O crescimento do emprego em Portugal nas últimas décadas não tem sido acompanhado por um aumento da produtividade, um sintoma claro de uma economia que aposta sobretudo em setores com baixo valor acrescentado e uma barreira à melhoria dos salários no país, aponta a Business Roundtable Portugal (BRP). O panorama é ainda mais preocupante se colocado em termos comparativos no contexto europeu, em que se verifica que a produtividade nacional não só não convergiu com a média do bloco desde o início do século, como tem vindo a ser ultrapassada por vários países.
O estudo ‘Crescer sem convergir’, apresentado esta terça-feira, 22 de setembro, debruça-se sobre a questão da produtividade em Portugal, concluindo que o crescimento do emprego se tem concentrado em ramos de atividade com baixo valor acrescentado e que, portanto, dificilmente conseguirão gerar o ímpeto necessário para dinamizar a economia e não permitem grande evolução salarial.
Desde 2000, dois dos setores que viram maior crescimento do emprego foram o dos serviços empresariais e o do alojamento e restauração, ambos com valor acrescentado bruto (VAB) abaixo da média nacional. Tal contribuiu para a redução da produtividade média do trabalho por cada hora no mesmo período, isto tomando uma comparação em paridade de poder de compra e como base a média europeia: de 67,6% no início do século, a economia nacional passou para 66,9% em 2025.
“Em termos relativos, a posição de Portugal no ranking da produtividade por hora trabalhada deteriorou-se marcadamente desde 2000, caindo da 17.ª para a 24.ª posição entre os 27 Estados-membros da União Europeia”, detalha o documento, ilustrando a perda de competitividade no contexto do bloco europeu. De destacar as evoluções face a Estónia, Polónia, Chéquia e Hungria, que ultrapassaram Portugal neste período.
A evolução portuguesa fica assim a par da espanhola, por exemplo, mas Espanha regista 96% da média europeia em termos de produtividade do trabalho – ou seja, encontra-se numa posição relativa muito mais vantajosa do que a portuguesa.
A isto agrava-se a revisão de vários indicadores per capita da economia nacional na sequência da atualização em alta da população, que certamente pintará um retrato ainda mais penalizador da produtividade nacional.
Para a BRP, há diversos fatores a contribuírem para esta dinâmica. À cabeça, a erosão de capital continua a ser um dos mais evidentes, com os gastos públicos a continuarem bastante abaixo do necessário e o investimento privado condicionado por elevados custos de contexto, pouca escala das empresas e fiscalidade complexa e excessiva.
Por outro lado, os movimentos migratórios têm dado um impulso ao emprego, mas pouco à produtividade. As entradas concentram-se sobretudo em setores de baixo VAB, o que dificulta a geração de emprego qualificado e a retenção de talento, ao passo que continuam a sair muitos jovens com elevadas capacidades.
“O desafio não é apenas atrair trabalhadores; é criar condições para que os jovens portugueses qualificados queiram ficar, regressar e construir carreiras de maior valor em Portugal”, resume o documento.
Assim, a aposta em segmentos mais produtivos e inovadores é uma das vias sugeridas não só para melhorar a competitividade do país, mas também para aumentar salários e ajudar a reverter a compressão salarial a que se tem assistido nos últimos anos em Portugal, dados os aumentos decretados por lei do salário mínimo não acompanhados em níveis remuneratórios mais altos.
A juntar a isto, a questão da burocracia excessiva, os atrasos no pagamento do Estado a fornecedores e a dependência energética são outros pontos que, na visão da BRP, contribuem para a perda de produtividade na comparação com a média europeia, pelo que devem ser prioridades governativas.