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Portugal entra no inverno com reservas de gás a 88%, enquanto UE está nos 62%

Portugal chega à reta final do verão com 88,19% da sua capacidade de armazenamento de gás preenchida, uma das taxas mais elevadas da União Europeia. O país está apenas 1,81 pontos percentuais abaixo do objetivo europeu de 90% e, ao ritmo atual de injeção, poderia atingir esse patamar em cerca de seis dias. Na União Europeia, o armazenamento está nos 61,61%, num momento em que Bruxelas garante que não existe risco imediato para o abastecimento no próximo inverno.

Quando chega agosto, a corrida já não é às praias, mas aos depósitos de gás. Este ano, porém, a Europa entra na reta final da época de enchimento das reservas com menos folga do que nos últimos anos. A boa notícia para Portugal é que, nesta corrida, está entre os primeiros da classificação.

Os dados mais recentes da Gas Infrastructure Europe (AGSI) mostram que a União Europeia tem atualmente 61,61% da capacidade de armazenamento preenchida, enquanto Portugal apresenta 88,19%, o segundo nível mais elevado entre os países comunitários com armazenamento subterrâneo, apenas atrás da Polónia (89,42%). Espanha surge com 73,45%, Itália com 80,05%, França com 64,46% e Alemanha com apenas 50,14%.

Apesar da diferença face à média europeia, Portugal não está imune ao contexto internacional. O país beneficia de reservas confortáveis, mas continua integrado num mercado europeu onde o preço da energia depende da disponibilidade global de gás natural liquefeito (GNL), da procura e das tensões geopolíticas.

Portugal está, assim, praticamente a chegar ao objetivo europeu. Com 88,19% de armazenamento, faltam apenas 1,81 pontos percentuais para atingir os 90% previstos nas regras comunitárias para 2026.

E há outro dado relevante no quadro da GIE: Portugal estava a registar uma injeção de 10,78 GWh de gás por dia, sem retiradas de gás naquele momento. Se esse ritmo se mantivesse constante, seriam necessários cerca de seis dias para acrescentar os aproximadamente 64,6 GWh que separam o nível atual dos 90%. É uma estimativa meramente matemática, já que os fluxos de injeção podem variar de dia para dia.

A capacidade técnica total de armazenamento portuguesa é de 3,57 TWh, dos quais estavam armazenados cerca de 3,15 TWh. Restavam, segundo os dados apresentados, aproximadamente 0,31 TWh de capacidade disponível.

Portugal quase cheio, Europa ainda a meio caminho

A fotografia portuguesa contrasta com a situação agregada da União Europeia. Os números mostram, por isso, que o enchimento das reservas europeias continua em curso. A questão é saber a que velocidade os diferentes países conseguirão aproximar-se dos objetivos antes da entrada plena na época de aquecimento.

As regras europeias mantêm um objetivo de 90% de armazenamento, mas introduziram maior flexibilidade para 2025-2027. Em vez de existir uma data única e rígida, os países podem atingir o objetivo entre 1 de outubro e 1 de dezembro, existindo ainda margens adicionais de flexibilidade em determinadas circunstâncias de mercado.

A vantagem portuguesa tem uma ressalva... Apesar da posição confortável de Portugal na tabela, há uma nuance importante: ter uma percentagem elevada de armazenamento não significa necessariamente ter uma grande reserva em relação ao consumo do país.

Os cerca de 3,15 TWh armazenados em Portugal correspondem a 7,4% do consumo anual indicado no quadro, que ascende a 42,55 TWh.

Na média da União Europeia, pelo contrário, os 696,27 TWh armazenados representam cerca de 19,8% do consumo anual, estimado no quadro em 3.519 TWh.

Isto significa que Portugal está muito bem posicionado em termos de preenchimento da sua capacidade de armazenamento, mas dispõe de uma capacidade de armazenamento relativamente pequena quando comparada com o consumo anual. É uma distinção importante: o depósito português está quase cheio, mas o depósito não é particularmente grande.

A Espanha, por exemplo, tinha uma taxa de enchimento de 73,45%, mas armazenava 26,32 TWh, mais de oito vezes o volume armazenado em Portugal. A França tinha 79,85 TWh e a Itália 162,84 TWh.

Bruxelas afasta risco imediato

Apesar do ritmo de enchimento europeu estar abaixo do registado em alguns anos anteriores, a Comissão Europeia tem procurado afastar receios de uma crise de abastecimento no próximo inverno.

As reservas subterrâneas desempenham um papel importante na segurança energética europeia. Segundo a Comissão, o armazenamento pode assegurar uma parcela significativa do consumo durante o inverno e funciona como uma almofada de segurança perante picos de procura ou perturbações na oferta.

A Comissão tem também sublinhado que as atuais regras foram desenhadas para permitir maior flexibilidade quando as condições do mercado dificultam o enchimento das reservas. O objetivo continua a ser alcançar 90%, mas os Estados-membros dispõem de uma janela temporal mais ampla e de mecanismos para lidar com condições de mercado particularmente adversas.

O que os números dizem sobre Portugal

A leitura dos dados permite retirar uma conclusão clara: Portugal está muito mais avançado no processo de enchimento das reservas do que a média europeia.

Com 88,19%, o país está apenas 1,81 pontos percentuais abaixo do objetivo de 90%, enquanto a União Europeia ainda se encontra em 61,61%.

Portugal apresenta ainda uma vantagem adicional: continua a registar injeções de 10,78 GWh por dia, enquanto não apresentava retiradas no momento a que respeitam os dados.

Mas a fotografia também mostra os limites dessa vantagem. Portugal tem uma capacidade de armazenamento de apenas 3,57 TWh, o que significa que, apesar de o depósito estar praticamente cheio, o volume armazenado representa uma parcela relativamente pequena do consumo anual.

Ainda assim, quando a preocupação é chegar ao início do inverno com as infraestruturas de armazenamento preenchidas, Portugal parte claramente de uma posição confortável. E, pelos números disponíveis, o país já não está propriamente a encher o depósito: está a tratar dos últimos litros.

Analistas veem um inverno mais desafiante

Embora Bruxelas transmita uma mensagem de confiança, várias análises do setor apontam para um enquadramento mais exigente.

Segundo o elEconomista, citando a S&P Global Commodity Insights, as importações europeias de gás natural liquefeito diminuíram cerca de 4,1% desde o início do ano, enquanto a oferta mundial continua condicionada pelos efeitos do conflito no Médio Oriente.

A Oxford Economics, também citada pelo jornal espanhol, considera que este poderá ser o inverno mais desafiante para a União Europeia desde a crise energética de 2021, devido à combinação de menores importações de GNL, limitações na produção norueguesa, menor produção hidroelétrica e nuclear causada pela seca e eventual aumento da procura caso as temperaturas desçam de forma significativa.

No mesmo sentido, o diretor executivo da Equinor, Anders Opedal, alertou recentemente, em declarações à Reuters, que será difícil a União Europeia atingir os 80% de armazenamento antes do inverno, uma vez que parte do gás natural liquefeito destinado à Europa está a ser desviada para os mercados asiáticos.

Reservas elevadas não eliminam os riscos

O nível de armazenamento é um dos principais indicadores da preparação da Europa para o inverno, mas não é o único.

A evolução das temperaturas, a procura asiática por gás natural liquefeito, a estabilidade da produção na Noruega e a situação geopolítica no Médio Oriente continuarão a determinar a evolução dos preços e a pressão sobre os mercados.

Para Portugal, os dados permitem olhar para os próximos meses com maior tranquilidade do que grande parte dos parceiros europeus. Mas, num mercado energético cada vez mais global, ter os depósitos cheios não significa ficar imune às tempestades que se formam lá fora.