Portugal tem em África uma oportunidade única. Conhece os mercados, tem proximidade cultural e linguística, experiência empresarial e uma diáspora ativa. A questão deixou de ser saber se África tem potencial, porque tem. A questão é saber se Portugal tem uma estratégia para aproveitar esta oportunidade com investimento, exportações, financiamento e presença duradoura.
Em entrevista ao Jornal Económico, António Calçada de Sá, presidente da direção do Conselho da Diáspora Portuguesa e anfitrião do EurAfrican Forum, que se realiza esta quarta-feira e quinta, na NovaSBE, diz que "Portugal parte com vantagens muito relevantes" nesta corrida. Agora, tem de saber aproveitar. Como? Reforçando a diplomacia económica e criando condições para que as empresas portuguesas possam internacionalizar-se com maior apoio institucional.
As economias africanas estão a crescer mais do que as ocidentais. Isso quer dizer que África está a conquistar uma maior fatia do investimento?
Sem dúvida que África está a ganhar relevância no mapa global do investimento. Organizações como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento e o Banco Africano de Desenvolvimento identificam o continente como uma das regiões com maior potencial de crescimento económico e de atração de investimento privado nas próximas décadas.
O espetacular crescimento demográfico, os jovens africanos, a rápida urbanização, a implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana, que une 1300 milhões de pessoas de 55 países, podem fazer , sem dúvida, deste Continente um milagre e ao mesmo tempo uma realidade de crescimento e de prosperidade. Setores como a energia, as infraestruturas, a agricultura, a economia digital e a indústria apoiada nas novas cadeias de abastecimento dão-nos uma perspectiva do enorme potencial de África.
No entanto, mais importante do que o volume de investimento é a sua qualidade. O que fará a diferença será a capacidade de mobilizar investimento de longo prazo, orientado para a industrialização, a criação de emprego qualificado, a transferência de conhecimento e o fortalecimento das economias locais. É precisamente esse o debate que o EurAfrican Forum 2026 procura promover: como construir parcerias que criem valor para ambas as partes.
O que tem para oferecer além de combustíveis e metais críticos?
Reduzir África aos seus recursos naturais é uma visão cada vez mais ultrapassada. O continente africano é hoje um dos maiores mercados de crescimento do mundo, com uma população jovem, empreendedora e altamente recetiva à inovação.
Existem oportunidades muito relevantes na agricultura e agroindústria, nas energias renováveis, na economia digital, nas infraestruturas, na logística, na saúde, na educação, nos serviços financeiros e no turismo, setores identificados por organizações como o Banco Africano de Desenvolvimento, o Banco Mundial e a Agência Internacional da Energia como fundamentais para a transformação económica do continente.
Em vários destes domínios, África tem vindo a desenvolver soluções inovadoras adaptadas às suas realidades, com potencial de aplicação noutras geografias. Um dos exemplos mais reconhecidos é o mobile money, que revolucionou a inclusão financeira em vários países africanos e inspirou soluções adotadas posteriormente noutras regiões do mundo.
Para que setores devem os investidores olhar?
Os setores ligados à energia, infraestruturas, logística, agricultura, tecnologia, transformação agroalimentar, saúde e indústria transformadora deverão continuar entre os mais dinâmicos nos próximos anos. Tudo isto sem esquecer a enorme aposta a ser feita na educação de base, na formação profissional, no ensino universitário e na transferência de conhecimento.
Mas diria que os investidores devem olhar sobretudo para cadeias de valor completas e não apenas para projetos isolados. O verdadeiro potencial está na capacidade de desenvolver ecossistemas económicos, combinando investimento, financiamento, formação, inovação e desenvolvimento industrial.
Hoje, investir em África significa participar na construção de mercados de futuro e não apenas responder às necessidades do presente.
Como é que a geopolítica alterou a importância relativa de África?
Alterou profundamente. A reorganização das cadeias globais de produção, a transição energética, a necessidade de garantir maior segurança alimentar e energética e a crescente competição entre grandes blocos económicos colocaram África numa posição muito mais central do que há uma década. E quando falamos de um continente com uma população tão jovem é natural pensarmos que o futuro vai estar naquela geografia – a dinâmica, a energia e a vontade de querer fazer vão ser determinantes.
O continente deixou de ser visto apenas como um destino de ajuda ao desenvolvimento para passar a ser reconhecido como um parceiro estratégico para o crescimento global. Essa mudança obriga também a uma nova forma de relacionamento, baseada no respeito mútuo, na previsibilidade e em benefícios partilhados.
A Europa tem perdido posição (como se vê na África francófona) nos últimos anos. Vê um esforço para a recuperar?
A presença de novos atores internacionais tornou o contexto muito mais competitivo. Hoje encontramos um envolvimento crescente de países como a China, a Índia, a Turquia, os países do Golfo como Emirados Árabes Unidos ou a Arábia Saudita, que têm vindo a reforçar significativamente a sua presença económica no continente.
A Europa continua a ser um parceiro fundamental, mas terá de adaptar a sua abordagem. Mais do que olhar para África numa lógica de cooperação tradicional, importa construir verdadeiras parcerias económicas, assentes em investimento, inovação, capacitação e criação de valor local. Existe essa consciência crescente nas instituições europeias e em muitas empresas, mas a rapidez da implementação será determinante.
Portugal está a aproveitar esta oportunidade?
Portugal parte com vantagens muito relevantes. Tem uma relação histórica com vários países africanos, uma proximidade cultural e linguística única em muitos mercados, uma diáspora empresarial muito ativa e empresas com experiência consolidada em setores estratégicos.
Claro que existe margem para reforçar essa presença. O contexto internacional está a mudar rapidamente e exige maior capacidade de mobilização entre empresas, instituições financeiras, universidades e Estado. Portugal pode afirmar-se como plataforma de ligação entre a Europa e África, mas isso exige uma estratégia consistente, continuidade e visão de longo prazo.
O que deveria fazer mais?
Creio que existem quatro prioridades fundamentais: em primeiro lugar, reforçar a diplomacia económica, e criar condições para que as empresas portuguesas possam internacionalizar-se com maior apoio institucional. Em segundo, aumentar os instrumentos de financiamento disponíveis para projetos em mercados africanos, para reduzir o risco associado ao investimento. Por outro lado, apostar claramente na formação de talento e na inovação conjunta, através de parcerias entre universidades, centros de investigação e empresas. E, finalmente, continuar a investir em plataformas de diálogo como o EurAfrican Forum, que aproximam decisores políticos, investidores, empresários e sociedade civil.
A confiança continua a ser um dos principais fatores para transformar oportunidades em projetos concretos, e é precisamente essa confiança que permitirá construir uma relação mais sólida e mais ambiciosa entre Europa e África.