A primeira vez que entrevistei Cristina Saiago foi há mais de dez anos. Lembro-me de, na altura, ter ficado surpreendido com a sensibilidade e sobretudo a calma que a responsável da Clarins em Portugal me transmitiu. Vivíamos o pós-Troika e ainda nem sequer sabíamos o que significava a palavra covid e os livros de gestão inundavam as prateleiras com histórias de lideranças masculinas, onde dormir era uma fraqueza e participar no Iron Man uma certeza. Os CEO andavam frenéticos nessa altura. Cristina Saiago ficou-me na memória por parecer ser a Némesis desse padrão. Já mais recentemente, descobri que a marca de cosméticos – que não faz publicidade com caras conhecidas – é líder de mercado em Portugal. E a curiosidade aumentou. Daí até agendarmos o almoço para esta rubrica foi um fósforo. Poucos dias depois de ter reatado o contacto estávamos, por sugestão da entrevistada, a almoçar no restaurante Bougain, no hotel Valverde, na Avenida da Liberdade, um sítio calmo – lá está – e com algumas mesas mais privadas, ideais para conversar.
Cheguei atrasado e stressado e encontrei a diretora-geral da Clarins Portugal já sentada à mesa, serenamente à espera. Depois das minhas desculpas, e ainda antes de me acalmar, fiz referências ao hiato de tempo desde a última conversa e passei logo às perguntas para saber o caminho que a levou à posição que ocupa há 17 anos. Começamos pelo início, claro.
Depois da universidade, feita na Católica de Lisboa, a primeira experiência profissional de Cristina Saiago foi num mundo bem diferente do da cosmética: a banca. Fez a estreia profissional num departamento de criação de eurobonds no Banco Finantia. Recorda o quão interessante foi sair da universidade para o mundo profissional e ter trabalhado com um financeiro sénior alemão que veio diretamente da Merrill Lynch de Londres para Lisboa. Mas, e há sempre um “mas”, passado um ano e meio percebeu que a rotina daquele trabalho, a falta de novidade e a solidão da função não a estavam a motivar. Entretanto, um acidente em França mudou-lhe a vida.
Estava na neve, recorda, “caí e o esqui que estava apertado demais não saltou, o joelho dobrou e parti um ligamento cruzado no joelho”. Veio logo para Portugal para ser operada e, durante a “longa e penosa recuperação”, percebeu que esse podia ser um sinal para mudar de vida. Ainda a convalescer começou a procurar trabalho. Concorreu ao departamento de marketing da revista “Marie Claire”, “que na altura estava com enorme pujança” e à SIC, que a uma semana de começar a transmitir já tinha todos os lugares ocupados. Passou por uma entrevista na L’Oréal mas como não houve empatia, não aceitou, recorda. No entanto, a ligação à cosmética e à beleza parecia estar destinada. E fez por isso. Enviou o currículo para a Estée Lauder, que na altura estava a lançar um novo departamento em Portugal para integrar novas marcas acabadas de comprar pelo grupo, como a Tommy Hilfiger, MAC, Bobby Brown e ficou no departamento de marketing. “Cheguei na hora certa”, desta vez houve empatia com o diretor-geral, diz. E por lá ficou durante onze anos, em várias funções. Até que um dia um headhunter lhe bate à porta com a oferta para ser diretora geral da Yves Saint-Laurent em Portugal. O negócio da casa francesa não estava a correr como desejado e Paris decidiu fazer uma reestruturação completa do negócio em Lisboa. E se na entrevista para a Estée Lauder tinha ido de muletas a convalescer do acidente na neve, para a Yves Saint-Laurent foi numa condição ainda mais especial: grávida de oito meses do primeiro filho. Ficou com o lugar. “Foi um primeiro ano muito duro. Entrava às oito da manhã, saía às oito da noite, chegava a casa, tratava da filha e depois ainda trabalhava mais um par de horas até adormecer”, tudo para fazer a tal reestruturação da empresa o mais rápido possível. Depois disso, esteve cinco anos à frente da marca francesa. E, mais uma vez, um headhunter bate à porta para lhe propor um cargo na direção de mais uma empresa francesa, a Clarins. “Também com a missão de reestruturar o negócio em Portugal. Desta vez foi mais fácil e rápido pela experiência que já tinha. Lembro-me que os donos da marca ficaram admirados com a rapidez”, explica a sorrir.
Entretanto, já tinham passado 30 minutos da nossa conversa, confirmo no meu relógio. E apesar de ter sentido o vulto dos empregados a passar pela mesa com frequência, estávamos praticamente invisíveis ao serviço do restaurante.
Enquanto tentava chamar a atenção de algum empregado, aproveitei para mudar o tema da conversa e perguntei o que andava a ler. “Neste momento, estou a terminar um dos livros que trouxe recentemente da África do Sul, do Trevor Noah (“Sou um Crime - Nascer e crescer no Apartheid”). Tem uma combinação muito inteligente de humor e lucidez, em que ele retrata a forma como o apartheid marcou a sua vida e influenciou a relação com os outros. É uma leitura ao mesmo tempo envolvente e profundamente reveladora, sobretudo porque ele é filho de mãe sul-africana preta e pai suíço branco, e nunca foi nem branco, nem preto. E isso sempre foi discriminatório a dobrar. É muito interessante, não só para nos pormos nos ‘sapatos’ dele, mas também para perceber como a sociedade durante o apartheid funcionava, em guetos, em violência seletiva”. Aproveito o embalo e pergunto como faz para equilibrar a vida pessoal com a direção de uma empresa. Diz que dedica o tempo livre à família e aos amigos, a sua família alargada. Acrescenta as viagens, fins de semana fora ou serões bem passados como hobby preferido.
Entretanto, uma das empregadas do restaurante chega à mesa com mil desculpas pelo “esquecimento”. Aproveito para observar a entrevistada. Um momento destes é sempre interessante para avaliar como reage um CEO à manifesta incompetência. Mas nada de exaltações. Cristina Saiago faz um sorriso frio de circunstância e não perde tempo com o pedido, que copio e anuo: tártato de atum picante. E água com gás para acompanhar.
Cristina Saiago “A nova geração tem outras prioridades e não é menos eficiente por isso”
/
Nada acontece por acaso, acredita a diretora-geral da Clarins em Portugal. À mesa, Cristina Saiago conta como um acidente lhe mudou a vida e como transformou momentos de crise em oportunidades . A responsável por levar a marca francesa à liderança do mercado em Portugal confessa estar muito atenta aos mais jovens, tão diferentes da sua geração.