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BCE: Mercado antecipa reunião sem mexidas, mas já de olho em setembro

Investidores e analistas acreditam que os juros não se alterarão na reunião de julho, mas setembro poderá trazer nova subida, sobretudo caso o conflito no Médio Oriente se prolongar e a volatilidade nos mercados energéticos não acalmar.

Uma reunião que parecia há semanas alinhar-se para não passar de uma formalidade arrisca agora tornar-se num aceso debate entre os ‘falcões’ e as ‘pombas’ do Banco Central Europeu (BCE), com a guerra no Médio Oriente a continuar a pesar na economia da zona euro e a ameaçar materializar o cenário adverso incluído nas mais recentes projeções macro do regulador. A visão dominante é que julho não deverá ter alterações nos juros, mas a porta para uma subida vai abrindo e, caso não surja já esta quinta-feira, deverá acontecer após o verão.

Após a decisão de subir juros em junho, o memorando de entendimento entre norte-americanos e iranianos parecia conferir alguma estabilidade aos mercados globais de energia, pelo que os analistas antecipavam com elevada certeza uma reunião sem grandes novidades. Entretanto, o renovar das hostilidades voltou a atirar a cotação do barril de petróleo para níveis acima dos 80 dólares (70,121 euros), pressionando os preços na zona euro e criando constrangimentos para a atividade.

Apesar do reacender das tensões, este valor é ainda compatível com o cenário base publicado pelo banco em março, que aponta a uma média de 97 dólares (85 euros) por barril no terceiro trimestre.

Perante este panorama, a maioria dos analistas e investidores continua a projetar que o BCE mantenha os juros inalterados, estando atualmente a atribuir um grau de probabilidade a esta hipótese próximo de 95%. Ainda assim, “o manancial de notícias geopolíticas e do mercado energético desde então [reunião de junho] significa que uma subida surpresa não pode ser descartada”, argumentam os analistas do ING.

Os juros diretores na zona euro estão atualmente em 2,25%, depois da subida de 25 pontos base (pb) em junho.

Uma subida de juros em setembro mantém-se como o cenário mais provável, continuam, sobretudo caso o conflito entre norte-americanos e iranianos se prolongue até lá. Esta possibilidade está a ser incorporada nas taxas pelo mercado e, caso o BCE opte por aumentar já taxas, “isso seria visto maioritariamente como uma antecipação da subida de setembro” e, portanto, afetando as taxas mais longas de mercado.

Assim, o BCE vê-se “numa nova dor de cabeça” e um “pesadelo”, dado que o bloco euro é “agudamente exposto à inflação via petróleo importado”, escrevem os analistas da Ebury. Como tal, “não terá grande escolha senão pausar e esperar por mais clareza”.

Contudo, é expectável que a presidente Christine Lagarde “vista as suas penas de falcão” na conferência de imprensa, seja via confirmando uma subida em setembro, seja ao abrir a porta a mais subidas para lá dessa data. Por outro lado, a análise da Ebury considera a atual precificação de mercado “excessivamente agressiva”, reconhecendo não terem “sequer a certeza de que a subida de junho foi justificada”.

“O crescimento é fraco, as pressões salariais estão a abrandar, as expectativas de inflação de longo prazo estão bem ancoradas e não há sinais de efeitos de segunda ordem. Na nossa visão, o BCE arrisca agravar um erro de política ao apertar durante o que é, na sua génese, um choque energético do lado da oferta e não um uma genuína inflação motivada pela procura”, escrevem.

“Globalmente, esperamos que o BCE transmita a mensagem de que se mantém atento a possíveis novos riscos de inflação e que, num ambiente geopolítico altamente incerto, a manutenção da flexibilidade da política monetária continua a ser a linha de ação preferida do Conselho de Governadores”, resume Michael Krautzberger, diretor de Investimento Global de Mercados Públicos da AllianzGI.