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A revolução necessária nas Universidades

A resposta não pode ser usar IA para tornar a universidade antiga ligeiramente mais eficiente. A revolução necessária é mais profunda: passar de um modelo centrado na transmissão de conhecimento para um modelo centrado na transformação da pessoa

1. A crise do sistema atual
As universidades enfrentam a maior crise de legitimidade desde a sua massificação. Durante décadas, o contrato foi simples: o estudante investia vários anos numa instituição, a família suportava custos elevados, e a sociedade aceitava o diploma como sinal de competência, disciplina e estatuto. Esse contrato está a desfazer-se. A inteligência artificial (IA) não criou todos os problemas, mas tornou-os impossíveis de esconder. O modelo universitário moderno foi desenhado para um mundo de escassez de conhecimento, de professores, de bibliotecas, de feedback e de certificação.
Hoje, qualquer estudante tem no bolso um tutor permanente, capaz de explicar, programar, escrever, simular, corrigir e personalizar percursos de aprendizagem em segundos. A questão não é apenas a fraude académica. Esse é o sintoma superficial. O problema mais profundo é que a IA destrói a evidência tradicional de aprendizagem. Se um ensaio, um problema ou um relatório podem ser produzidos sem que o aluno faça o trabalho cognitivo de síntese, crítica e iteração, então a avaliação deixa de provar aquilo que dizia provar. E, quando a avaliação perde credibilidade, o diploma começa a perder valor.
Ao mesmo tempo, a IA ataca o primeiro degrau profissional que justificava muitos cursos. As famílias perguntam, com razão: que emprego real existe no fim do curso? Que rede de contactos estou a comprar? Que competência tangível leva o aluno consigo? Que prova concreta tem de que sabe fazer alguma coisa relevante? O antigo argumento do “canudo” já não chega. Em muitas áreas, a universidade tornou-se uma fábrica de credenciais cara, lenta e burocrática, demasiado protegida da concorrência e demasiado distante do mundo que diz preparar.
Em Portugal, esta crise é agravada por bloqueios conhecidos: regulação excessiva, currículos difíceis de alterar, numerus clausus definidos administrativamente, propinas uniformizadas, carreiras docentes rígidas e governação demasiado fechada sobre si própria. O resultado é um sistema com poucos incentivos para inovar e quase nenhuma consequência para a irrelevância. A próxima década fará uma triagem impiedosa: sobreviverão as instituições que criam verdadeiro capital humano; as restantes manterão talvez edifícios e acreditações, mas perderão a confiança de alunos, famílias e empregadores.

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