Imagine-se um material leve e resistente a químicos e calor e que pode substituir o cobre na condução de eletricidade ou na filtragem de água. Este tipo de material existe, chama-se nanotubo de carbono, estruturas minúsculas que a NASA está a aplicar nos seus foguetões para aumentar a resistência e a proteção das temperaturas externas no espaço. O Instituto Politécnico de Bragança e a Resíduos do Nordeste estão a desenvolver um estudo técnico e económico para perceber o valor deste material que provém de resíduos de embalagens plásticas recolhidas.
Fernanda Roman, co-responsável do estudo, diz ao Jornal Económico (JE) que o projeto pode posicionar Portugal como um potencial produtor europeu de nanotubos de carbono por uma rota sustentável e circular, diferenciando-se das rotas convencionais baseadas em derivados de petróleo. Portugal, atualmente, não tem representatividade industrial na produção destes materiais. Portanto, pode ganhar relevância ao desenvolver uma rota alternativa baseada na valorização de resíduos plásticos, criando uma proposta de valor diferenciada dentro do contexto europeu”.
De acordo com a responsável, a viabilidade económica do projeto “depende do volume de produção, da quantidade de resíduo plástico processado, do custo logístico da recolha da matéria-prima, e sobretudo do preço de mercado dos nanotubos de carbono, que varia significativamente em função da pureza e da aplicação final”.
Apesar do entusiasmo, ainda não foi feito um estudo de mercado formal “aos valores atuais o que conseguimos encontrar flutuam entre 50-500 dólares por kg [de 46 a 460 euros], dependendo de critérios de qualidade e de escala de produção, mas já considerando escalas industriais. “Não estamos a criar um mercado novo, mas sim a propor uma alternativa potencialmente mais sustentável e mais competitiva em custo para um material que já tem procura no mercado”, indica a investigadora.
O produto que está a ser desenvolvido é um substituto de nanotubos de carbono convencionais, atualmente produzidos maioritariamente a partir de derivados de petróleo puros.
Atualmente, a produção global de nanotubos de carbono está concentrada na Ásia-Pacífico, que representa cerca de 39% do mercado global, com especial destaque para China, Japão e Coreia do Sul.
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A investigadora Fernanda Roma com os resíduos plásticos.[/caption]
O interesse da indústria aeroespecial nos nanotubos de carbono está sobretudo nas suas propriedades como a resistência mecânica, baixo peso, e condutividade elétrica e estabilidade térmica. “Na indústria aeroespacial, os nanotubos de carbono são comumente aplicados na produção de materiais compósitos. Na prática, ao incorporar os nanotubos de carbono num outro material, seja um polímero ou um metal, podemos aumentar consideravelmente a resistência mecânica e térmica desse material compósito, sem acrescentar peso”, explica a investigadora.
Para além da indústria aeroespacial, existem vários setores estratégicos em Portugal com potencial de utilização deste material explica o estudo que é apoiado pela Sociedade Ponto Verde, tais como “a indústria de componentes para automóveis, principalmente para a produção de compósitos leves e materiais condutores; a microeletrónica e sensores, devido à elevada condutividade elétrica dos nanotubos; o setor têxtil técnico, e ainda a área do tratamento de água e ambiente, através de membranas, adsorventes e materiais catalíticos”, acrescenta Fernanda Roman.