Durante décadas, o Tamagochi foi visto como um capricho infantil dos anos 90. No entanto, o pequeno “bichinho virtual” celebra o seu 30.º aniversário este ano e está longe de ser apenas uma relíquia nostálgica: continua a ser vendido, a gerar comunidades ativas e, em muitos casos, a atingir valores de dezenas ou centenas de euros no mercado de colecionadores.
A inspiração surgiu quando Akihiro Yokoi, o criador do projeto, viu um anúncio televisivo em que uma criança manifestava o desejo de viajar sem se separar da sua tartaruga de estimação. A partir dessa imagem, foi desenvolvido um brinquedo que permitia “levar um animal” para qualquer lado. O nome reflete essa lógica, resultando da fusão da palavra japonesa tamago (ovo) com o termo inglês watch (relógio), numa alusão simultânea ao formato do dispositivo e à sua função portátil.
Após a sua introdução no mercado japonês, o Tamagochi rapidamente ultrapassou fronteiras, chegando primeiro aos Estados Unidos e, pouco depois, à Europa. O impacto foi imediato: a procura superou largamente a oferta em vários países, transformando o brinquedo num fenómeno de massas e num dos símbolos mais marcantes da cultura pop do final dos anos 1990.
Segundo dados divulgados pela Bandai Namco e noticiados por vários órgãos de comunicação internacionais, já foram vendidas mais de 100 milhões de unidades em todo o mundo desde 1996. A longevidade do produto explica‑se não só pela sua capacidade de reinvenção tecnológica, mas também porque uma parte significativa dos compradores atuais pertence à geração que teve um Tamagochi na infância e que, décadas depois, regressa ao brinquedo movido pela nostalgia ou pelo interesse no colecionismo.
Para se ter uma ideia da loucura entre alguns colecionadores, um artigo da AOL contou a história de vários casamentos entre Tamagochis num encontro realizado em agosto do ano passado no Cecil Community Centre, em Toronto. Ali mais de 200 entusiastas assistiram ao enlace de Tamagochis que prometeram permanecer unidos apesar “das baterias descarregadas e das telas arranhadas”. A verdade é que o Tamagotchi não sobrevive apenas nas prateleiras: existe uma comunidade global de colecionadores e entusiastas altamente ativa, com fóruns, grupos e redes sociais dedicados à troca de informações sobre versões raras, dicas de conservação e avaliação de preços.
De brinquedo a investimento: quanto pode valer um Tamagochi?
Nem todos os Tamagochis antigos valem uma fortuna — mas alguns podem surpreender. Segundo um artigo da Flavor 365, os modelos comuns usados e sem caixa, costumam valer entre cerca de 14 e 28 euros no mercado secundário. Unidades em bom estado, com caixa original, podem atingir aproximadamente montantes entre os 75 e 185 euros, dependendo da edição e do estado de conservação. As versões novas, seladas na caixa original (designadas “New in Box”), podem custar entre 280 e 560 euros especialmente se forem edições limitadas.
A mesma fonte refere ainda que certos modelos especiais lançados na década de 1990 — como o Tamagochi Ocean, o Devilgotchi ou edições de Natal, podem atingir centenas ou, em casos muito raros, milhares de euros. Contudo, há casos mais extremos no mercado de colecionadores. Entre os modelos de Tamagochi mais cobiçados pelos colecionadores, destacam-se exemplares cuja raridade e especificações exclusivas fazem disparar o seu valor no mercado — e os preços, originalmente em ienes ou dólares, traduzem-se em valores significativos em euros.
No seu guia "O Futuro do Tamagochi Chegou", a Abita LLC & Marketing Japan afirma que o Devil Tamagochi preto, produzido em série limitada e vendido apenas no Japão, pode atingir cerca de 599 dólares, o que equivale a aproximadamente 545 euros, refletindo o apelo nostálgico e a escassez do modelo. Ainda mais valorizado é o conjunto de edição natalícia Pai Natal, composto por três unidades nas cores vermelho, verde e branco, que ronda os 865 euros. No topo da lista surge a edição iD Conan, oferecida em exclusivo aos leitores da revista Weekly Shonen Sunday, com um preço estimado superior a 1680 euros. Por fim, o modelo branco e vermelho, considerado ultrararo, destaca-se pela sua disponibilidade extremamente limitada, apenas acessível através de leilões, podendo alcançar os 2.730 euros.
Mas o que determina o preço de um tamagochi?
São essencialmente quatro os fatores que determinam o valor de um Tamagochi: o modelo e a geração, o estado de conservação, a existência da embalagem e dos acessórios originais e a procura no mercado. É uma lógica semelhante à usada em banda desenhada, cartas colecionáveis ou carros clássicos: quanto mais rara e melhor conservada for a peça, maior o seu valor potencial.
Se tem um tamagochi antes de anunciar “relíquia rara” numa plataforma de vendas, convém confirmar alguns pontos, como por exemplo se tem pilhas, se tem riscos ou se ainda funciona. Depois tente identificar o modelo exato, pois muitas vezes o nome do modelo e o ano de produção está na parte detrás da cápsula. Verifique também se tem a caixa original, pois esta pode multiplicar o valor do Tamagotchi. Verifique também se ainda possui o manual e os acessórios. Compare preços de vendas reais em plataformas online e peça ajuda seguindo as comunidades especializadas, seguindo as recomendações de coleccionadores.
Evolução tecnológica
Desde o modelo original com ecrã monocromático, o Tamagochi foi evoluindo ao longo de mais de duas décadas. Nos anos 2000, versões como o Tamagochi Connection introduziram comunicação por infravermelhos entre dispositivos, permitindo a interacção entre animais de estimação virtuais.
Em 2008, surgiram as versões com ecrã a cores, que enriqueceram a experiência visual. Nas últimas gerações, modelos como o Tamagochi Pix apresentam funcionalidades como uma câmara integrada e ecrãs mais avançados, enquanto o Tamagochi Uni introduziu conectividade Wi‑Fi e integração com aplicações móveis e comunidades digitais.
Esta capacidade de reinvenção tecnológica mantém o Tamagochi relevante para novos públicos, ao mesmo tempo que preserva a essência nostálgica que atrai colecionadores. Por isso, é mais do que um brinquedo. É um fenómeno cultural que coneta gerações. As comunidades online funcionam como mercados informais onde se discutem valores, raridades e histórias associadas a cada modelo.
Segundo a Smithsonian Magazine, existem fóruns dedicados, grupos no facebook e comunidades onde se trocam informações sobre versões raras, dicas de conservação e preços de mercado. Nestes espaços, o Tamagochi deixou de ser apenas um brinquedo para ser tornar um objeto de culto e estudo. Estas comunidades desempenham um papel importante na validação de preços e na identificação de versões verdadeiramente raras, ajudando a distinguir objetos de alto valor de itens onde a nostalgia supera o valor real de mercado. Se é deste tempo, quem sabe se não tem um "pequeno" tesouro guardado na gaveta.