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A invasão silenciosa e invisível do país do sol nascente

Já deu conta que o Japão foi incapaz de produzir um telemóvel que se impusesse no mundo? E tem dificuldades na transição para os veículos elétricos? O país fechou-se, envelheceu e precisa de mão de obra. Problema: os japoneses não gostam de forasteiros.

Não é impunemente que um tipo vive quase quatro anos do outro lado do mundo, imerso na cultura mais radicalmente diferente da nossa, com distância suficiente em relação à Europa para ver Portugal como nunca viu, e proximidade suficiente ao Japão para garimpar pontos de contacto entre o que se passa lá e o que vivemos cá. Por isso vos vou falar do Japão. Mas tem a ver connosco, verá.

Tocqueville dizia que quem só conhece um país não conhece país nenhum. Aprendi que só se percebe mesmo esta frase quando se é emigrante. A minha estadia no Japão, com altos e baixos, com a luta diária contra a barreira da língua, com o racismo latente, com a oportunidade única de ter entrado no país quando ele estava fechado por causa da pandemia, vendo um Nippon ideal, lento, contemplativo, sem a invasão dos turistas, ensinou-me tanto sobre o Japão como sobre Portugal. Pelos contrastes, mas também pelas inesperadas semelhanças. Pelos problemas iguais que têm soluções diferentes e pelos problemas iguais que não têm (ainda) solução.

Podia escrever sobre lugares mágicos e maravilhosos, mas vou olhar para algo banal: supermercados e centros comerciais. A Aeon é um dos principais operadores de supermercados e centros comerciais, uma espécie de Sonae de lá, mas em maior (eles são, no total, 124 milhões). É um dos gigantes do retalho japonês, com centros comerciais, quatro cadeias de supermercados, lojas de conveniência e uma popular rede de drogaria/produtos de higiene/ parafarmácia. Até tem cinemas.

O que não tem é mão de obra para que a companhia cresça ao ritmo planeado. A inauguração de dois centros comerciais já foi adiada. Não é um problema exclusivo, afeta toda a economia japonesa, dos mega-conglomerados aos pequenos negócios de bairro, dos grandes promotores imobiliários que continuam a levantar arranha-céus no skyline de Tóquio, às autoridades de todos os níveis – do Governo às municipalidades – que têm obras para fazer mas não têm quem as faça.

Conforme o Japão se foi deixando apanhar enquanto grande potência industrial exportadora (continua a ser tudo isso, mas foi ultrapassado por concorrentes mais inovadores, mais dinâmicos e mais abertos ao mundo), a construção ganhou peso como uma das grandes alavancas da economia nipónica. Há regras de construção anti-sísmica que obrigam a deitar abaixo e reerguer certas habitações de x em x anos; há o eterno fascínio de Tóquio como laboratório de ideias arquitetónicas; e há uma fatia considerável do Orçamento do Estado para cimentar o país. Não me entendam mal: o Japão é um prodígio de beleza natural, e mal seria se não o fosse, tendo em conta que só 20% do seu território é urbanizado, sendo o restante montanha mais ou menos (esta ressalva é importante) intocada. Mas há uma mentalidade japonesa de perigo iminente (com boas razões: terramotos, tsunamis, tufões, com ventos e chuvas diluvianas) e o Estado assumiu o encargo de tornar o país tão seguro quanto possível, promovendo a construção de estradas aparatosas onde não circulam carros, túneis sem trânsito, cimentando encostas inteiras e domesticando rios betonando-lhes as margens. Alex Kerr, um dos autores que mais tem chamado a atenção para esta realidade, fez-me perceber algo inquietante: quase não há rios no Japão com margens naturais. E essa é uma tarefa nunca concluída.

Como a população do Japão é a mais envelhecida do mundo, e a sua taxa de fertilidade é das mais baixas, a população está a diminuir – são hoje menos 4 milhões do que há oito anos. O Japão precisa de mão de obra. Felizmente, não falta nos países à volta, sobretudo no Sudeste Asiático, gente com vontade de trabalhar num país mais rico. Infelizmente, os japoneses não gostam de forasteiros. Esta é uma generalização, há sempre exceções à regra (e encontrei tantas!), mas vi muitas vezes japoneses a olhar de viés para estrangeiros que se sentavam ao seu lado no metro e a mudar de lugar ostensivamente (várias vezes era eu esse estrangeiro).

Uma das razões da quase estagnação do Japão desde que rebentou a bolha financeira nos anos 90 foi o seu fechamento e rigidez. Já deu conta que o Japão foi incapaz de produzir um telemóvel que se impusesse no mundo? E que está em sarilhos na transição para os veículos elétricos? Faltava-lhe diversidade, agora falta-lhe força braçal. As leis de controlo de imigração, de uma rigidez insana (sei do que falo), já foram aliviadas, mas o Japão não está a atrair imigrantes suficientes, pois a fama de xenofobia e racismo não é o melhor cartão de visita.
Falta quem trabalhe nas lojas de conveniência, na agricultura, na pesca, nos lares de idosos, na construção civil. Os atrasos nos centros comerciais da Aeon são só um exemplo. Segundo o Nikkei Asia, o estrangulamento da construção civil – ou seja, obras que poderiam avançar mas não avançam por falta de braços – está estimado em 103 mil milhões de dólares. Ao mesmo tempo, um partido de extrema-direita surpreendeu ao eleger pela primeira vez representantes para a Câmara Alta do Parlamento. Foram logo 13 lugares. A campanha foi à Trump: “Vamos Fazer o Japão Grande Outra Vez” e “Os Japoneses Primeiro” eram os slogans do Sanseito, que insistiu na ideia de que o Japão está a sofrer “uma invasão silenciosa” de imigrantes. É mesmo silenciosa, porque ninguém os ouve, nem os vê. E não se pode dizer que roubem o trabalho dos japoneses, porque não há japoneses para trabalhar.

O que há, isso sim, e é muito perturbador do “nippon way of life” são milhões de turistas, sobretudo americanos, numa invasão como nunca se viu. Os autóctones odeiam-nos (e como eu os compreendo!). Mas com a indústria num impasse, sem ter quem lavre campos, assente tijolos ou pesque nos mares, se não fosse o turismo a economia japonesa estaria ainda em piores lençóis. Os japoneses primeiro? Mas que japoneses? Os velhinhos a cair da tripeça ou os jovens que sonham com um emprego burocrático que lhes dê segurança para a vida? Não há soluções mágicas, por muito que a extrema-direita as prometa. Mas há sempre quem acredite. Deve ser um defeito de fabrico. Não dos japoneses; da humanidade.