas exigências representam ameaças à língua francesa e à cultura do Quebec. Carney indicou que temas como os subsídios à produção cultural francófona, a presença dos meios de comunicação em francês nas plataformas digitais e a obrigatoriedade da rotulagem bilíngue dos produtos vendidos no Canadá estavam em discussão. Para Carney, as exigências norte-americanas representariam uma ameaça à identidade cultural e linguística da província francófona.
A legislação canadiana obriga as rádios, canais de televisão e plataformas digitais a usar língua francesa no Quebeq, mas Washington pressionou para eliminar estas barreiras, de forma a garantir que as grandes multinacionais norte-americanas de tecnologia e distribuição audiovisual pudessem operar na província sem restrições linguísticas.
O Canadá anunciou que vai suspender as negociações e aplicar tarifas retaliatórias "dólar por dólar" a partir de 8 de setembro. Estas medidas vão atingir o aço, produtos lácteos, eletrónica, eletrodomésticos, papel e celulose importados dos Estados Unidos.
O desentendimento marca uma nova deterioração nas relações entre os dois países e afeta diretamente produtos normalmente protegidos pelo acordo de livre comércio firmado entre Estados Unidos, Canadá e México. "A América mudou e não podemos controlar a tempestade que vem de Washington", declarou Mark Carney.
Onde anda o pacto trilateral?
O pacto trilateral USMCA (USA, México, Canadá, conhecido como T-MEC) continua em vigor, mas o governo de Donald Trump recusou-se a renovar o acordo na sua forma atual. Em vez de estender o tratado por mais seis anos, Washington optou por impor revisões anuais obrigatórias para forçar concessões.
As negociações diretas entre Washington e Otava estão agora oficialmente suspensas. O Canadá tem tentado coordenar posições com o México para defender a importância de um mercado regional integrado, mas enfrenta o isolamento imposto por Washington.
Do outro lado, as conversações entre os Estados Unidos e o México continuam ativas através de rondas de negociação bilaterais. O governo mexicano, liderado pela presidente Claudia Sheinbaum, optou por uma postura pragmática de diálogo direto com a equipa do representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.
Ao contrário do que seria de esperar, os Estados Unidos nunca quiseram avançar com o figurino das negociações tripartidas, preferindo negociar isoladamente com nada um dos parceiros. Os resultados não são animadores. Ou então são: talvez Washington esteja confortável com o provável fim do T MEC.
A estratégia declarada da Casa Branca é abandonar o formato trilateral unificado. O governo de Donald Trump prefere assinar dois acordos bilaterais independentes (um EUA-México e outro EUA-Canadá) com validade de 10 anos.
Durante o seu primeiro mandato presidencial, mais precisamente em maio de 2018, Trump aplicou tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio do Canadá, utilizando o argumento jurídico de que as importações ameaçavam a "segurança nacional" dos Estados Unidos. Na altura, Otava retaliou com taxas sobre o uísque e o papel norte-americanos. Essas tarifas só foram levantadas quando os países assinaram o acordo T-MEC, que substituía o anterior acordo NAFTA. O T-MEC foi assinado a 30 de novembro de 2018 por Trump, Enrique Peña Nieto (México) e pelo primeiro-ministro Justin Trudeau (Canadá), durante a cimeira do G20 em Buenos Aires.
Logo no início do ano de 2025, a administração Trump impôs tarifas de 25% sobre o aço e alumínio canadianos e mexicanos. Em março do mesmo ano, após o Canadá ameaçar com retaliações, Trump chegou a anunciar que duplicaria essas taxas para 50%, gerando uma forte crise no setor da eletricidade transfronteiriça antes de um recuo parcial. Em agosto de 2025, a Casa Branca elevou as tarifas de importação de 25% para 35% sobre uma vasta gama de mercadorias canadianas. O alvo principal foi o setor da madeira processada (um negócio de 10 mil milhões de dólares), além de aço laminado, alumínio refinado, leite e componentes automóveis.