O mercado obrigacionista tem vivido um período de tensões elevadas, com as yields soberanas de diversas economias ocidentais a quebrarem máximos de vários anos e em múltiplas maturidades, dados os conflitos geopolíticos e comerciais, a persistência da inflação e as posições orçamentais pouco sustentáveis de inúmeros governos. Ainda assim, no caso da Zona Euro, os analistas veem margem nos orçamentos nacionais para acomodar possíveis subidas com custos de financiamento, sendo uma crise da dívida um risco ainda marginal.
Esta semana viu a continuação da escalada dos juros soberanos desde o Japão até aos EUA, incluindo a Europa, isto antes de sexta-feira trazer alguma calma à situação. Para Portugal, o cenário foi, contudo, ligeiramente distinto: os títulos a 10 anos quebraram a barreira dos 4% pela primeira vez em quase uma década na quinta-feira, mantendo-se nesse nível no arranque da última sessão da semana, antes de aliviarem um pouco.
Na mesma linha, os títulos japoneses a 10 anos continuaram a subir na sessão de sexta-feira e chegaram a 3,1%, novo máximo de 30 anos à boleia de uma recalibração das expectativas dos investidores quanto à persistência da inflação e às taxas de juro, que deverão ficar mais altas por mais tempo do que se estimava há meio ano.
Do outro lado do Atlântico, os EUA viram novo máximo nos títulos do Tesouro a 10 anos com 5,19%, fixando novo máximo desde 2007. Nas maturidades a 30 anos, a yield chegou a 5,48%, um pico não visto desde 2004 à medida que o país se debate com preços recorde dos combustíveis, nomeadamente o gasóleo, que já quebrou os 6,50 dólares (5,70 euros) por galão – equivalente a cerca de 1,50 euros por litro.
Também a taxa média das hipotecas a 30 anos, um indicador chave da saúde do mercado imobiliário norte-americano, chegou a 7% esta semana, o valor mais alto desde que Trump regressou à Casa Branca e representando uma subida de praticamente 1 ponto percentual (pp) desde que EUA e Israel decidiram atacar o Irão.
Na Europa, os títulos alemães a 10 anos recuaram ligeiramente na sexta-feira depois de chegarem a 3,6% no dia anterior, enquanto os franceses quebraram 4,7% antes de também acalmarem durante a última sessão da semana. O spread entre ambos os títulos, normalmente tomado como um dos indicadores mais relevantes na perceção de risco dos mercados à economia francesa, chegou a máximos de 2012, em plena crise da zona euro, enquanto os investidores vão avaliando a situação orçamental e política francesa, que tem eleições presidenciais para o ano.
Europa está protegida
Perante este cenário, a Oxford Economics reconhece que a subida nas yields coloca pressão sobre orçamentos já bastante esticados dos países europeus, mas não antecipa situações limite que coloquem em causa a sustentabilidade das contas públicas.
Em primeiro lugar, o think-tank destaca que os credit default swaps (CDS) dos Estados-membros da Zona Euro não têm estado a subir – pelo contrário, no caso alemão, por exemplo, este indicador está em mínimos fixados na grande crise financeira, tal como para Espanha. Itália fica ligeiramente acima, mas ainda numa posição confortável, enquanto França, apesar de ter visto um incremento nos últimos meses, mantém-se em níveis historicamente baixos.
Isto é visto como um sinal de que os mercados não estão a ajustar taxas face a receios de incumprimento, mas sim num movimento de recalibração face à expectativa de taxas de juro diretoras mais altas – um cenário coerente com uma inflação mais persistente e duradoura.
Mesmo num cenário adverso, em que as bunds alemãs ficam por um período alargado 50 pontos base (pb) acima da média recente, a nota não antevê uma crise como a de 2010. França verá mais pressão ascendente na dívida e saldos orçamental, enquanto Itália dificilmente conseguirá inverter a tendência de endividamento. Já outros países altamente endividados, nos quais se inclui Portugal, “também são atingidos com força, mas não na mesma magnitude”.
Ainda assim, este cenário levaria a um disparo nos custos de financiamento que colocaria a fatura do serviço da dívida em cerca de 12% da receita coletiva dos Estados-membros da Zona Euro em 2035.
Do lado privado, a GeneraliAM fala em “bases técnicas fortes, influxos persistentes e balanços saudáveis” que também permitirão ao mercado de crédito continuar a absorver a subida das yields soberanas. “Até o crescimento abrandar significativamente ou as condições de financiamento se deteriorarem mais, o crédito deve continuar a superar as soberanas, oferecendo um perfil de risco-lucro mais atrativo via uma combinação do ‘carry’, fundamentos fortes e dinâmica de mercado favorável”, remata.