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Histórias da resistência dos que ficam

Vista Alegre e Primus Ceramics enfrentam as adversidades com inovação e capacidade de adaptação. Recusam-se a deixar Portugal e a produzir fora. São os resistentes.

Com 200 anos de vida, a Vista Alegre já viu de tudo. Já esteve à beira da morte, quando o grupo Visabeira a salvou com a Atlantis e a Bordallo Pinheiro. Mais tarde juntou-se a RiaStone. Um passado que serve de alicerce para as intempéries que vão surgindo no negócio. O da energia não é novo. Na pandemia e na guerra com a Ucrânia já sentiram na pele a escalada de preços do gás natural. Para mitigar este impacto, “o grupo tem efetuado vários investimentos em eficiência energética e descarbonização, conseguindo reduzir o consumo de gás natural através da recuperação de calor dos fornos”, explica Fernando Daniel Nunes, CEO do grupo Vista Alegre. A estratégia incluiu ainda a substituição de iluminação por tecnologia LED e a preparação dos fornos para utilização futura de hidrogénio.
As alternativas ao gás natural ainda enfrentam obstáculos relevantes. “O hidrogénio ainda não está consolidado nem é competitivo, e não existe oferta suficiente para o nosso consumo”. Já o biometano, embora mais fácil de integrar, só estará mais acessível a partir de 2028.
Quanto aos preços de carbono, apenas a unidade industrial RiaStone está abrangida pelo regime europeu de comércio de licenças de emissão, “mas essa realidade pode mudar.”
Mesmo com sinais de abrandamento, sobretudo no Médio Oriente, devido à instabilidade geopolítica, as vendas mantêm-se estáveis, com impacto limitado na Europa e nos Estados Unidos.
Apesar de reconhecer que produzir noutras geografias poderia reduzir custos, o grupo mantém a aposta no país. “Procuramos sempre investir em Portugal. Queremos criar emprego e valor cá”, afirma, acrescentando que os projetos industriais do grupo são considerados para expansão internacional, mas acabam por ser mantidos em território nacional. “Estas crises reforçam a necessidade de investir num futuro mais sustentável”, diz Nunes.
A Primus Ceramics é também um caso de adaptação. “Já vai na terceira geração”, diz Paulo Almeida, CEO da empresa. Nos últimos anos, enfrentou um dos maiores desafios do setor, a transição energética e a descarbonização, com investimentos relevantes na eficiência e modernização industrial. Porém, o contexto europeu levanta preocupações. “As políticas associadas ao CELE agravam a pressão sobre a indústria, apontando para benchmarks mais exigentes e custos crescentes”, lamenta. A isto soma-se a concorrência de mercados com regras ambientais e sociais menos rigorosas, “criando uma concorrência desigual.” Apesar disso, a Primus investiu em inovação ao desenvolver o primeiro secador híbrido do mundo e ao comprar biometano para descarbonizar, a um preço quatro vezes mais caro do que o gás natural. “A competitividade industrial e a ambição climática têm de caminhar juntas, não no sentido oposto. Senão, exporta-se indústria e importa-se emissões”, alerta Paulo Almeida.

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