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A história de um Picasso que desapareceu sem deixar rasto

Há 65 anos, a Fundação Guggenheim emprestou uma pintura de Picasso à Universidade de Pittsburgh para uma exposição. Desapareceu sem deixar rasto. Em 2023, a instituição soube do seu reaparecimento e exigiu a devolução da obra. Perante a recusa dos atuais proprietários, avança para tribunal.

Haverá quem sonhe em roubar uma obra de arte de um museu. Exercício de estilo e de adrenalina teórico. E há quem trace um plano para o fazer e execute o mesmo na perfeição. Esta prática não é de hoje, embora neste último ano tenha sido notícia recorrente na imprensa, com destaque para o ousado roubo de joias da coroa francesa do Museu do Louvre, em outubro de 2025.
Não vamos aqui deslindar roubos de obras de arte, mas sim revisitar o dia em que um Picasso desapareceu sem deixar rasto. Na manhã de 6 de fevereiro de 1961, um estudante de pós-graduação da Universidade de Pittsburgh, EUA, reportou o desaparecimento da pintura “Femme dans un fauteuil” (1918) do edifício da União de Estudantes. A pintura a óleo tinha sido emprestada pela Fundação Solomon R. Guggenheim para uma exposição no semestre de outono e deveria ser devolvida no final desse mês. A escola reportou o roubo ao Departamento da Polícia de Pittsburgh e o FBI foi chamado a investigar. A imprensa noticiou o caso, uma e outra vez. Foram notificadas diversas instituições norte-americanas e divulgou-se uma recompensa por informações. Nada aconteceu. Silêncio total.
Volvidas seis décadas, mais concretamente em agosto deste ano, o Guggenheim interpôs uma ação judicial no Supremo Tribunal do Estado de Nova Iorque, com vista à recuperação da pintura de Picasso. A Fundação Guggenheim acusou os residentes do estado de Massachusetts Lawrence Jay Handler e Wendy Cohen Handler de reterem ilegalmente a pintura, de desconsiderarem os direitos de propriedade do Museu Guggenheim e de beneficiarem injustamente da posse de bens roubados.
Existem documentos que atestam que o casal Handler comprou, em 1999, “Femme dans un fauteuil” à Beadleston Fine Art, em Manhattan, i.e., quase 40 anos depois de a pintura de Picasso ter desaparecido da Universidade de Pittsburgh. Mas o Guggenheim só teve conhecimento da reaparição da obra em julho de 2023, quando um perito da leiloeira Christie’s – que investigava a obra para uma venda privada – chamou a atenção do museu.
Picasso pintou esta composição abstrata durante a lua de mel com a sua primeira mulher, a bailarina Olga Khokhlova, perto de Biarritz. O Guggenheim adquiriu a obra em 1936 à Gallery Zwemmer, de Londres. Mas não existe informação clara ou fidedigna sobre como terá chegado à galeria Beadleston, na Quinta Avenida, e que entretanto fechou. Estima-se que terá sido ali que o casal adquiriu a obra em questão, mas no processo não consta se os Handler ou a galeria tinham conhecimento, de facto, da origem da obra.
Assim que soube do paradeiro da pintura, o Guggenheim enviou aos proprietários uma carta formal a exigir a sua devolução, em agosto de 2023. Esse pedido foi prontamente recusado, segundo documentos judiciais. O futuro de “Femme dans un fauteuil” ficou em suspenso e aguarda desenvolvimentos algures num local longe dos olhares do público, quiçá num cofre (imaginamos nós) da Christie’s.
A obra enquadra-se no período Cubismo Sintético de Picasso e foi avaliada entre 10.000 e 60.000 dólares em 1961. Hoje em dia deverá valer milhões de dólares. O Guggenheim exige agora 3,5 milhões de dólares (2,99 milhões de euros) em indemnizações compensatórias, excluindo honorários de advogados, e uma decisão do tribunal.
Em 2015, foram necessários apenas 11 minutos para um comprador desembolsar mais de 160 milhões de euros para adquirir a obra “Les Femmes d’Alger” (“Mulheres de Argel”). O quadro foi pintado por Pablo Picasso em 1955 e o preço atingido ao bater do martelo continua a ser o recorde de venda em leilão de uma obra de Picasso, tendo então superado o recorde anterior do tríptico “Três Estudos de Lucian Freud”, de Francis Bacon, que alcançara 142,4 milhões de dólares (128 milhões de euros), em 2013. Atualmente, o recorde absoluto pertence à obra “Salvator Mundi”, de Leonardo da Vinci, vendida, em 2017, por 450,3 milhões de dólares (cerca de 386 milhões de euros).

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