Os bancos assistiram em 2025 a um crescimento relevante da nova produção do crédito à habitação devido à garantia do Estado para o crédito jovem. O crédito habitação jovem com garantia pública (até 100% de financiamento) pode ser pedido até 31 de dezembro de 2026. O Estado devia prolongar esta garantia? Os bancos deviam poder financiar o crédito à habitação a 100%? Foi a esta pergunta que responderam Paulo Macedo, CEO da CGD; Miguel Maya, CEO do BCP; Isabel Guerreiro, CEO do Santander; João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI; Sérgio Frade, CEO do Crédito Agrícola; Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio, no Fórum Banca 2026 organizado pelo Jornal Económico, que decorreu hoje no Hotel Ritz. No painel “Banca: e depois do ano de ouro, como se cresce?”.
"A concorrência é feroz em todos os segmentos da atividade. No crédito à habitação, tem se visto, nos último ano e meio, um crescimento grande na produção do novo crédito à habitação que tem muito a ver com a capacidade de disponibilizar para alguns segmentos de mercado e aqui temos o tema da garantia pública, que ajudou", referiu Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio.
"Os resultados até agora demonstram que a garantia do Estado devia ser prolongada, mas com medidas estruturais, do lado da oferta, também porque o problema do custo da habitação está também do lado da oferta de habitação", defendeu ainda o CEO do Banco Montepio.
O banqueiro também defendeu que é preciso que os licenciamentos demorem menos tempo para resolver o problema da oferta de habitação. Para Pedro Leitão é importante que "a indústria seguradora esteja aberta a assegurar outras formas de construção do que não aquelas que estão habituadas".
"Há uma série de desafios, que são bons. Têm que ser atacados de uma forma estrutural e é importante que haja, também, um quadro específico, estruturado e concreto, com medidas do lado da oferta, que serão, seguramente, medidas que moram tempo a ser implementadas", acrescentou.
Já Paulo Macedo, CEO da CGD, disse que "demos no ano passado 5,8 mil milhões de euros de crédito à habitação, no qual 1,5 mil milhões foi a jovens com garantia pública. Portanto demos cerca de 500 milhões por mês em crédito à habitação".
"A Caixa tem metade do crédito dos jovens com garantia e metade sem garantia", lembrou.
Paulo Macedo disse que "se calhar, a questão é que o preço é muito mais ligado à falta oferta do que propriamente haver um incentivo ou não. Designadamente, os licenciamentos não mudarem e nós não estamos a ver imensos licenciamentos por esse país fora".
"Eu acho que em dois anos, de certeza que vai acontecer alguma coisa agora não vai suprir totalmente esta assimetria entre a oferta e procura de habitação", acrescentou o CEO da CGD.
O presidente da Caixa disse que "a garantia veio oferecer a possibilidade de acesso a casa, mas aliás põe-se a questão se veio aumentar os preços da habitação. Mas o que é certo é que permitiu a um conjunto de jovens comprar casa, e o que nós dizemos é que há falta de habitação".
Por sua vez Miguel Maya, CEO do BCP, lembrou que mesmo que o crédito tenha uma garantia de 80%, não é suficiente para o BCP dar crédito. Há uma regra no crédito que é em primeiro lugar vem o carácter, em segundo lugar vem o cash flow, depois vem o colateral e a seguir é que vem o cumprimento. Portanto se estamos a pensar que com uma garantia a 80% então não há risco, é um erro e é um mau conselho ao cliente. Se vamos a emprestar a quem não tem capacidade de pagar estamos a adiar um problema e a importar um problema para o banco".
"O crédito à habitação jovem não é uma forma de resolver o problema da habitação em Portugal, é uma forma de resolver o problema dos jovens que entram no mercado de trabalho que não têm pais que lhes possam dar dinheiro para uma entrada de 10%", disse quando questionado sobre se era a favor da continuidade do crédito à habitação com garantia, uma vez que esse regime acaba no fim deste ano.
O CEO do BCP defende a continuidade da medida que permite o financiamento a 100%. Voltou a dizer que não há incumprimento até agora nos créditos com garantia do Estado, exceto num caso, que se deve a um divórcio.
No essencial Miguel Maya defende a necessidade de olhar para os problemas de forma abrangente, lembrando que o desemprego em Portugal é 19% jovem.
"No BCP a taxa de aprovação do crédito à habitação anda na ordem dos 90% e quando estamos a falar de crédito ao abrigo da garantia anda na ordem dos 65%", disse o banqueiro.
Já Isabel Guerreiro, CEO do Santander Totta, disse que a taxa de aceitação é de 95% e no crédito à habitação com garantia a rejeição é ligeiramente mais alta mas reconheceu que "a medida funcionou" mas não defende o financiamento a 100% por regra.
"Portugal tem a terceira taxa de juro média mais baixa da Europa no crédito à habitação", reforçou.
O CEO do BPI por sua vez, disse, que "se alguma coisa corre bem, deve continuar. Mas não é a solução de fundo porque a solução passa por construir mais casas. Não é por emprestarmos mais que será resolvido o problema da habitação".
"Proporcionámos que os portugueses tenham casa. Não foram construídas mais casas quando elas deviam ter sido construídas. Não existe o mercado de arrendamento. Não é fácil obter licenças para a construção. Os impostos são pesados. Há muita coisa para fazer", disse João Pedro Oliveira e Costa.
Noutro tema a simplificação regulatória, João Pedro Oliveira e Costa disse que "temos assistido a muita intenção e pouca ação".
"É impossível pensar em simplificação se a Comissão Europeia não reduzir o quadro de pessoal afeto à regulação", disse ironicamente.
"Quem está na regulação acha que o problema é quem legisla e quem legisla acha que o problema é quem regula", disse o CEO do BPI que convida a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu a falarem de forma unívoca sobre simplificação. Vejam a legislação que vai sair, e que está a sair, e que está projetada a sair. Não estou a ouvir nenhuma simplificação, nenhuma", disse João Pedro Oliveira e Costa.
Sobre a concentração europeia também não passa de "um desejo", acrescentou.
Sérgio Frade, CEO do Crédito Agrícola, por sua vez, disse que a "União Bancária enquanto não tivermos uma União do Mercado de Capitais, vai ser muito difícil". O presidente do Grupo CA defende que operações cross-border sem uma União do Mercado de Capitais, vão ser difíceis.
"O mesmo nível de regras para todos os players do setor, seja entre concorrentes do mercado bancário seja de outros que fornecem o mesmo tipo de serviços, já seria uma simplificação gigante", disse ainda, defendendo que sejam identificadas áreas onde a simplificação pode ser possível.
"Dito isto continua haver espaço para os negócios diferenciados a par com players europeus, ou pan-europeus que consigam competir globalmente", referiu Sérgio Frade.
Pedro Leitão CEO do Banco Montepio disse, sobre o tema da concentração, que "a Comissão Europeia deveria de facto de atuar de acordo com aquilo que diz. E na realidade, há várias assimetrias que são conhecidas por essa Europa fora".
"O nível de concentração top 5 bancário na média União Europeia, é 69%. Em Portugal é 80%, mas se formos para França e Alemanha fica abaixo dos 50%, há muito espaço para concentração mas não acho que seja genericamente igual em todos os países da União Europeia", diz.
Pedro Leitão considera ainda um mito a teoria de que não temos bancos com dimensão para competir com EUA e China. "Dentro do top 20 há cinco bancos europeus", lembra. No top 10, os primeiros 4 são os chineses e os europeus aparecem no 7º, 8º e 9º lugar, acrescenta.
"Isto para dizer o quê? Há bancos com escala. Há mercados onde é possível concentrar mais? Claro que há, é preciso passar da conversa à ação", referiu o CEO do Banco Montepio concordando neste ponto com o CEO do BPI.
"Portanto, nessa componente cross-border, ligando isto com a questão dos players digitais, eu diria que a maioria dos bancos europeus não tem outro remédio se não fazer este caminho, não tem remédio se não adotar aquilo que os clientes querem", referiu Pedro Leitão que alertou que "é preciso a mesma regulação para níveis iguais de risco, e isso não acontece com os players digitais".
Miguel Maya concluiu ironizando que neste Fórum "fomos acusados de ser muito prudentes por um lado (crédito a empresas) e pouco prudentes no crédito à habitação com garantia do Estado".
Isto em resposta às declarações do Ministro da Economia, Manuel Castro e Almeida, que, apesar de reconhecer a melhoria da qualidade do balanço da banca, apontou "uma marca negativa" referindo-se ao facto de o valor dos depósitos das empresas na banca ser superior ao valor dos créditos da banca às empresas. "É a primeira vez que acontece nos últimos 45 anos".
O Ministro disse mesmo que "as empresas queixam-se de uma excessiva retração do sistema financeiro nas suas análises de crédito, mesmo quando o Estado está disponível para garantir 80% do valor do empréstimo através do Banco de Fomento".
"A garantia de Estado tem de gerar um efeito de alavancagem da atividade das empresas e não servir como um amortecedor do risco dos bancos. E muito menos pode servir para garantir créditos sem garantia do Estado para uma linha com garantia sem qualquer incremento no volume de crédito. Da mesma forma que é saudável a preocupação de continuar a reduzir percentagem de NPL, também é certo que o excesso de prudência atrasa o crescimento económico", adiantou o Ministro.
João Pedro Oliveira e Costa fechou com um alerta sobre o tema da fraude. "Acho que temos que fazer muito mais pedagogia a todos sobre este tema, especialmente com a entrada da Inteligência Artificial. Nós, em conjunto, através da APB, temos procurado divulgar e fazer uma campanha forte sobre o assunto".