O cessar-fogo de duas semanas decretado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, face à investida militar contra o Irão iniciada a 28 de fevereiro não desatou o nó-górdio que constitui o Estreito de Ormuz para os navios de transporte que querem usar a travessia: os armadores não têm qualquer certeza sobre o grau de confiança com que podem avançar para o Estreito – e por isso mantêm-se defensivamente à espera. Haverá pelo menos 800 navios estacionados ao longo do Golfo Pérsico, dos quais 187 são petroleiros carregados com 172 milhões de barris de petróleo bruto e produtos refinados, que não arriscam sair para as águas livres do oceano. Os armadores afirmam que precisavam de ver clarificados os termos do cessar-fogo – ou seja, se o cessar-fogo, que não tem validade para o Líbano nem para os ataques iranianos a países do Golfo, implica que os navios não vão ser atacados quando estiverem no Estreito. Dito de outra forma: a escassez de combustíveis não é, para já, uma consequência direta da decisão da Casa Branca.
Donald Trump afirmou que o cessar-fogo significava uma “abertura completa, imediata e segura” do Estreito de Ormuz, mas rapidamente se verificou que o facilitismo podia ser um desastre com efeitos incalculáveis. É que, do seu lado, o Irão afirmou que ofereceria passagem segura em coordenação com as suas forças armadas e a guarda costeira alertou esta quarta-feira para que qualquer navio que tentasse navegar sem permissão seria "um alvo e destruído". Pelo menos um navio já conseguiu essa permissão, segundo informou a TV estatal iraniana – mas a sua identidade não foi revelada. Mais tarde dados da MarineTraffic, que rastreia navios em viagem, indicavam que dois navios graneleiros de propriedade grega e um de propriedade chinesa tinham passando no Estreito sem serem incomodados. O mesmo sucedeu entretanto com um navio da Libéria. Navios da Índia e do Iraque também têm passado o estrangulamento do Golfo sem incidentes.
A dinamarquesa Maersk, uma das maiores operadoras do mundo, disse que o cessar-fogo pode criar oportunidades de trânsito para as embarcações, mas ainda não oferece total certeza. A transportadora alemã Hapag-Lloyd disse por seu lado que precisa de garantias de que o cessar-fogo é para cumprir antes de recomeçar a navegar no Estreito. Lars Barstad, CEO do grupo de petroleiros Frontline disse que a empresa ainda está a avaliar o que o cessar-fogo significava para o transporte marítimo. "Quero ver as letras miúdas", disse. O diretor de Segurança e Proteção da Bimco, Jakob Larsen, alertou que embarcações que saíssem do Golfo sem coordenação prévia com as autoridades dos EUA e do Irã enfrentariam riscos acrescidos. Todas as declarações foram citadas pela agência Reuters.
Tréguas ou semi-tréguas?
Ao longo desta quarta-feira, ficou a perceber-se que o cessar-fogo está muito longe de ser total. O alívio com a trégua deu lugar ao alarme de que os combates continuam em toda a região, com Israel a lançar os maiores ataques até o momento contra o Líbano e o Irão atingindo instalações petrolíferas de países vizinhos do Golfo. Mesmo assim, o temor de que Israel não se visse obrigado a cumprir o cessar-fogo decretado pelos Estados Unidos, considerando-o unilateral e por isso continuando a atacar o Irão, não se confirmou. Já na tarde de quarta-feira, Trump veio confirmar que o Líbano é "uma trapalhada à parte", que também será solucionada, mas que não faz parte do acordo de cessar-fogo firmado na terça-feira.
Israel intensificou a guerra ‘paralela’ no Líbano, lançando pesados ataques sobre Beirute, a capital, com o ministro da Saúde libanês a avançar que dezenas de pessoas morreram e centenas ficaram feridas ao longo do dia. Alguns dos ataques israelitas ocorreram sem os avisos habituais para que os civis evacuassem as áreas a atingir. O Irão ameaçou que, se os ataques ao Líbano não parassem, retirará do cessar-fogo acordado com os Estados Unidos.
Por outro lado, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein relataram novos ataques iranianos com mísseis e drones, vários dos quais tiveram como alvo infraestruturas vitais de petróleo, energia e dessalinização. O Irão também atacou o enorme oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita, que liga o país ao Mar Vermelho em alternativa ao Golfo Pérsico, poucas horas depois do acordo de cessar-fogo.
Reações gerais de alívio
Entretanto, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, disse ter convidado delegações iranianas e norte-americanas para reunirem em Islamabad na próxima sexta-feira, e que o presidente do Irão confirmou a presença de uma delegação do seu país, que se espera seja composta pelo presidente do parlamento e ex-comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Baqer Qalibaf , e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi.
Trump disse ao ‘New York Post’ que conversas presenciais aconteceriam em breve, mas afirmou que o seu vice-presidente, JD Vance, encarregado da mediação, poderia não comparecer devido a preocupações com a sua segurança – contradizendo notícias de que seria ele a lideraria a delegação norte-americana.
Trump anunciou, por outro lado, novas tarifas de 50% sobre todos os produtos de qualquer país que forneça armas ao Irão.
As reações em todo o mundo foram genericamente de alívio face à enormidade das ameaças de Trump de “fazer desaparecer possivelmente para sempre” a civilização persa.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, saudou o cessar-fogo, por implicar a "necessária redução das tensões". "Congratulo-me com o cessar-fogo de duas semanas acordado terça-feira à noite entre os Estados Unidos e o Irão. Traz uma tão necessária redução das tensões", afirmou nas redes sociai. Agradecendo ao Paquistão pela sua mediação, a líder do executivo comunitário disse ser "fundamental que as negociações para uma solução duradoura para este conflito continuem". "Continuaremos a coordenar-nos com os nossos parceiros para esse fim", concluiu Ursula von der Leyen.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, considerou que o cessar-fogo "representa um recuo à beira do abismo" e "cria oportunidades". "O acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão representa um recuo à beira do abismo, após semanas de escalada", disse nas mesmas plataformas. A Alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança salientou que o cessar-fogo "cria uma oportunidade muito necessária para reduzir as ameaças, parar os mísseis, retomar a navegação marítima e abrir espaço para a diplomacia rumo a um acordo duradouro", vincando que o Estreito de Ormuz, atualmente bloqueado e crucial para o comércio mundial de petróleo, "deve voltar a estar aberto". Agradecendo ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, Ishaq Dar, pela sua mediação por este acordo inicial, Kaja Kallas defendeu que "a porta para a mediação deve permanecer aberta, uma vez que as causas profundas da guerra continuam por resolver". "A União Europeia está pronta para apoiar esses esforços e mantém contacto com os parceiros da região", adiantou a responsável, dando conta de que iria debater o assunto numa deslocação à Arábia Saudita.
Também o presidente do Conselho Europeu, António Costa, saudou o cessar-fogo, pedindo que seja respeitado com vista a uma "paz sustentável" na região. "Acolho com satisfação o anúncio, por parte dos Estados Unidos e do Irão, de um cessar-fogo de duas semanas. Exorto todas as partes a respeitarem os seus termos, a fim de alcançar uma paz sustentável na região", escreveu António Costa. O antigo primeiro-ministro português afirmou que a União Europeia "está pronta para apoiar os esforços em curso e mantém-se em contacto próximo com os seus parceiros na região".
O governo português saudou o acordo: o Ministério dos Negócios Estrangeiros considera que o cessar-fogo é "um primeiro passo determinante" para "uma solução diplomática duradoura e sustentável do conflito". "Portugal apoiou e apoia com todo o empenho este caminho diplomático, como deixou claro nos contactos dos dois últimos dias com os ministros dos Negócios Estrangeiros do Paquistão e do Egito".
Já António Guetrres, secretário-geral da ONU, disse: “exorto todas as partes envolvidas no atual conflito no Médio Oriente a cumprirem as suas obrigações perante o direito internacional. Ambos os países precisam de respeitar os termos do cessar-fogo, a fim de preparar o caminho para uma paz duradoura e abrangente na região”.