Há agricultores que já chamam aos fertilizantes o ouro do século XXI. Estes chegam a representar entre 30% e 40% dos custos de uma cultura e o seu preço não para de subir. A peça de dominó que faz disparar o aumento dos preços dos fertilizantes é a energia. Por isso, quanto mais tempo durar a instabilidade geopolítica e os conflitos internacionais, maior tende a ser a pressão sobre os preços dos alimentos. É uma pescadinha de rabo na boca.
Quando o petróleo ou o gás natural sobem, os custos acabam por chegar diretamente ao prato do consumidor. O petróleo tem andado numa roda viva entre subidas e descidas. No dia 10 de março, o preço do Brent caiu mais de 6% na sessão de abertura, fechando a rondar os 92 dólares por barril, um dia depois de ter disparado devido à guerra no Médio Oriente.
A este cenário junta-se a perturbação no estreito de Ormuz, uma rota comercial crucial que liga o Golfo ao Oceano Índico e que é controlada pelo Irão. A interrupção do tráfego marítimo nesta região compromete o abastecimento das empresas produtoras de fertilizantes.
“Cerca de 25% a 35% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados passam por este estreito, e o tráfego de embarcações está reduzido a um fio, com mais interrupções no Golfo, Norte de África e Mediterrâneo Oriental”, lê-se no estudo Rabo Research, Mercados globais de fertilizantes sentem impacto do conflito no Médio Oriente.
“Em 48 horas após o primeiro ataque ao Irão, os preços da ureia no Norte de África subiram quase 20% e o gás natural na União Europeia teve um aumento aproximadamente de 45%, ressaltando o papel crítico desta região no fluxo global do comércio de fertilizantes”, acrescenta o mesmo estudo.
Apesar de o Médio Oriente ser mais conhecido pelas reservas de petróleo e gás natural, a abundância de energia permitiu também o desenvolvimento de grandes fábricas de fertilizantes, sobretudo os que fornecem nitrogénio. Irão, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein estão entre os principais exportadores mundiais. Segundo dados citados pela Folha de São Paulo e pela Associação Internacional de Fertilizantes, este grupo produz quase um quinto dos fertilizantes fosfatados do mundo.
O problema atual não está tanto na produção, mas sim na entrega. A interrupção do tráfego marítimo naquela região tornou-se um dos principais fatores por trás da subida dos preços.
Esta instabilidade afeta particularmente produtos muito dependentes de energia. Como refere Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), “o custo de fabrico dos fertilizantes é essencialmente energia”.
Segundo os analistas da Rabo Research, a chave para a estabilização dos preços dependerá sobretudo da duração do conflito. “O aumento de 30% dos preços do amoníaco ou de 20% no enxofre colocaria os produtores de fosfato sobre pressão, enquanto um prémio de 20% ou 30% global na ureia em relação ao preço dos chineses poderia atrasar ainda mais as exportações chinesas. Pelo menos um prémio de risco da guerra parece inevitável”.
De acordo com a Associação Internacional de Fertilizantes (IFA), a produção destes compostos é responsável por 94% do consumo de energia de toda a indústria de fertilizantes. Os principais combustíveis utilizados são o gás natural (73%) e o carvão mineral (27%), ambos fósseis e responsáveis por emissões significativas de dióxido de carbono (CO₂).
Com as metas de descarbonização impostas a nível internacional, alguns países já tiveram de reduzir produção. E é neste contexto que entra também a nova taxa de carbono europeia: o CBAM.
Qual a implicação no preço do novo CBAM?
O novo mecanismo europeu de taxação de carbono já começou a pressionar o mercado dos fertilizantes e poderá juntar-se às tensões geopolíticas no Médio Oriente para encarecer ainda mais os custos agrícolas — e, potencialmente, os preços dos alimentos.
Desde janeiro de 2026, a produção europeia de fertilizantes passou a estar sujeita de forma mais direta ao Sistema de Comércio de Licenças de Emissão da União Europeia (ETS), o mercado de carbono criado em 2005 para limitar as emissões de gases com efeito de estufa.
Como explica Isabel van Zeller Basto, analista política da Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri), em Bruxelas, o sistema estabelece um teto de emissões e obriga as empresas a comprar licenças para emitir CO₂, sendo esse limite gradualmente reduzido ao longo do tempo.
Até ao final de 2025, parte da indústria recebia licenças gratuitas. Agora, essas licenças estão a ser progressivamente eliminadas.
“As empresas produtoras de fertilizantes tinham uma espécie de vouchers gratuitos para compensar as emissões. Mas este ano vão ter que começar a pagar — e cada ano pagarão mais”, explica.
O impacto no preço é praticamente inevitável. “Se pagarem pelas emissões de carbono, vão ter que refletir isso no preço de venda. Portanto, vai aumentar o custo dos adubos produzidos na União Europeia”, afirma.
Para evitar a chamada “fuga de carbono”, quando a produção se desloca para países com regras ambientais menos exigentes, a União Europeia criou o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM).
Após um período de transição entre 2023 e 2025, o CBAM entrou oficialmente em vigor a 1 de janeiro de 2026. O mecanismo abrange setores intensivos em energia, incluindo aço, cimento, alumínio, ferro, fertilizantes e eletricidade.
Segundo Isabel van Zeller Basto, o funcionamento é relativamente simples no princípio, mas complexo na prática. “Se as empresas europeias vão ter que pagar uma taxa pelas emissões e depois as importações não pagam essa taxa, isso colocaria a produção europeia numa posição extremamente difícil”, explica.
Apesar do debate político em torno do tema, Bruxelas decidiu manter o mecanismo, introduzindo apenas um “travão de emergência” que permite suspender a taxa em caso de perturbações graves no mercado.
Os primeiros sinais já são visíveis. Dados da Comissão Europeia mostram que as importações de fertilizantes nitrogenados caíram abruptamente no início do ano. Em janeiro de 2026, a União Europeia importou cerca de 179 mil toneladas, muito abaixo das 1,18 milhões de toneladas registadas no mesmo mês de 2025.
Ao mesmo tempo, os preços começaram a subir. No caso da ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados, os preços passaram de cerca de 470 euros por tonelada no final de 2025 para cerca de 570 euros após a entrada em vigor do CBAM — um aumento de cerca de 20% a 25%.
Impacto em Portugal
Portugal é o Estado-membro da União Europeia com menor consumo de fertilizantes minerais. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2019 o consumo aparente foi de 31 kg por hectare de Superfície Agrícola Utilizada (SAU), menos de metade da média da UE27.
Com as metas da estratégia europeia “Do Prado ao Prato”, que prevê reduzir em 20% a utilização de fertilizantes minerais até 2030, o país poderá ter de descer para cerca de 24,5 kg por hectare.
Ainda assim, Portugal continua fortemente dependente das importações. "Em 2025, os produtores portugueses importaram cerca de 342 milhões de euros em adubos, mais 8% do que no ano anterior", diz o Diário de Notícias.
Segundo Marco Morais, Presidente da Associação Nacional de Produtores e Importadores de Fertilizantes (ANPIFERT), no caso de Portugal, o impacto não é necessariamente direto em termos de abastecimento imediato, porque o país importa fertilizantes de várias origens. No entanto, sendo um mercado muito dependente de importações, Portugal está inevitavelmente exposto às variações de preço e às tensões no comércio global. “Outra questão que nos afeta indiretamente prende-se com as repercussões nos preços da energia, nomeadamente do gás natural. Este é um fator determinante na produção de fertilizantes azotados e qualquer aumento significativo do seu preço poderá refletir-se nos custos de produção e, consequentemente, no preço final destes produtos”, explica.
O responsável diz ainda que os mercados de fertilizantes são altamente internacionais e reagem muito rapidamente a alterações geopolíticas ou energéticas a nível global. Movimentos como os que estão a ser observados no preço da ureia, do amoníaco ou do enxofre refletem essa sensibilidade. “Estes produtos funcionam frequentemente como referências para o mercado internacional, embora em Portugal existam outros tipos de fertilizantes mais utilizados e com maior peso no consumo nacional, nomeadamente os fertilizantes compostos (NPK, ou seja, cuja composição não assenta unicamente no azoto mas também nos outros macronutrientes como o fósforo e o potássio).”
Em Portugal, já se começa a sentir o impacto destas variações, com particular incidência no nutriente azoto (N). Caso as tensões persistam, é provável que se observe um aumento da pressão sobre os preços, também no mercado português. “Ainda assim, é precisamente o papel dos associados da ANPIfert trabalhar para minimizar estes impactos junto dos seus clientes, procurando origens alternativas de abastecimento e gerindo o mercado da melhor forma possível, de modo a que os agricultores sejam o menos possível afetados por esta instabilidade”, adianta.
Marco Morais garante que de momento, não existem sinais de escassez física de fertilizantes no mercado e a principal preocupação dos associados da ANPIfert prende-se sobretudo com a volatilidade dos preços e com o aumento dos custos de produção ou de importação, que podem agravar-se caso a instabilidade geopolítica se prolongue.
O Presidente da ANPIFERT diz ainda que também referir que o setor tem hoje mais experiência na gestão de períodos de forte volatilidade, na sequência do choque ocorrido em 2022 aquando do início do conflito Russia-Ucrânia. “Nessa altura observou-se uma elevada capacidade de adaptação do mercado e uma significativa elasticidade na cadeia de abastecimento. Apesar da forte pressão sobre os preços, em nenhum momento se verificaram ruturas de stock no mercado nacional”.
As culturas que mais consomem fertilizantes, como os cereais ou algumas produções hortícolas, são naturalmente mais sensíveis a variações de preço destes produtos. São também, em geral, aquelas onde existe maior utilização de formulações mais básicas. A agricultura portuguesa tem evoluído ao longo dos últimos anos para modelos de nutrição vegetal baseados em produtos mais tecnológicos e complexos recorrendo às tecnologias de fertilizantes, bioestimulantes e biofertilizantes mais avançadas. “Nesse sentido, a nossa exposição direta a este tipo de fertilizantes mais elementares é, em muitos casos, menor do que em outros países da União Europeia, como França ou Espanha, por exemplo. Ainda assim, continuamos expostos ao mercado global e, de forma indireta, através dos custos da energia, do transporte e da produção noutros países, estas dinâmicas acabam por repercutir-se também no mercado português”, explica.
Marco Morais destaca ainda outro problema é que este ano tem-se registado uma pluviosidade elevada, o que pode levar a uma intensificação das aplicações de fertilizantes durante a primavera. Isso poderá fazer coincidir um pico de procura com o atual contexto de instabilidade nos mercados internacionais. “Neste momento é ainda prematuro fazer uma comparação entre a situação atual com a ocorrida em 2022, mas o setor acompanha a situação com atenção procurando manter as cadeias de abastecimento funcionais”, termina.