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António Nogueira Leite: Fundo ambicioso “criaria sistema de compadrio ainda pior do que temos”

O antigo secretário de Estado do Tesouro e das Finanças entende que não há margem orçamental nos próximos anos para grandes ambições na entrada de empresas. Mas, se servir para isso, o economista teme que os empresários se encostem ainda mais ao Estado.

Já foi muito crítico em relação a este fundo soberano. O Governo arrisca em demasia?
Sim, mas, entretanto, o Governo foi dando mais algumas informações e eu percebi que a intenção é mais um parqueamento das posições existentes. Não é para investir em novas entidades. Pelo menos foi o que me disseram, mas está por confirmar.

O Governo quer ser menos ambicioso do que parecia?
Parece-me que têm uma ambição muito mais modesta do que inicialmente parecia. Mas eu não tenho provas. O que me têm dito é que se trata de gerir as participações que o Estado tem. Um exemplo que me deram foi o da Galp, onde o Estado, de facto, tem uma posição que, sendo minoritária, tem alguma expressão e algum valor, e onde, neste momento, se põem questões relevantes, nomeadamente quanto à fusão em curso com a espanhola Moeve. Porque há o tema da refinaria que, aparentemente, preocupa o Governo. Agora, se o instrumento existir, é muito difícil que, estatutariamente, se imponha que eu não possa investir em mais nenhuma empresa. O mesmo governante ou outros no futuro poderão fazer coisas que estejam em linha com o que critiquei.

Mas se se confirmar a lógica de um fundo mais ambicioso, quão problemático é?
É, de alguma forma, retroceder na filosofia que os sucessivos governos, da direita e da esquerda, seguiram desde 1989. E, em geral, num país em que o empresariado é extremamente dependente do Estado e extremamente conservador — no sentido de manter as coisas como estão — acaba por fazer com que os empresários se aproximem ainda mais do Estado, porque o Estado depois vai escolher sócios. Não acho nada que seja uma boa ideia.

Seria preferível usar o dinheiro para reduzir impostos, fazer reformas estruturais ou reduzir a própria dívida?
Acho que sim. Criaria um sistema de compadrio ainda pior do que já temos. Hoje, não há praticamente vozes empresariais. As pessoas deixaram de falar. Ninguém quer chatear os governos. Os governos têm imenso poder num licenciamento, numa nova regra, numa nomeação especial para um regulador, etc, e as pessoas têm receio. Mas, mais do que isso, quando o Governo começa a escolher vencedores… já vimos o que aconteceu aos campeões nacionais da década de 2000.

Mas, mesmo que seja menos ambicioso, há sempre o risco de um futuro governo querer mais...
Claro, está ali um instrumento. Mas acho que as condições para que isso aconteça nos próximos anos vão ser reduzidas em função
das dificuldades orçamentais.