O fato é branco, revestido por uma membrana de plástico e fechado até ao pescoço. A máscara com filtros de ar cobre o rosto para impedir qualquer contacto com o exterior. Nas mãos, pulverizadores químicos, panos de microfibras e projetores de alta potência capazes de revelar vestígios invisíveis a olho nu. Na entrada da casa, acumulam-se sacos destinados a resíduos biológicos, que seguirão depois para incineração. À primeira vista, poderia tratar-se de uma unidade de descontaminação química enviada para um cenário de catástrofe. Mas é apenas mais um dia de trabalho para a Deathclean, empresa portuguesa especializada em limpezas traumáticas, cenas de crime e descontaminação biológica. “Este trabalho não tem glamour nenhum, é limpar aquilo que ninguém quer fazer, é o pior trabalho do mundo”, diz Pedro Badoni, formado em Ciências do Ambiente e perito na utilização de substâncias químicas e biológicas em cenários de terrorismo e de guerra, ao Jornal Económico.
O trabalho vai além da limpeza convencional. Implica remover fluidos biológicos, descontaminar superfícies e eliminar materiais perigosos. A empresa, fundada em 2008, entra em apartamentos onde um corpo permaneceu dias (por vezes semanas) sem ser descoberto, em quartos marcados por suicídios com armas de fogo, em casas consumidas pela acumulação compulsiva, degradação e insalubridade extrema. “Não basta entrar numa casa e limpar. Estamos a falar de matéria perigosa, de risco biológico e de procedimentos que têm de cumprir legislação muito rigorosa”, explica Pedro Badoni, antigo bombeiro-sapador.
Hoje, a Deathclean afirma ser a primeira empresa certificada em Portugal para este tipo de intervenções, contando com certificação internacional da American Bio Recovery Association. “Na parte legal, esta indústria requer formação. Poucos anos depois de ter fundado a empresa e de ter tido contacto com os primeiros trabalhos que nos foram chegando, senti a necessidade de aprender mais e de me especializar. Foi por isso que fui para os Estados Unidos, onde todos os anos ainda tenho formação e onde obtivemos, enquanto empresa, o que temos até hoje. Ou seja, uma certificação através de uma associação americana que obriga a que, todos os anos, sejamos sujeitos a vários testes para provar que estamos aptos a desempenhar os trabalhos que nos chegam e a manusear todos os materiais necessários para a limpeza e desinfeção”, afirma ao Jornal Económico,
Entre os clientes estão autarquias de norte a sul do país, hospitais, escolas, faculdades de Medicina e empresas privadas. Mas a maioria dos pedidos continua a vir de famílias comuns confrontadas com aquilo para o qual ninguém está preparado. “Há situações em que é o Estado português a fazer o contacto, claro, no caso de a limpeza acontecer em habitações camarárias, por exemplo. Acontece também certas câmaras, e isso é de louvar, contactarem a Deathclean para limpezas em habitações particulares em que houve uma decomposição e não se consegue chegar à fala com a família da vítima. Mas, na maioria dos casos, os contactos vêm dos responsáveis da casa”, explica o fundador.
O trabalho da Deathclean começa quando todos os outros já saíram do local. Só entram depois de a investigação policial terminar e a habitação ser entregue à família ou ao proprietário. A experiência acumulada ao longo de anos permite-lhes reconstruir silenciosamente aquilo que aconteceu. “Cada serviço é um projeto”, diz Pedro Badoni. “Num homicídio, normalmente percebemos várias divisões contaminadas porque houve tentativa de fuga ou defesa. Num suicídio, o padrão é diferente.”
Por trás das intervenções mais visíveis existe uma operação altamente técnica e regulada. A Deathclean funciona num setor onde a margem para erro é praticamente inexistente: todos os resíduos biológicos têm de ser catalogados, transportados e destruídos segundo normas específicas de segurança e ambiente. O crescimento acelerou sobretudo depois da pandemia. “As pessoas começaram a perceber que certos ambientes não podem ser tratados por uma empresa de limpeza convencional”, afirma o fundador.
Atualmente, a empresa realiza 130 trabalhos por mês. Cerca de 70% do negócio continua ligado à morte e o restante divide-se entre descontaminação por vírus e bactérias, remoção de resíduos e substâncias químicas, danos por água e acumulação de lixo. Os valores cobrados refletem a complexidade extrema de algumas intervenções – um serviço pode ultrapassar os 70 mil euros quando envolve áreas extensas, risco biológico elevado ou operações de descontaminação profunda. Tudo depende da dimensão do espaço afetado, do nível de contaminação e do tempo necessário para restaurar o local em segurança. A operação mantém-se disponível 24 horas por dia. Há 10 colaboradores fixos, com formação especializada em risco biológico e exigências físicas pouco comuns no setor da limpeza. Trabalhar várias horas dentro de um fato impermeável, com máscara integral e filtros de ar, pode equivaler “a correr uma maratona dentro de uma sala fechada”, salienta.
Apesar da dureza do trabalho, Pedro Badoni garante que a componente emocional nunca desaparece totalmente. “Não há um total desapego emocional porque, no fundo, todos sentimos o que se está a passar ali, até porque foi uma vida que se perdeu”. A empresa investe em publicidade, outdoors em autoestradas, campanhas de sensibilização e presença digital. Não para promover consumo imediato, mas para garantir reconhecimento num momento de crise. “Ninguém procura este serviço por vontade própria”, afirma Pedro Badoni. “Mas quando acontece uma situação destas, é importante que as pessoas saibam que existe uma resposta especializada”. Ao contrário da maioria das empresas de limpeza, a Deathclean não trabalha para devolver brilho ou aparência. O foco está em recuperar espaços afetados por situações extremas e prepará-los para que possam voltar a ser utilizados.
A empresa que limpa os cenários mais difíceis
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Da limpeza de cenários de crime até à descontaminação biológica, a Deathclean está aberta 24 horas por dia e realiza 130 trabalhos por mês. Os preços variam entre os 300 euros e os 70 mil euros. Entre os principais clientes estão particulares, câmaras municipais, escolas, faculdades de Medicina e empresas do setor privado.