A saúde é a principal preocupação dos participantes num estudo nacional que revela uma avaliação mais negativa do acesso aos cuidados de saúde em Portugal. A maior quebra verifica-se nos hospitais, mas os centros de saúde também registam uma descida acentuada. Já o acesso às farmácias mantém uma avaliação praticamente inalterada.
Os resultados são da segunda edição do estudo T.O.P. Health — Tendências, Opiniões e Perceções da População sobre a Saúde em Portugal, desenvolvido pela Associação TOP Health em parceria com a Spirituc. O inquérito foi realizado entre 29 de abril e 29 de maio de 2026 e reuniu 620 questionários válidos de pessoas com 18 ou mais anos residentes em Portugal.

Numa escala de zero a dez, os participantes atribuíram uma média de 4,61 pontos à igualdade no acesso aos cuidados de saúde, independentemente dos rendimentos, do local de residência ou das características pessoais. Mais de metade (55,8%) deu uma classificação entre zero e cinco, enquanto apenas 28,5% atribuíram entre oito e dez pontos. Para 22,7%, a igualdade no acesso merece a pontuação mínima.
A avaliação da facilidade de acesso também piorou face à edição anterior. Nos hospitais, a média passou de 7,35 para 5,26 pontos. Nos cuidados de saúde primários, que incluem os centros de saúde, caiu de 7,73 para 5,78. Nas farmácias, pelo contrário, subiu ligeiramente, de 7,72 para 7,76 pontos.
Um em cada cinco participantes (20,7%) atribuiu uma classificação entre zero e cinco ao acesso aos cuidados hospitalares. O estudo mostra, assim, que saber quando se deve recorrer a um hospital ou centro de saúde não significa necessariamente conseguir aceder aos cuidados com facilidade.
As diferenças também variam consoante a região. No Norte, a facilidade de acesso aos hospitais foi avaliada em 5,78 pontos e a dos cuidados de saúde primários em 6,36. Em Lisboa e Vale do Tejo, as classificações foram inferiores: 4,73 e 5,19 pontos, respetivamente. No acesso às farmácias, Lisboa e Vale do Tejo obteve 8,01 pontos, acima dos 7,64 registados no Norte.
A saúde dos portugueses tem melhor avaliação do que a saúde em Portugal
Apesar das dificuldades identificadas no acesso aos cuidados, 61,1% dos participantes classificam o seu próprio estado de saúde como bom ou muito bom. Quando avaliam a situação geral da saúde no país, a opinião é mais negativa: 42,1% consideram-na má ou muito má.
A satisfação com a situação atual da saúde em Portugal também diminuiu. A classificação média passou de 6,32 pontos na edição anterior para 5,32 em 2026, numa escala de zero a dez.
Ainda assim, a saúde destaca-se claramente como a principal preocupação dos participantes: 68,4% identificam-na como prioridade, muito à frente da habitação e do custo de vida, com 8,5%, e da política, com 5,6%.
Oito em cada dez consideram que as notícias destacam sobretudo os problemas
A forma como a saúde é comunicada é outra das questões abordadas no estudo. Quase nove em cada dez participantes (89,4%) defendem que as iniciativas nesta área devem ser divulgadas ao grande público. Além disso, 65,8% discordam da ideia de que os portugueses não se interessam por notícias sobre saúde.
No entanto, 80% consideram que as notícias se concentram sobretudo nos problemas e nos casos que correm menos bem. Para 67,6%, os novos desenvolvimentos e as iniciativas realizadas em Portugal raramente recebem destaque, enquanto 66,3% entendem que os casos de sucesso não têm a visibilidade que merecem.
Apenas 43,1% consideram que a cobertura noticiosa da saúde é imparcial. Por sua vez, 38,7% classificam a linguagem utilizada pelos órgãos de comunicação social como difícil ou muito difícil de compreender.
A falta de informação também é apontada pelos participantes. Quase metade (47,1%) atribui uma classificação entre zero e cinco ao grau em que se sente informada sobre novos desenvolvimentos e iniciativas nacionais na área da saúde. Apenas 20,8% dão uma pontuação entre oito e dez.
"Portugal tem boas práticas que precisam de ser conhecidas, avaliadas e partilhadas", defende Paula Costa, cofundadora da Associação TOP Health, citada no comunicado do estudo. A responsável considera que divulgar iniciativas com bons resultados pode ajudar a levar essas soluções a mais pessoas e organizações.
Profissionais de saúde continuam a ser a principal fonte de informação
Os profissionais de saúde são a fonte de informação preferida por 83,5% dos participantes. Seguem-se a experiência pessoal ou de familiares e amigos, referida por 52,1%, e os sítios e portais especializados em saúde, com 48,1%.
A Internet tem vindo a ganhar importância na procura de informação sobre saúde. Nesta edição, 78,9% dos participantes dizem recorrer a este meio, mais 9,6 pontos percentuais do que na edição anterior. As redes sociais são referidas por 14,4% e os blogues e influenciadores dedicados à saúde por 7,9%.
A procura de informação na Internet é acompanhada por preocupações com a desinformação. Cerca de 69,8% reconhecem a existência de informação falsa ou enganosa sobre saúde. Ainda assim, 80% afirmam confirmar a informação em mais do que uma fonte e 72,3% consideram-se capazes de distinguir informação credível de conteúdos falsos.
Inteligência artificial reúne apoio
Apesar da avaliação negativa do acesso aos cuidados, os participantes mostram-se recetivos à utilização de novas tecnologias na saúde. A literacia em saúde autopercecionada, isto é, a forma como avaliam a sua capacidade para compreender e utilizar informação sobre saúde, subiu de 6,60 para 6,90 pontos.
Quanto aos hábitos de vida, 77,3% afirmam ter uma alimentação saudável, 60,2% dizem praticar desporto regularmente e 59% referem fazer acompanhamento médico regular. A utilização de ferramentas digitais também reúne apoio: 56,3% consideram muito importante recorrer a soluções digitais para melhorar a saúde dos portugueses. Já 81,6% consideram vantajosa a evolução e utilização da inteligência artificial nos cuidados de saúde.
As perspetivas para o futuro são mais positivas do que a avaliação do presente. Cerca de 43,3% dos participantes esperam uma evolução positiva ou muito positiva da saúde em Portugal na próxima década, acima dos 35,6% registados na edição anterior.
O estudo traça, assim, um retrato de contrastes: os participantes avaliam favoravelmente o próprio estado de saúde e mostram abertura à inovação, mas estão menos satisfeitos com a situação da saúde no país e questionam a igualdade no acesso aos cuidados.
Ficha técnica: o estudo foi desenvolvido pela Spirituc para a Associação TOP Health e baseia-se em 620 questionários válidos. Foram realizadas 118 entrevistas telefónicas a pessoas com 65 ou mais anos e recolhidos 502 questionários online junto de participantes entre os 18 e os 64 anos. A amostra foi selecionada a partir do painel próprio da Spirituc, sem quotas nem ponderação. Os resultados refletem as respostas dos participantes e devem ser interpretados tendo em conta estas características metodológicas.