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Reino Unido: aperta-se o cerco em torno do primeiro-ministro Keir Starmer

Cresce o número dos que consideram que já não está em causa se Keir Starmer se demitirá: só falta saber quando. Esta quarta-feira, há um encontro essencial com o ‘insurgente’ Wes Streeting. Mas, quando Starmer desistir, o país não tem de ir para eleições antecipadas.

O atual secretário de Estado da Saúde, Wes Streeting, considerado o mais bem posicionado candidato à liderança do Partido Trabalhista e do governo em substituição do atual primeiro-ministro, reunirá com Keir Starmer esta manhã de quarta. Cada vez mais analistas consideram que Starmer vai mesmo ter que abandonar o lugar – resta saber quando – depois de, desde a derrota trabalhista nas eleições locais da passada quinta-feira, a sua posição política ser a toda a hora um pouco mais insustentável.

Para além da demissão de quatro ministros – todos eles apelando à demissão de Starmer – há pelo menos 60 deputados trabalhistas da Câmara dos Comuns que fizeram o mesmo apelo. O curioso sistema britânico abre portas a que, sem necessidade de serem marcadas eleições antecipadas, um primeiro-ministro seja demitido. Pelos seus pares, o que é o mais curioso de tudo. O sistema trabalhista é um pouco mais severo que o conservador, mas vai dar ao mesmo: se pelo menos 20% dos deputados (o que, neste caso, e face ao número de deputados do partido, são 81) assinarem um documento em que se comprometem a apoiar determinado candidato, a sucessão fica automaticamente em aberto. No caso dos conservadores (e do seu poderoso Comité 1922), chegam 15%.

É verdade que Starmer conseguiu o apoio explícito de 111 deputados – entre apoiantes verdadeiros e deputados que consideram o timing de uma eventual substituição errado e um ‘favor’ a Nagel Farage, líder da extrema-direita do Reform UK, que ganhou as eleições. Mas pode não chegar. Num discurso aos membros do partido em Londres, Starmer fez um apelo apaixonado tanto ao seu partido como aos eleitores para que permanecessem ao seu lado e evitassem uma disputa pela liderança que, segundo disse, só traria caos a um país que, segundo alguns, já lá está.

Mas o seu discurso, no qual admitiu ter sido demasiado tímido ao lidar com os problemas que assolam o Reino Unido desde que conquistou uma enorme maioria em 2024, pouco fez para amenizar a raiva sentida por uma das piores derrotas do Partido Trabalhista nas eleições locais da semana passada. Com as eleições nacionais previstas para 2029, o partido não tem muito tempo – e esse é o grande trunfo de Starmer: uma disputa pela liderança, que poderia durar semanas ou mesmo meses, seria, na sua ótica, suicidário para o partido. A oposição interna diz que manter Starmer à frente do partido – e principalmente correr o risco de o atual primeiro-ministro apresentar-se às eleições de 2029, é que, isso sim, seria suicidário. Três não é muito para os trabalhistas tentarem recuperar a imagem – sendo certo que o contexto adverso (inflação, preço do petróleo, derrapagem do défice, aumento do prémio da divida e da própria dívida, pré-falência do Estado social) não vai alterar-se substancialmente nesse período.

A oposição também pode propor uma moção de ‘não confiança’ na Câmara dos Comuns. Se o governo perder, o parlamento pode ser dissolvido e novas eleições gerais são convocadas, mas este é um cenário mais raro (a última vez que sucedeu foi em 1979). A explicação para o curioso sistema radica no facto de os britânicos não votarem diretamente num primeiro-ministro, mas em deputados regionais (circunscrições); sendo assim, o partido que forma o governo pode trocar de líder sem que seja necessário dissolver o parlamento. Vale a pena recordar que em Portugal acontece qualquer coisa de semelhante: não foi por acaso nem contra as regras que, há anos, António Costa propôs a Marcelo Rebelo de Sousa ser substituído por Mário Centeno sem o recurso a novas eleições.